segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

E ele escrevia
na velocidade da linha
e era assim que dava
um pouco de si a ela
uma estrela
um barco a vela
um furacão

morrem os instantes
em um segundo
mas a linha fica:
puro pó
no início do início
do século

Para meus amigos Crisântemo (A. Radde) e Margarida (L. Santos)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

E quem disse que o mundo não lembra de Ana C.?

BIENAL - SP
Créditos da foto: Franciele Rodrigues
Guarienti
Eu quero viver na Comunidade do Arco-Íris,
bem longe dos louvores,
bem longe das estradas
e das ruas congestionadas.
Eu quero viver atrás dos montes,
mesmo sem bucolismos, 
não importa.
Eu quero viver longe das calçadas,
das ruas descalças,
dos sonhos inatingíveis.

Eu vou voando em um segundo,
fugir, escapar do tédio absurdo
do mundo,
eu vou.

Não quero lembrar das estradas
e de todas as convenções que isso implica.
Quero estar em vigília,
sem propagandas de refrigerantes,
refrigeradores e condomínios gigantes.

Não vou para Pasárgada,
não quero reis, nem mulheres, nem camas.
Tampouco palmeiras e sabiás e
terras com pronomes possessivos.
Eu quero o impossível, o indizível,
eu quero o que a metáfora não alcança,
vou voltar para antes do estádio do espelho,
colher cogumelos e usar sapatinhos vermelhos.

Não comprei passagens, não espero aviões,
vou assim mesmo, de pés descalços e de pijama
e quando eu sentir saudades, vou cantar uma canção inédita,
vou me lembrar de anedotas
e vou dormir como criança,
ouvindo roques rurais -
eu e os ancestrais.

Não me mande notícias, a ECT não
chega na Comunidade do Arco-Íris,
se vier para ficar venha,
sem pompa e circunstância.
Se tiver receios, paciência!
Mas sonhe comigo,
entre bruxas e sereias,
entre hippies e mágicos, 
sem melancolias de auroras de infâncias,
mas de novo uma criança.