quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Não apenas retorno

Para quem é, com muito carinho.

Não esperava que aquela conversa de almoço – marcada com antecedência, esperada ansiosamente, tudo parecendo muito normal – ia fazê-la deslocar-se do mundo. Desde muito tempo escrevia, mas jamais pensara como naquela semana em fazer da escrita um projeto de vida. Jamais. E só ela sabia o quanto isso a perturbava. Claro. As pessoas estavam acostumadas a lê-la. Sabiam de seus ímpetos. Sabiam que mesmo no lugar mais improvável ela escrevia e jogava com as afeições. Mas não sabiam da ferida de escrever que se abria cada vez mais.

Tinha tudo para ser um encontro sociável e trivial, apesar da pauta previamente definida. Lugar cheio de pessoas conhecidas, acostumadas à sua formalidade habitual. Mais: à sua normalidade inquestionável. Muitas manifestações (contidas) de afeto, apresentações, conversas sobre o trabalho no hall de entrada. Um dia – e um almoço – cotidiano e trivial. Mas excedia. Elas não sabiam propriamente por onde começar, pois ambas estavam em uma fase perturbadora que queriam esconder. Mil disfarces, imaginava ela, podemos assumir agora. Talvez a melhor fase da carreira acadêmica. Nenhum motivo para inquietações. Ansiosa, ela transitava por entre as mesas pensando em quanto tempo ainda duraria aquele entre-tempo e imaginando se sua companheira de almoço também pensaria seriamente em burlar as banalidades.

Um dia singular não seria uma definição propriamente dita, seria até mesmo um sacrilégio expressar assim algo tão inexprimível. Ela gostava de pensar que sua amiga também estava pensando seriamente em assumir uma postura radical diante das coisas. Mas não era isso, era maior: ela – a amiga - estava sendo violentada pelo imperativo da escrita. Melhor ainda. Bons frutos viriam, apesar da dor. Laços se estreitando antes mesmo da primeira palavra sobre a inquietude.

O silêncio não era nada trivial. Enquanto se serviam aleatoriamente, ela previa o tom da conversa, os constrangimentos, as confissões. Não é fácil assumir a escrita. De repente esse verbo parecia verdadeiramente o mais apropriado. Assumir. Existem tantos tabus na escrita. Não se coloca no mundo; existe algo sempre por se dizer sem, no entanto, ter como. Havia uma tensão que não era negativa. Seriam discutidas vísceras e noites em claro, contenções e angústias. E isto obviamente envolvia descontroles.

O papo teve início. No princípio, ela olhava para os lados buscando olhares curiosos, mas, á medida em que se despia das formalidades, das superfícies, ia deixando de perceber tudo que as rodeava. Se para a amiga aquilo era um desabafo sem contornos, para ela era um processo espelhado: tudo que já estava aparentemente sanado retornava vertiginosamente sobre ela, como se, observando-se de fora, voltasse a interiorizar todo seu passado tortuoso em torno da escrita. Tudo voltava em fluxos desorganizados: a infância contida, a adolescência que implicou sérios processos de adequação, as leituras solitárias na hora do recreio na escola, o primeiro “romance”, já há muito tempo queimado em uma fogueirinha catártica, a fuga da entranha, a troca de Clarice Lispector e Nelson Rodrigues por Agatha Christie, o curso de teatro abandonado dolorosamente, os roteiros de filmes adolescentes, a negação de tudo isso, os poemas apaixonados e, paradoxalmente, metrificados, a escrita severa e objetiva, a vida acadêmica, o retorno a Clarice, a “aparição” de Ana Cristina Cesar e de toda sua geração, a dor de voltar a escrever inquietações, a institucionalização do seu projeto literário, disfarçado de alheio, os títulos, os louros, a carreira se jogando sobre ela, as propostas, as respostas, as rosas, os foras, os novos projetos, e os poemas, e os contos, e os romances. Tudo ali, de repente, à sua frente, na figura tão familiar da colegaamigaconselheira de tantos anos, como se não houvesse um tempo linear em sua estranha sucessão de fatos. Se já há um mês pensava seriamente na possibilidade de jamais conseguir livrar-se dos imperativos da escrita, Naquele momento aquilo se tornava uma grande verdade incontornável. E era exatamente naquele momento. Já cogitara essa hipótese nos últimos dias, mas era uma coisa objetivada, que vinha de fora. Agora, à medida que aquele fora – dentro claramente disfarçado de exterioridades – ia se introjetando, bagunçava tudo e dava a conhecer uma verdade que, imaginada, não era tão dura.

