terça-feira, 31 de agosto de 2010

Pessoalíssima e nada pessoana

Gente, talvez eu me arrependa, mas vou publicar algo bem pessoal agora...

VIII



Não que existam mesmo coincidências, assim, nessa dimensão mágica. Mas eu gosto delas. Eu gosto de montar sua arquitetura diametralmente calculada.


Vem de antes de Ovelhas. Vem de antes do Caio. Vem de antes de mim. Era uma semente feminista. Era um trabalho que esboçava um começo de simpatia feminista pelas escritoras brasileiras. Mas escritoras não eram necessariamente feministas. Era uma confusão. Havia mulheres escrevendo por todos os lados. E eram poemas e contos e crônicas, e eram amores, amantes e tecidos. E uma. Sereia. Não se assemelhava a nada. Era única, de difícil acesso. Uma fotocópia. Um pedacinho de obra, um pedacinho de obra inacabada. Era o prenúncio de três anos de teses fundamentais sem conclusão alguma.


Três anos. Diluiu-se o feminismo, ficou uma posição indefinida, sempre desconfortável, que vai continuar assim. Foi-se a tese, defendeu-se como se fosse a vida, quase morreu-se de inanição. Ficou só ela – a escritora. Mas esqueceu-se cheia de pó nas prateleiras. Veio Caio. Pura ignorância, descobriu-se tardiamente uma amizade profunda entre Caio e Ana Cristina. Uma amiga me veio com o livro. Toma. Lê as cartas dele. Ele fala da Ana C. Veio um amigo e disse: lê Campos de Carvalho. Li. Veio outra amiga e disse: lê Mário Prata. Guardei na gaveta. Veio a depressão, outro amigo disse: vê Terça Insana. Vi. Mil vezes. Decidi fazer outra tese. Começaram as pesquisas, concomitantemente com a leitura das cartas. Ana Cristina que era amiga de Caio que era amigo de Grace que trabalhou com Mário Prata que era primo de Campos de Carvalho. E agora tem uma miscelânea na minha cabeça.


Não para por aí. Papai adorava Saramago. Conheceu-o – tudo documentado – através do Appel, que, para mim, não tinha nome, só sobrenome. Pois bem, papai foi viajar no céu sem asas no mesmo dia em que Saramago foi (embora nenhum dos dois acreditasse em céus). Segui eu lendo as cartas do Caio, cheias de borboletas amarelas, como meus poemas, cheias de tropeços na minha vida, na sua vida, não apareceu Saramago, mas apareceu Appel. Appel no luto. Eu entre destroços e recordações. Eu entre leituras e esquecimentos. Eu entre risadas frenéticas e choro convulsivo. Eu sozinha com saudades. Eu lendo e lendo tanta lembrança que era só minha (por herança). Eu lendo e escrevendo. Eu e as coincidências mais banais. Borboletas, perdas, sacadas, begônias, Saramago e meu pai tomando um drink no pub do céu. Preciso achar o Appel, se não o último, um dos últimos desejos.


Eu preferi a literatura. Fugi, criei mundos e não mundos sem dor. Doía também. Mas era uma dor só minha, não era mundana, tinha laivos de filosofias e auto-ajuda. Vamos dar risadas esporádicas e ficar sós quinze minutos ao dia. Medo – já disse – não tenho mais. O pai botou no bolso e remexe agora lá no pub do céu, junto com as coincidências, que eu coleciono e ele também.


Pai, faz o seguinte, fala com o Saramago aí, fala com o Caio, com a Ana C., que eu procuro o Appel, ok? Eu sei que ele precisa saber da reforma do teatro, eu sei que ele merece, ele participou do tombamento, foi peça fundamental, talvez a única. Eu sei. Eu vou tentar, fazer contatos. Conta para o Caio das borboletas amarelas. E conta para a Ana C. que eu reproduzo versos e versos dela e só percebo que não são meus tempos depois.


