quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Uma fagulha
- hulha -
assombrosas telhas

jaz o retorno

em tortuosas folhas

olhas o fim
e não o vês

colinas não existem
tampouco céus azuis

troco os tremores
por perguntas vis

última oferta
troco um nó na garganta
por tenros rouxinóis
tão límpidos quanto anzóis

morreu o tempo
o fogo
que fura
teu olho
não vê

o olho
que disputa
o fogo
não vê

o que não vê
não olha
posto que chove

chove no fogo
do olho que olha
e vê o pouco que
pode ver
o olho que chove

chove fogo no olho do mundo

Em maio de 2014

Lattes III

Pesquisadora encontra vestígios
de índios em ilha
do Rio de Janeiro
Uma pedra

Na entrevista a pesquisadora
mostra-se apressada
e inquieta
o repórter não sabe a causa
de tanto alvoroço

Ele não sabe, mas os
pesquisadores brasileiros sabem
ela precisa urgentemente
de um maço de cigarros e internet
para poder colocar na plataforma
sua grande descoberta

O que a pesquisadora não sabe
sequer desconfia
é que no Lattes
não há maneira de inserir
uma pedra como indício de
que índios habitaram ilha do
Rio de Janeiro

Na quietude de seu quitinete
em frente à tela em branco
do computador
a pesquisadora chora

Não há categoria em que caibam
pedras
tampouco há bolsas concedidas
a quem as descobre

Em abril de 2015

Lattes II

Morreram todos os linguistas
e ao que consta
não deixaram herdeiros

Noticiou-se na tv e no
portal metrópole
ninguém sabe ninguém viu
foram-se os linguistas mas apenas
dezoito corpos foram encontrados

Não se encontraram tratados
sobre novas línguas
tampouco se tem notícias
de gramáticas
da língua falada

Levaram tudo consigo
todos os bancos de dados
e apagaram seus Lattes da
plataforma

Surgiu um boato
apenas um boato
diz-se que foram aos bordéis
linguistas e linguistas
nus e nuas entre prostitutas e michês
à preferência do cliente e da clienta
diz suas últimas pesquisas
sobre o "c" de certo
e o "c" de cu

Foi em vão procurá-los
mas dizem
e dizem apenas as más línguas
que foram felizes para sempre


Em abril de 2015

Lattes

Só não quero baboseiras:
teses estéreis sobre a mesa
atravancadas de concisões
brotam irreversíveis
na família CAPES brasileira

Sou uma mulher sensível
nunca abri a revista azul
talvez devesse
ou não

O Lattes adormecido
há três semanas

Qualis A
somente só ali
cabe minha catarse
será tão bonito
certamente na école normal
supérieure
acontecerá minha morte

Não caberão em meu ataúde
tantos artigos e resenhas
tantas pesquisas e tantos resultados
esquadrinhados em estatísticas
milimetricamente tratadas
por terceiros

É uma pena:
editora não me quer
mas há de chegar um dia
em que tanta ordem do dia
tenha um fim e não retorno

Sofro de um trauma
tão claro como não são os traumas
era uma vez uma revista Qualis C
tão medíocre quanto o que cabe nela
não há mais pareceristas em minha porta
estou em depressão

Não retornarão meus colegas de
mesas redondas
que pairam em torno de perfumaria
e novas rondas

Em breve um novo idioma
lê bem escreve bem e o mundo será
meu
no more Rivotril
no more chá de camomila
a Cinderella da Plataforma Sucupira
venceu sua síndrome do pânico
e tornou-se pós-moderna

Fragmentariamente feliz
e organizada em coletivos
horizontais repletos de novos
hippies
politicamente corretos
envoltos em concreto
e tambores retumbantes

Morreu a lira
e nasceram milhares
de resumos publicados
em anais de congressos.



Em abril de 2015