segunda-feira, 20 de junho de 2011

A linguagem treme de desejo - a propósito de "USUFRUTO"

Depois de um tempo sem postar, volto sem poemas, mas falando de coisas "poéticas". Eu, que pensei ser Usufruto uma peça teatral sobre hipocrisia, com uma pitada de feminismo, me surpreendi: é e é muito mais!



Devo adverti-los de que este texto não tem gênero: crítica, resenha, artigo de opinião, talvez todos juntos e mais uma pitada de diário segredoso e íntimo – quase ficcional. Escrevo sobre a peça Usufruto, com texto e atuação de Lúcia Veríssimo, atuação de Cláudio Lins e direção de José Possi Neto. Faço isso pois a peça ecoou em mim. Como não tenho compromisso com a crítica teatral – nem com a crítica de qualquer espécie – permito-me misturar e, principalmente, admitir que misturo todos os gêneros, todas as impressões, sejam elas minhas sobre a peça ou sobre mim a partir da peça.
O espetáculo, que aconteceu em Porto Alegre, no Theatro São Pedro, nos dias 18 e 19 de junho, já tem longa carreira: desde 2009 circula pelas salas de teatro do país. O texto de Lúcia Veríssimo tem um claro objetivo, expor um pensamento muito simples e pouquíssimo aceito: “Caretice é uma doença perigosíssima, o Ministério da Saúde deveria advertir uma merda dessas”. Para além do assunto, que é a hipocrisia, Usufruto é colocado pela sua autora como um tributo a Roland Barthes e, assim,um texto que versa, sob o pretexto da crítica à nossa sociedade, sobre coisas muito profundas.
O que significa dizer que a peça é um tributo a Barthes? Não sei, só sei que, a despeito do interesse pelo tema, foi o que me fez decidir sair de Pelotas e ir até a capital exclusivamente para assistir Usufruto. Não sou grande conhecedora de Barthes, mas o primeiro texto seu que me veio à cabeça foi “O prazer do texto”, talvez pela ligação que fiz de tudo que li e vi sobre a peça e a fruição de que esse autor fala. Obviamente, não podia deixar de lembrar de “Fragmentos de um discurso amoroso”, seu texto, de longe, mais artístico. Bom, voltemos à peça.
Com cenário extremamente simples, como convém (penso eu) a um espetáculo que privilegia o texto, a peça conta a história de uma mulher e um homem – personagens sem nome – que se conhecem no apartamento que ambos pretendem comprar. A fim de resolver quem dos dois ficaria com o apartamento, propõem (ela propõe) um jogo em que cada um deve expor os motivos por que merece ficar com o apartamento.
História simples? Talvez possa, em um primeiro momento, pensar-se isso. Todavia, o texto envereda para um lugar – sim, um lugar – extremamente incômodo para a maioria: o desejo. A personagem de Lúcia Veríssimo desconstrói pouco a pouco a negação – tão naturalizada, para fazer referência a Barthes, ainda que nas Mitologias e não nos livros citados anteriormente – do desejo, consciente ou inconsciente sobre a qual se assenta nossa sociedade. A personagem de Cláudio Lins – representante legítima da nossa sociedade ocidental – é forçada simbolicamente a despir-se de todo o imaginário social em torno do amor e do desejo. O interessante é observar que essa personagem é mais nova do que a de Lúcia e é ela, como mulher de uma época de ganhos enormes contra a hipocrisia, que é o vetor de tudo isso.
Não pretendo aqui narrar toda a história, quem quer conhecê-la que vá ao teatro, mas devo dizer – e é só por isso que escrevo – que a peça tirou-me da minha zona de conforto, bem como eu gosto. Tirou-me da zona de conforto não porque trata de sexo, de moral, hipocrisia, etc., etc. ad infinitum, mas porque trata de linguagem (lembram da minha fixação pela falta da linguagem??). O texto é construído discursivamente em torno de imagens que fazemos de certo e errado, de bom e mal, de politicamente correto e incorreto, sem esquecer que é através da linguagem que se constrói tudo isso: é isso que está em xeque! E mais: está em xeque a construção de um imaginário social perfeito feito através de uma “ferramenta imperfeita”, para usar as palavras de Paul Henry, que é a linguagem. A personagem de Lúcia Veríssimo desconstrói discursivamente todo o imaginário da personagem política e moralmente correta de Cláudio Lins, trazendo à tona o desejo recalcado, o domínio do inconsciente sobre o consciente, por mais que queiramos o contrário.
