terça-feira, 31 de agosto de 2010

Há um tempo atrás, resolvi escrever uns textos enquanto lia outros (não meus): uma coisa meio solta do tipo "o-que-der-na-telha". Pois bem, tenho várias páginas acumuladas. Hoje deu vontade de publicá-las aqui, já que ando sem criatividade para a poesia e com preguiça para as narrativas, cujos projetos são sempre longos e complexos e pedantes e impossíveis. vamos fazer esta experiência de mostrar meus "fluxos de (in)consciência sem pretensões literárias. Me contem o que acharam, ok? Beijos, Jana

II



Ainda na introdução. Essa coisa de acusação não ficou nos anos 1990. É perpétua. São acusados os escritores: aqueles que publicam e aqueles que continuam no anonimato como eu. Somos acusados. Acusados por denunciar um estado íntimo que deve permanecer segredo pelo bem da moral e da ética decadentes, somos acusados por não sermos compreendidos facilmente, dada a objetividade do mundo e a confusão tão clara em que estamos metidos, somos acusados por sermos inadequados, patinhos feios inquietos e relutantes, raios que os partam que incomodam por dizerem o que não pode ser ouvido. Somos acusados. Ainda não se pode falar em punições no novo milênio, mas há uma pena de morte na espreita. “Tu escreves?” é a pergunta dos Novíssimos inquisidores, e desde a descoberta nos olham desconfiadamente, querendo adivinhar os segredos e as vidas promíscuas que supostamente vivemos. Querem me surpreender na minha anormalidade, mas isso eu reservo para poucos, só uns poucos escolhidos. Para os outros – os inquisidores –, nem uma migalha. Podem ler o blog, sim, mas se me verem no trabalho não verão a mesma pessoa. Bem-feito.


Meus textos são todos deserdados, bastardos, censurados de antemão. Mas eu os publico, eu os levo ao choque com os olhos acostumados a uma normalidade fictícia. Querem me ver ali? Autobiografia só esta. Eu sou realmente muito mais o que escrevo do que o que eu vivo. Mas eles, os inquisidores, não saberão disso até que eu prove, até que eu resolva dar-lhes o choque final.


A quem quer que vá ler o que escrevo, digo que sei que estão a procurar impressões sobre o livro de Caio. Não acharão. Ovelhas Negras é mero pretexto para eu pensar sobre mim e sobre o que escrevo. Tenho também as minhas ovelhas negras, meu rebanho é feito só delas. Não faço aqui plágio, não recebo grandes influências, só ganho um pretexto para escrever. Ovelhas Negras, ovelhas negras, mesmo que eu não seja católica, mesmo que eu não separe o mundo em rebanhos, mesmo que eu não tire os pecados do mundo e não tenha piedade de ninguém (mentira, às vezes eu tenho, embora me censure). Mesmo que não seja esse o meu parâmetro, resta-me um pouco de catequese ainda, resta-me um ar católico, mesmo que seja pura negação. É que se eu nego, tem um fundo. Vou falar em ovelhas negras porque Caio preferiu ovelhas a ervas daninhas e quem sou eu para tirar-lhe a autoridade? É só uma crença negada, um resquício de criação. Eu confesso que vou ainda a missas de sétimo dia.


Parece-me que devo falar em guardados, em textos nunca mostrados ou mostráveis. Pois bem, tenho me esforçado em publicar – marginalmente no blog, bem dito – textos mofados, cheio de dicotomias e chavões, textos que fazem parte do meu caminho, embora eu sempre tivesse querido começar de forma genial. Assim, publicando aquelas coisas que me dão arrepios de tão anti-estéticas, anti-literárias (ou talvez ante), eu me sinto purgada, perdoada, humilde (bem católica). Falando sério, é bom mostrar aos outros também os caminhos que trilhamos. Estou gostando do contraste entre a Janaina de sete anos atrás e a de agora. Vai ser um barato mesmo quando a diferença entre as Janainas for de trinta ou quarenta anos. Vamos brincar de ser o que se era.


Volta Lispector no Caio. Não estou tão longe. Estou tão perto. Estou chegando lá. Vou me depurar, vou me transformar, vou buscar maturidade, vou ser imatura e campeã. Vou salvar umas almas e perder tantas outras. Vamos lá, no caminhão que leva o rebanho para o meio do deserto. Vamos lá, sem prefácios e sem epígrafes:

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