“Esvoaça, esvoaça”
Há um tempo atrás, resolvi escrever uns textos enquanto lia outros (não meus): uma coisa meio solta do tipo "o-que-der-na-telha". Pois bem, tenho várias páginas acumuladas. Hoje deu vontade de publicá-las aqui, já que ando sem criatividade para a poesia e com preguiça para as narrativas, cujos projetos são sempre longos e complexos e pedantes e impossíveis. vamos fazer esta experiência de mostrar meus "fluxos de (in)consciência sem pretensões literárias. Me contem o que acharam, ok? Beijos, Jana

II



Ainda na introdução. Essa coisa de acusação não ficou nos anos 1990. É perpétua. São acusados os escritores: aqueles que publicam e aqueles que continuam no anonimato como eu. Somos acusados. Acusados por denunciar um estado íntimo que deve permanecer segredo pelo bem da moral e da ética decadentes, somos acusados por não sermos compreendidos facilmente, dada a objetividade do mundo e a confusão tão clara em que estamos metidos, somos acusados por sermos inadequados, patinhos feios inquietos e relutantes, raios que os partam que incomodam por dizerem o que não pode ser ouvido. Somos acusados. Ainda não se pode falar em punições no novo milênio, mas há uma pena de morte na espreita. “Tu escreves?” é a pergunta dos Novíssimos inquisidores, e desde a descoberta nos olham desconfiadamente, querendo adivinhar os segredos e as vidas promíscuas que supostamente vivemos. Querem me surpreender na minha anormalidade, mas isso eu reservo para poucos, só uns poucos escolhidos. Para os outros – os inquisidores –, nem uma migalha. Podem ler o blog, sim, mas se me verem no trabalho não verão a mesma pessoa. Bem-feito.


Meus textos são todos deserdados, bastardos, censurados de antemão. Mas eu os publico, eu os levo ao choque com os olhos acostumados a uma normalidade fictícia. Querem me ver ali? Autobiografia só esta. Eu sou realmente muito mais o que escrevo do que o que eu vivo. Mas eles, os inquisidores, não saberão disso até que eu prove, até que eu resolva dar-lhes o choque final.


A quem quer que vá ler o que escrevo, digo que sei que estão a procurar impressões sobre o livro de Caio. Não acharão. Ovelhas Negras é mero pretexto para eu pensar sobre mim e sobre o que escrevo. Tenho também as minhas ovelhas negras, meu rebanho é feito só delas. Não faço aqui plágio, não recebo grandes influências, só ganho um pretexto para escrever. Ovelhas Negras, ovelhas negras, mesmo que eu não seja católica, mesmo que eu não separe o mundo em rebanhos, mesmo que eu não tire os pecados do mundo e não tenha piedade de ninguém (mentira, às vezes eu tenho, embora me censure). Mesmo que não seja esse o meu parâmetro, resta-me um pouco de catequese ainda, resta-me um ar católico, mesmo que seja pura negação. É que se eu nego, tem um fundo. Vou falar em ovelhas negras porque Caio preferiu ovelhas a ervas daninhas e quem sou eu para tirar-lhe a autoridade? É só uma crença negada, um resquício de criação. Eu confesso que vou ainda a missas de sétimo dia.


Parece-me que devo falar em guardados, em textos nunca mostrados ou mostráveis. Pois bem, tenho me esforçado em publicar – marginalmente no blog, bem dito – textos mofados, cheio de dicotomias e chavões, textos que fazem parte do meu caminho, embora eu sempre tivesse querido começar de forma genial. Assim, publicando aquelas coisas que me dão arrepios de tão anti-estéticas, anti-literárias (ou talvez ante), eu me sinto purgada, perdoada, humilde (bem católica). Falando sério, é bom mostrar aos outros também os caminhos que trilhamos. Estou gostando do contraste entre a Janaina de sete anos atrás e a de agora. Vai ser um barato mesmo quando a diferença entre as Janainas for de trinta ou quarenta anos. Vamos brincar de ser o que se era.


