terça-feira, 21 de setembro de 2010

Esta ausência em mim

Fosse apenas a impressão de que todo aquele alvoroço era uma ilusão passageira, eu haveria ficado e tomado mais uma dose. As luzes dos holofotes projetadas sobre nós me deixavam tonta e aquela brincadeira ia se tornando a melhor parte de mim. Eu tinha de ir embora. Era um imperativo a me espreitar. Eu precisava deglutir sozinha - e inteira - toda aquela inquestionável noite sem fantasmas. Não era apenas um ponto de vista; aquela ilusão era uma verdade indubitável e sem limites. Era minha.
Ao abrir a porta, perguntei-me se era mesmo a minha verdade que eu queria encontrar naquela noite. Os fantasmas não viriam assombrar-me. Havia uma gama de destinos a decidir. O que seria feito das cartas amareladas há tanto tempo na gaveta? O que faria com as roupas amontoadas no armário sem que ninguém pudesse usá-las? Quem herdaria os livros espalhados pela sala? Quem abriria as cortinas diariamente para que tantas flores tomassem sol?

Eu deveria fazer planos para os próximos dias. Estava paralisada frente ao jorrar de mágoas e desconfortos, ao que me assaltava uma proibição tácita e sem sentidos à qual eu acatava plenamente. Era a fuga que me assustava. Era o sem-motivos que me atraía. Eu não perderia um único momento daquela fluidez em que ele me jogava inadvertidamente. Ele não tinha direitos; tampouco eu, culpas. Eu pressentia ser aquela noite a hora das escolhas, em que eu - entre o sim e o não - só poderia dizer sim.

Eu não precisaria de motivos, tampouco existiriam. Havia apenas uma via a seguir, via de mão única. De certa maneira, era uma grande oportunidade de abandonar os fantasmas e tomar o rumo de dois ou três mortais pouco admiráveis. A única vez em que eu não seria levada pela vontade dos poderosos. Sonhos não poderiam se insurgir, apenas uma realidade que doía de tão clara. Eu jamais fugiria da minha verdade.

Parada no meio da sala, sem saber por onde, por que ponto perdido começar a viver, eu observava, sem medo de me demorar, o abajur ao lado do sofá. Por tantos anos ele estivera ali e, naquele momento, era tão claro que seu lugar não era aquele, mas à esquerda da mesa de leituras. Os destinos jamais deixariam de conter aquele abajur não fosse a impressão de que todo aquele alvoroço era uma ilusão passageira. A verdade só começaria a partir daquele momento.

Já principiara a amanhecer quando percebi que continuava a sobreviver em um mundo de relógios e mentiras. Não queria as lembranças, mas aquela vaga impressão de que elas retornavam no meu corpo. Amanhecia. As lágrimas estabeleciam um novo contorno para meu rosto, sob a impressão de que ele chegaria a tempo de me tirar daquela tontura.

Eu continuava a olhar o abajur sem que pudesse trocá-lo de posição. Eu não queria mais a fúria de paixões rápidas ensejando permanência. Eu não poderia. Sob a égide da mudança, eu intentava livrar-me das amarras do passado. De repente, tempo e espaço já não eram categorias prontas a se manter em um momento muito próximo. Eu estava quase na beira, sem que pudesse, no entanto, me mexer.

Só mesmo aquela música poderia arrancar-me da regra. Somente aquela voz poderia fazer-me precipitar a fuga premente e cessar o desconforto da minha voz. Se eu resolvesse pela permanência, certamente ocuparia parte do meu destino a procurá-lo pelo mundo, mas só encontraria a mesma ilusão. No fluir de línguas daquela canção, eu só encontraria o esvair-se permanente da liquidez em que se fizera a sua voz. Encantada.

Por vezes, antes daquele momento, eu fizera da sua voz um hino e projetava-a em uma personalidade forte e coerente, talvez o recanto em que eu passaria as horas vazias da minha vida normal. Na caverna da sua voz. Somente ali eu poderia fugir de dias triviais. Eu inventava o seu olhar para mim. Havia muito tempo eu fugira das companhias desejáveis. Naquela época, eu já intuía o limiar em que viveria até que a morte viesse cessar minhas inquietações.

Era a primeira vertigem a me assaltar. Não haveria ilusão maior do que a separação tão clara entre a vida e a morte. Em outros tempos, eu não questionaria a existência de limites e fronteiras. Mas já era hora de alçar meu voo interminável. Era ainda tempo de confrontar-me com o espelho. Com a mentira do espelho. Era hora de despedir-me dos imaginários. Era hora de sair da ficção.