Tentou fingir normalidade durante todo o tempo. Mas, se a amiga olhou-a nos olhos – e bem sabe que olhou – percebeu que algo se deslocava. Era um processo doloroso para ambas e elas bem sabiam disso. Havia uma coisa que se entranhava e elas só saberiam disso anos depois. Ela queria sinceramente que o horário objetivo do almoço se estendesse até a noitinha. Mas a formalidade as chamava. Precisavam sentar-se e ouvir meia dúzia de intelectuais de renome. Caminharam lentamente até a universidade, demorando-se a cada esquina na esperança de que aquilo tudo se prolongasse. Despediram-se no saguão, com promessas de um café no final da tarde, como se houvesse uma profanação naquela conversa confessional do almoço, seguiram para o mesmo lugar em diferentes companhias. Era realmente incompatível sentarem-se juntas diante de tanta superfície depois da profundidade de um encontro rápido como não deveria ser.

Ela não prestou atenção a nada. No intervalo, discretamente, andou conversando com dois ou três conhecidos que encontrava pelo caminho. Esqueceu-se propositalmente do horário marcado para a segunda mesa-redonda. Fumou um maço de cigarros à espera de que a amiga surgisse pela porta da frente da instituição para, despidas daquele visgo da academia, poderem chegar (ilusoriamente) a alguma solução. Em vão. Talvez impelidas por um desejo inconsciente e contraditório de voltar à normalidade superficial de suas vidas centradas, desencontraram-se. Tanto melhor: teriam tempo de digerir e pensar naquele desalojamento antes da próxima conversa. Teriam ímpetos de revolta, momentos epifânicos, ilusões e alucinações.

Ela chegou em casa exausta. Não tanto pelo dia cansativo, mas pela desordem que lhe causara a conversa. Resolveu deitar-se para dormir um pouco. Pensou debilmente em tudo e concluiu que aquilo era um grande divisor de águas na sua vida: nada lhe tiraria a vontade absurda de engolir o mundo. Colocou um DVD para aproveitar o tempo curto – sempre tinha a impressão de que a vida era muito pequena para fazer tudo que desse na telha – fazendo duas coisas ao mesmo tempo. E as duas coisas eram só uma e ia tomando forma uma verdade incontestável. O momento ante-sono reserva uma genialidade que só deixa resquícios: pensou coisas brilhantes de que jamais se lembrará. Sonhou pesadelos: de repente, resolvia impetuosamente comprar artigos de decoração. Saía do condomínio e entrava em uma loja em frente que jamais percebera, mas já conhecia previamente. Lugar escuro sem tique-taques de relógios. Prateleiras de madeira maciça em tom ocre, singular. Nunca se ativera a esses detalhes e, tampouco, a artigos de decoração. Procurava alguma coisa que não imaginava. Os artigos estavam cheios de poeira e, apesar de conhecê-los, estranhava suas formas. Andava por entre as prateleiras e observava discretamente a atendente que parecia arrumar alguma coisa. Sentiu que alguém passava o braço por sua cintura. Prendia-a, sem que ela pudesse se livrar. Não havia ninguém ali, só a sensação de que a prendiam com um braço só pela cintura. Precisava urgentemente sair dali e deixar o fantasma que a agarrava tão seguramente, não conseguia, lutava com o imaginário ser e aquilo era de uma realidade brutal. Desespero: não havia tique-taques de relógios. Ela estava presa no tempo dos fantasmas e não pertencia a ele. Saiu da loja em correria sem que pudesse se livrar do braço invisível. Quando acabará esta angústia? Tenho que me livrar! Tenho que me livrar! Escutou uma musiquinha desagradável: acordou com o celular na mão e em meio a vestígios de suores e lutas. Atendeu. Uma voz chamava-a à realidade. Abre a porta! Não conseguia falar. Abre a porta! Levantou-se cambaleante a abriu a porta. Ainda bem que chegava um indivíduo potencialmente capaz de tirar-me da vertigem. Era ele, era ele, era ele. Eu sou a redenção! Eu sou a saída! Eu sou capaz de te tirar da vertigem! Parece que ele dizia. E tirou: durante duas horas, ela voltaria à normalidade fingida a que estava acostumada. Era sempre bom sair da solitária. Mas esperava ansiosamente por estar sozinha novamente e poder escrever tudo aquilo. Inscrever, diria. Tornar aquilo uma memória.