Volta Lispector no Caio. Não estou tão longe. Estou tão perto. Estou chegando lá. Vou me depurar, vou me transformar, vou buscar maturidade, vou ser imatura e campeã. Vou salvar umas almas e perder tantas outras. Vamos lá, no caminhão que leva o rebanho para o meio do deserto. Vamos lá, sem prefácios e sem epígrafes:
Há um tempo atrás, resolvi escrever uns textos enquanto lia outros (não meus): uma coisa meio solta do tipo "o-que-der-na-telha". Pois bem, tenho várias páginas acumuladas. Hoje deu vontade de publicá-las aqui, já que ando sem criatividade para a poesia e com preguiça para as narrativas, cujos projetos são sempre longos e complexos e pedantes e impossíveis. vamos fazer esta experiência de mostrar meus "fluxos de (in)consciência sem pretensões literárias. Me contem o que acharam, ok? Beijos, Jana

Quando me deparei com Ana Cristina Cesar, pensei que perderia um pedantismo insistente como um vírus. Ainda não, não era hora. Melhorei, certamente. Deixei também de lado os maniqueísmos, as rimas e as métricas. Mas o resquício de clarices permaneceu. Até porque sempre me agradou ser clariceana. E ainda me agrada até certo ponto. Mas ando experimentando uma coisa mais jovem e é assim que chego às ovelhas. Encontrei, no livro de cartas, um caio que não era romano nem romântico: tinha a contradição toda nova dos anos setenta (que começaram em 68!) e isso me agrada tanto! Sempre agradou. E essa gente ralou diante de tanta repressão e se despiu do ranço acadêmico de que quero ainda me livrar. Essa gente escreveu palavrões que foram sempre cortados pela censura. Ficou ali um buraco, que preencho com muita facilidade. Essa gente ousou, essa gente se fodeu e eu aqui no bem-bom do século XXI. Quero aprender com eles. Vamos lá, sair do primeiro parágrafo da introdução.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Gente, dica para quem gosta da obra do Caio Fernando Abreu:


http://salveacasadocaiofernandoabreu.blogspot.com/


Quem puder (e quiser), dê uma força para a campanha!


Beijocas da Jana

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Pensei - irrefletida:
não gosto de imagens,
elas dizem tudo,
nada além.
Depois
uma conversa,
um trem, um viaduto,
um carinho
depois do depois
que sempre
"já é depois"
ele disse
talvez irrefletido como
eu:
"eu estou a fim de um vinho, 
para alimentar a sinceridade 
de dizer que imagens mentem
a todo instante... 
a lua é cheia de caos"
parei,
bem mística,
no meio do nada,
e passou,
de leve,
mas passou,
na minha frente,
uma borboleta amarela.

Para meu amigo Augusto Radde (com lindas palavras do mesmo!)

sábado, 7 de agosto de 2010

"Não sinto loucura no desejo de morder estrelas, mas ainda existe a terra. E porque a primeira verdade está na terra e no corpo. Se o brilho das estrelas dói em mim, se é possível essa comunicação distante, é que alguma coisa quase semelhante a uma estrela tremula dentro de mim. Eis-me de volta ao corpo. Voltar ao meu corpo. Quando me surpreendo no fundo do espelho assusto-me. Mal posso acreditar que tenho limites, que estou recortada e definida. Sinto-me espalhada no ar, pensando dentro das criaturas, vivendo nas coisas além de mim mesma."
(Clarice Lispector - Perto do Coração Selvagem)

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Não há sol aqui...
mesmo se houvesse:
as palavras alheias caem
obscuras
sobre nós.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Vou te propor um pacto:
vamos causar impactos?
Jorram intentos:
puro vapor do nada.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Ele me chamou e viu o
que
eu
não
vi
Eu achava
digo
acreditava
pi-a-men-te
que
aperto-no-peito
fosse somente
uma metáfora
e
sei
não
sei
se
isso
essa
pseudo-metá-
fora
do aper-
to no pei-
to
chama-se
sau
dade
ou
fan
tasma
CONFIA!

não
era:
e eu não