A sábia incerteza dela quebra todas as falsas certezas dele. Eu, que pensei inicialmente ser a peça ligada ao “Prazer do texto”, não pude tirar da cabeça o “Fragmentos de um discurso amoroso”. Fragmentos milimetricamente ligados por um fio condutor que nos leva a um lugar surpreendente: o amor – não o amor burguês, mas o amor sem adjetivos, o amor que Barthes descreve teórica e poeticamente, o amor que, usando o próprio texto da peça é “feito para sabermos que existe”. Usufruto é definitivamente uma peça sobre o amor, o amor que queremos de um outro que criamos para nós mesmos por esta “ferramenta imperfeita” que falha toda vez que tentamos construir o que não é linguística ou simbolicamente apreensível: “amor perverso e polimorfo” (verdade que nos mostra a impossível satisfação plena do desejo) e não “amor puro e fiel” (ilusão que nos leva à censura), amor que sentimos e que raramente vivemos.
Eu me contradisse? Sim, e a contradição é nossa condição de existência. Eu disse que o Usufruto era um texto sobre linguagem e disse depois que era sobre o amor. Sobre a linguagem sobre o amor, a linguagem do amor e a linguagem no amor (expressões de Eni Orlandi), sobre o simbólico, sobre o imaginário e sobre o real, sobre projeções que só fazemos na linguagem. E isso está muito bem posto na peça: no final, toda a desconstrução do imaginário social personificada na atriz Lúcia Veríssimo se mostra um ato de pura linguagem, de pura discursividade, discursividade essa que aponta para a falha do simbólico e, consequentemente, para o real com o qual nos deparamos por esse furo da própria linguagem. Depois de, pelo viés da desconstrução, convencer a personagem de Cláudio de que suas convicções e imagens morais e sociais eram distorções e negação do desejo ou censura mesmo, a personagem de Lúcia, em um telefonema, desfaz toda a história que contou, sugerindo que sua vida tem sido tão normal (ou normalizada) como a dele. Puro instrumento de convencimento? Não, manifestação do desejo e pela única via que temos para manifestá-lo organizadamente: a linguagem. O que dizemos é concreto, o que dizemos é verdade, mesmo que seja apenas uma verdade em meio a tantas outras: o que dizemos acontece.
É dessa maneira que o texto abre para a multiplicidade de sentidos: quem se identificou com a personagem de Cláudio Lins pode ter saído do teatro aliviado, pensando que toda a desconstrução tinha o objetivo de convencê-lo e que era uma mentira. Quem se identificou com a personagem de Lúcia Veríssimo saiu do teatro confuso e contraditoriamente satisfeito com a possibilidade de várias verdades agindo sobre nós e nos constituindo. Obviamente deve haver quem tenha saído sem entender nada ou chocado.
Pensaram que eu ia falar sobre a cena polêmica  de sexo que há no espetáculo? Não, a cena é linda, com uma iluminação fantástica, mas há bastante gente que fala sobre isso; quem ficar curioso, pode procurar na Internet. Eu, que não tenho obrigação nenhuma de informar ou de criticar (aliás, eu nem entendo de teatro), reservo-me o direito de falar de linguagem, de amor e de desejo: do desejo e do amor da linguagem. Mas não se preocupem, este é só um ponto de vista ou, como eu prefiro pensar, um dos vieses por que se pode olhar para Usufrutro. Encerro meu texto com a citação de Roland Barthes que já usei várias vezes e que não saiu da minha cabeça durante toda a peça e que não sai da minha mente mesmo agora:

A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha palavra treme de desejo. A emoção de um duplo contacto: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é ‘eu te desejo’, e liberá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir (a linguagem goza de se tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação. (BARTHES, Fragmentos de um discurso amoroso, 1989, p. 64)