Quando se viu sozinha novamente, não lhe ocorreu tomar da mão a sua vertigem e conviver com ela. Resolveu tornar-se uma pessoa acompanhada. Abriu um e-book, um livro esgotado na editora. Leu durante alguns minutos, quase horas. Viu toda a sua experiência do dia descrita de forma magistral em apenas duas frases. Parou. Era mesmo para acontecer. Estava tudo determinado previamente. Eles me perseguem. Escreveu uma longa carta para a amiga-do-almoço-desestabilizante. Contou seus sonhos e citou as passagens mais assustadoras do livro esgotado nas editoras. De alguma forma, sabia que a amiga também estava inquieta onde quer que fosse. Ela, que sempre criticou a aura mágica da escrita, tornava-se uma mística. Qual é a técnica? Não interessa. Cadê a entranha? Tornava-se visceral. Tudo tomava forma agora e ela via, não sem pavor, o seu destino petrificado nas páginas povoadas de letras e sons desorganizados. Aquela lucidez doía. Por quanto tempo agüentaria lidar com aquilo tudo? Resolveu ligar para a amiga-do-almoço-desestabilizante, mas desistiu ao olhar o relógio. Linearmente, não era hora de ligar para alguém: 04:57. A madrugada do ressurgimento. Feridas pipocavam no absurdo dos sentidos cada vez mais explícitos: desnudavam-se aleatoriamente.

Ela precisava organizar aquele microcaos particular e intransferível. Lembrava de pessoas declamando, de cavalos correndo em 20 de setembros, de conversas ao pé do ouvido e de mijadas. Fazia toda a trajetória da sua história com a amiga-do-almoço-desestabilizante. Eram anos se passando. E elas só se viam esporadicamente. Pretendia modificar todo aquele estado de coisas. Mandara vários e-mails para ela durante a madrugada. Contatos mais do que imediatos de alto grau de afinidades e compartilhamentos. Já não sabia mais o que era real ou ficcional. Verdadeiramente, já não sabia mais a necessidade dessa distinção, tampouco sua validade. Era inútil. Tudo era real, tão real que doía e parecia absurdo. Ela só saberia anos depois. E isso implicava uma outra objetivação. De outra ordem. Que pena.

Amanhecia e ela escrevia verborragicamente aquela carta adiada e inacabável. Não era hora de pensar em trivialidades. E ela não pensava. Não pretendia dormir, nem sob o efeito dos comprimidos. Precisava aproveitar aquela verdade nebulosa. Precisava deglutir toda a mudança a que estava condenada. Precisava tomar providências acerca da metafísica de toda aquela experiência. Às 06:48, pássaros cantando, ela desistiu categoricamente do plano cotidiano, embora não fosse – e não pudesse – se desvincular dele. Inversão de papéis. Jamais pensei que tomaria como regra e verdade indubitável a ficção esporádica e escondida; jamais pensei que não seria a rotina o real. Jamais pensei em tal estado modificado de coisas. Ela desistiu instantaneamente da convenção e dormiu profundamente sem sonhar e sabendo exatamente quem era o fantasma. Não voltaria ao mundo.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Esta ausência em mim

Fosse apenas a impressão de que todo aquele alvoroço era uma ilusão passageira, eu haveria ficado e tomado mais uma dose. As luzes dos holofotes projetadas sobre nós me deixavam tonta e aquela brincadeira ia se tornando a melhor parte de mim. Eu tinha de ir embora. Era um imperativo a me espreitar. Eu precisava deglutir sozinha - e inteira - toda aquela inquestionável noite sem fantasmas. Não era apenas um ponto de vista; aquela ilusão era uma verdade indubitável e sem limites. Era minha.
Ao abrir a porta, perguntei-me se era mesmo a minha verdade que eu queria encontrar naquela noite. Os fantasmas não viriam assombrar-me. Havia uma gama de destinos a decidir. O que seria feito das cartas amareladas há tanto tempo na gaveta? O que faria com as roupas amontoadas no armário sem que ninguém pudesse usá-las? Quem herdaria os livros espalhados pela sala? Quem abriria as cortinas diariamente para que tantas flores tomassem sol?

