quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Te liguei
telefone ocupado
ia te contar uns baratos,
ia te falar de Clarice,
novos planos e barbitúricos.
Ias me contar teus novos
projetos?
Nunca mais me falaste
de teus poemas frouxos,
não me farias rir de novo
de novos brilhos
e romances roucos.

Tenho um segredo e
só conto se insistires
(vou cortar o cabelo
e entrar numa onda
metropolitana,
vou te escrever uma carta
e sentir vontade
de poesia no avião)

Escrevi uma canção,
Bethânia vai gravar,
mas disse que vai
pedir um arranjo menos
heavy metal

coração aos pulos
coração aos pulos

não que eu sinta
exatamente a tua falta,
mas quero te contar
milímetro por milímetro
as minhas pretensões

vou comprar uma
secretária eletrônica
de Pepa Marcos
e um telefone vermelho
para esperar
diante do espelho
um telefonema
do outro lado do oceano

vou te contar um fato
desses sem importância:
pura convenção
eu comprei uma lembrança
vou construir uma memória
vou contar histórias:
super produção

chove na minha janela
e do outro lado faz
sol
vim em busca de uma
busca
te mando notícias
me mandas notícias
te mando notícias
me mandas notícias
até eu me acostumar
assim, de relance,
com a secretária muda


   :
      :

chove no centro
de uma noite
sem sentido
na capital
da minha janela
não
só uma superstição
telefone desligado

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Luzes caleidoscópicas
como num filme
anos oitenta.
São setenta filmes
por ano,
são quarenta livros,
são amores noturnos,
são paixões descabidas
como costumam ser as paixões.
Eu não vim para te ver,
Pelotas não tem mais
plátanos nem folhas mortas,
só cigarros e underground,
só cigarros, underground
e uma dose de tequila.
Vou escutar Caetano
e esperar uma canção composta
para mim.
Eu quero cantar e conhecer
o mundo,
embora tenha o mundo inteiro em mim.
Vou conhecer Paris tomando chimarrão.
Voo, mas sempre com os pés no chão.
Quisera pular corda,
mas vou pular de paraquedas,
vou soltar pipa e fechar os olhos.
Não que eu esteja disposta a correr riscos,
mas eles têm uma predileção pelos
desavisados como eu.

Chove uma chuva fininha
na minha alma.
Calma.
Não quero mais.
Vou engolir o mundo,
embora tenha o mundo inteiro em mim
e mais cigarros, underground
e uma dose de tequila.