Os primeiros transeuntes já passavam pela calçada de meu prédio. Jamais imaginariam a mudança prestes a acontecer. jamais seriam vítimas dela. Eles não intuíam a simetria das calçadas. A minha verdade parecer-lhes-ia a grande mentira. Não importava. Eu jamais desejaria a compreensão. Seria este o meu legado: a incompreensão.

Não havia mais necessidade de estar o abajur ligado. No entanto, não me parecia possível apagar a única luz artificial a dar sentido ao devaneio prévio. Todo acontecimento deixa rastros irrevogáveis e a luz do abajur era um rastro imprescindível: último vestígio de lucidez.

A sua voz sobrevivia. Era o único elemento que ainda me prendia a uma estabilidade fictícia. A tranquilidade que eu jamais desejara. Eu permaneceria horas a seguir o fio de sua voz. Mas a escolha já estava feita antes de mim: não haveria mais horas. Perder a lembrança da sua voz era meu único lamento e, ao mesmo tempo, o tênue fio que me prendia à ficção do espelho.

Havia muito tempo, as lágrimas formaram em meu rosto sulcos profundos ao que, convencionalmente, chamam olheiras. Era estranha a capacidade das palavras de mascarar o real. Eu estava cansada da fuga que a linguagem impunha a qualquer fenômeno. Nunca pude dizer a minha dor. Talvez nisso a sua voz me realizasse plenamente, mas somente no que não dizia. Não havia formas, tampouco fórmulas. Passei um tempo presa por apenas um fio à ilusão cotidiana.

Eu lamentava o fato de que jamais lembraria do nosso encontro. Não era propriamente uma crise, mas uma luz intermitente a me cegar. Não há diferenças entre o céu e as estrelas, a não ser o que lhes é imposto, impregnado de humanidade. A vertigem era maior a cada esquecimento. O que mais me prendia à realidade era a sua grande ficção. A simetria das calçadas era estranhamente incompreensível: excedia toda classificação.

Havia algum tempo, eu parara com os remédios. Estranhamente, depois disso, eu me curara. Os pesadelos cessaram e, especialmente naquela noite, os fantasmas desapareceram. Era um bom sinal, talvez. Um sinal de que começava a me desprender das convenções. Os relógios já haviam parado. Não havia mais chão que me prendesse, nem lugar que me contivesse. Aquele apartamento era apenas o último invólucro. A última testemunha.

Sempre que estava prestes a encontrar o ponto de partida, sua voz vinha resgatar-me da viagem que eu tanto quisera. Obstáculo e porta do desconhecido. Era como se quisesse me salvar, como se algo fosse se perder se eu desvendasse o mistério de sua voz. Tão clara, tão segura. Talvez sua voz fosse um indesejável guia insistentemente dois passos à frente. A estender-me a mão.

A contradição ainda me assustava. Eu precisava de mais alguns instantes até estar pronta. Só existe contradição na convenção. Eu estava ainda impregnada de humanidades. Os transeuntes já olhavam, ao passar, para a luz incabível que saía pela janela, incompatível com um sol tão alto. Os pássaros já não cantavam. Fora-se o último resquício de suores noturnos.

As palavras estavam prestes a se dissolver. Não existiriam mais preces capazes de acalmar. Não restaria sequer um sentido preso aos vocábulos mofados. No último momento, só restaria a sua voz cansada e sem formas a me espreitar. Chegava a hora de indagar-me: como seria esta manhã não fosse aquela noite em que só havia a impressão de que todo aquele alvoroço era apenas uma ilusão passageira?

Haveria a minha era. Era a hora. Ilimitada, sem dúvidas, era aquela verdade uma ilusão. Sem fantasmas, toda aquela noite inquestionável, eu inteira, sozinha, deglutir precisava. A me espreitar, havia um imperativo. Ia embora a melhor parte de mim naquela brincadeira. Tonta deixavam-me, sobre nós, os holofotes de luzes projetadas. Mais uma dose teria tomado se houvesse ficado a te espreitar. Uma ilusão passageira era apenas aquele alvoroço. A impressão de que tudo fosse.

Foi então que eu me ausentei de mim.

Janaina Brum

Um comentário:

Tear de Sentidos disse...

Oi, Janinha!!!! Lindo!
Este não é "aquele"?
Fui clara, não?
Aquele que eu havia lido?
Lido, lindo, lindo!!!
Bjoca, chinoca!
Terenésia