Eu deveria fazer planos para os próximos dias. Estava paralisada frente ao jorrar de mágoas e desconfortos, ao que me assaltava uma proibição tácita e sem sentidos à qual eu acatava plenamente. Era a fuga que me assustava. Era o sem-motivos que me atraía. Eu não perderia um único momento daquela fluidez em que ele me jogava inadvertidamente. Ele não tinha direitos; tampouco eu, culpas. Eu pressentia ser aquela noite a hora das escolhas, em que eu - entre o sim e o não - só poderia dizer sim.

Eu não precisaria de motivos, tampouco existiriam. Havia apenas uma via a seguir, via de mão única. De certa maneira, era uma grande oportunidade de abandonar os fantasmas e tomar o rumo de dois ou três mortais pouco admiráveis. A única vez em que eu não seria levada pela vontade dos poderosos. Sonhos não poderiam se insurgir, apenas uma realidade que doía de tão clara. Eu jamais fugiria da minha verdade.

Parada no meio da sala, sem saber por onde, por que ponto perdido começar a viver, eu observava, sem medo de me demorar, o abajur ao lado do sofá. Por tantos anos ele estivera ali e, naquele momento, era tão claro que seu lugar não era aquele, mas à esquerda da mesa de leituras. Os destinos jamais deixariam de conter aquele abajur não fosse a impressão de que todo aquele alvoroço era uma ilusão passageira. A verdade só começaria a partir daquele momento.

Já principiara a amanhecer quando percebi que continuava a sobreviver em um mundo de relógios e mentiras. Não queria as lembranças, mas aquela vaga impressão de que elas retornavam no meu corpo. Amanhecia. As lágrimas estabeleciam um novo contorno para meu rosto, sob a impressão de que ele chegaria a tempo de me tirar daquela tontura.

Eu continuava a olhar o abajur sem que pudesse trocá-lo de posição. Eu não queria mais a fúria de paixões rápidas ensejando permanência. Eu não poderia. Sob a égide da mudança, eu intentava livrar-me das amarras do passado. De repente, tempo e espaço já não eram categorias prontas a se manter em um momento muito próximo. Eu estava quase na beira, sem que pudesse, no entanto, me mexer.

Só mesmo aquela música poderia arrancar-me da regra. Somente aquela voz poderia fazer-me precipitar a fuga premente e cessar o desconforto da minha voz. Se eu resolvesse pela permanência, certamente ocuparia parte do meu destino a procurá-lo pelo mundo, mas só encontraria a mesma ilusão. No fluir de línguas daquela canção, eu só encontraria o esvair-se permanente da liquidez em que se fizera a sua voz. Encantada.

Por vezes, antes daquele momento, eu fizera da sua voz um hino e projetava-a em uma personalidade forte e coerente, talvez o recanto em que eu passaria as horas vazias da minha vida normal. Na caverna da sua voz. Somente ali eu poderia fugir de dias triviais. Eu inventava o seu olhar para mim. Havia muito tempo eu fugira das companhias desejáveis. Naquela época, eu já intuía o limiar em que viveria até que a morte viesse cessar minhas inquietações.

Era a primeira vertigem a me assaltar. Não haveria ilusão maior do que a separação tão clara entre a vida e a morte. Em outros tempos, eu não questionaria a existência de limites e fronteiras. Mas já era hora de alçar meu voo interminável. Era ainda tempo de confrontar-me com o espelho. Com a mentira do espelho. Era hora de despedir-me dos imaginários. Era hora de sair da ficção.

Os primeiros transeuntes já passavam pela calçada de meu prédio. Jamais imaginariam a mudança prestes a acontecer. jamais seriam vítimas dela. Eles não intuíam a simetria das calçadas. A minha verdade parecer-lhes-ia a grande mentira. Não importava. Eu jamais desejaria a compreensão. Seria este o meu legado: a incompreensão.

Não havia mais necessidade de estar o abajur ligado. No entanto, não me parecia possível apagar a única luz artificial a dar sentido ao devaneio prévio. Todo acontecimento deixa rastros irrevogáveis e a luz do abajur era um rastro imprescindível: último vestígio de lucidez.

A sua voz sobrevivia. Era o único elemento que ainda me prendia a uma estabilidade fictícia. A tranquilidade que eu jamais desejara. Eu permaneceria horas a seguir o fio de sua voz. Mas a escolha já estava feita antes de mim: não haveria mais horas. Perder a lembrança da sua voz era meu único lamento e, ao mesmo tempo, o tênue fio que me prendia à ficção do espelho.

Havia muito tempo, as lágrimas formaram em meu rosto sulcos profundos ao que, convencionalmente, chamam olheiras. Era estranha a capacidade das palavras de mascarar o real. Eu estava cansada da fuga que a linguagem impunha a qualquer fenômeno. Nunca pude dizer a minha dor. Talvez nisso a sua voz me realizasse plenamente, mas somente no que não dizia. Não havia formas, tampouco fórmulas. Passei um tempo presa por apenas um fio à ilusão cotidiana.

Eu lamentava o fato de que jamais lembraria do nosso encontro. Não era propriamente uma crise, mas uma luz intermitente a me cegar. Não há diferenças entre o céu e as estrelas, a não ser o que lhes é imposto, impregnado de humanidade. A vertigem era maior a cada esquecimento. O que mais me prendia à realidade era a sua grande ficção. A simetria das calçadas era estranhamente incompreensível: excedia toda classificação.

Havia algum tempo, eu parara com os remédios. Estranhamente, depois disso, eu me curara. Os pesadelos cessaram e, especialmente naquela noite, os fantasmas desapareceram. Era um bom sinal, talvez. Um sinal de que começava a me desprender das convenções. Os relógios já haviam parado. Não havia mais chão que me prendesse, nem lugar que me contivesse. Aquele apartamento era apenas o último invólucro. A última testemunha.

Sempre que estava prestes a encontrar o ponto de partida, sua voz vinha resgatar-me da viagem que eu tanto quisera. Obstáculo e porta do desconhecido. Era como se quisesse me salvar, como se algo fosse se perder se eu desvendasse o mistério de sua voz. Tão clara, tão segura. Talvez sua voz fosse um indesejável guia insistentemente dois passos à frente. A estender-me a mão.

A contradição ainda me assustava. Eu precisava de mais alguns instantes até estar pronta. Só existe contradição na convenção. Eu estava ainda impregnada de humanidades. Os transeuntes já olhavam, ao passar, para a luz incabível que saía pela janela, incompatível com um sol tão alto. Os pássaros já não cantavam. Fora-se o último resquício de suores noturnos.

As palavras estavam prestes a se dissolver. Não existiriam mais preces capazes de acalmar. Não restaria sequer um sentido preso aos vocábulos mofados. No último momento, só restaria a sua voz cansada e sem formas a me espreitar. Chegava a hora de indagar-me: como seria esta manhã não fosse aquela noite em que só havia a impressão de que todo aquele alvoroço era apenas uma ilusão passageira?

Haveria a minha era. Era a hora. Ilimitada, sem dúvidas, era aquela verdade uma ilusão. Sem fantasmas, toda aquela noite inquestionável, eu inteira, sozinha, deglutir precisava. A me espreitar, havia um imperativo. Ia embora a melhor parte de mim naquela brincadeira. Tonta deixavam-me, sobre nós, os holofotes de luzes projetadas. Mais uma dose teria tomado se houvesse ficado a te espreitar. Uma ilusão passageira era apenas aquele alvoroço. A impressão de que tudo fosse.

Foi então que eu me ausentei de mim.

Janaina Brum

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Manda-me notícias da sua última produção,
super-produção,
não,
um produto da melhor
indústria cinematográfica,
mesmo que dizer isso
seja uma permanente,
distante,
patente
contradição
guardada na minha estante
que instantaneamente se cobre
de valores
alheios.
Vem,
conta-me teus ideais,
teus projetos,
mananciais
de pura,
pura e pouco
cristalina criatividade.
Eu ando tendo lampejos,
sofrendo de agonias
e déficit de atenção.
Vou largar castelos
e gravar um filme de
mistério,
vou escrever poemas,
pilhas de poemas trash,
assistir a dramas e comédias
espanholas.
Eu tenho projetos...
preciso tanto saber de ti
que traço sozinha os teus
planos
e temo -
com tremores -
os teus desafetos.
Vamos rodar a última cena juntos,
primeira cena do Cinema Novo,
da Nouvelle Vague.
Vamos pegar um trem,
teremos um cenário.
É agora,
corta,
termina aqui o filme.
Vamos viver, meu bem,
sem Glauber, Pedro, François,
Claude ou Carlos
:

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Ele abriu os braços
novamente
e, desta vez,
eu pude perceber,
embora receosa,
o gesto:
é a minha casa
sendo construída,
pensei.