quinta-feira, 24 de junho de 2010


Eu acho que morrer é assim como virar uma árvore. Imóvel. Com raízes fortes. Morrer não dói, eu acho, morrer é passar de animal a vegetal. O único incômodo deve ser não poder se mover, mas isso só para quem está acostumado a andar, a mexer os braços, as pernas. Morrer é como deixar de ter braços e pernas. De início a gente não sabe como lidar com tanta desumanidade. Depois se toma distância assim da vida humana e se olha como se fosse um terceiro. Se é que uma árvore olha. De repente é só ouvir que faz uma árvore. Ou de repente nem é isso. Será que se tem medo de chuva quando se é uma árvore? Existe um deus das árvores? No início, acho que eu me assustaria da noite sendo uma árvore. Mas ser árvore não dói, imagino. A gente nem sente tanta frescura sendo árvore de raiz bem fincada no chão. Nem se tem vontade de correr. Deve ser bom ter o vento batendo dos braços, ou seja, galhos. Como se tornam os braços galhos?
Ando com saudades de uma árvore.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Ando tendo palpitações - 
problemas de espaço-tempo - 
redimensionei a vida -
coração aos pulos
no alto-falante - 
falou?
Quem falou?
Eu disse:
- coração aos pulos
no alto-falante.
Tento tocar em frente
mas me puxam para trás:
-calma, menina, quem disse que 
ia parar o tempo?
Sim, eu disse,
sim, sou pura pretensão.
O tempo se acavalando
sobre mim.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Invento passatempos
e fujo do tempo:
guria pequena e caprichosa,
não estou à mercê do juízo,
Fujo dos passatempos
e invento o tempo:
mulher de futuro e de negócios.
Chamaram-me ontem
para uma entrevista:
querem me dar um prêmio
e eu resisto.
Ninguém sabe,
mas ando me sentindo culpada:
tantas coisas importantes nas entranhas
e eu a dar atenção a coisas de relevo.
Ando envolta em tempos,
não quero que o tempo passe:
passa não, tempo, passa não,
eu quero ficar aqui,
pequena e caprichosa.
Não quero nem futuros nem negócios,
pequena e caprichosa,
vou parar o tempo, reinventá-lo,
colocá-lo no lixo,
pequena e caprichosa,
vou inventar os paratempos.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

RECHEIO

Oi, pessoas! Eu gostaria de fazer um convite! Minha amiga, colega, irmã de coração Graziela está com um novo projeto: um blog que se chama recheio. Lá, ela escreve crônicas, "cronicontos", poemas e os mais variados textos. O que esses textos têm em comum é a profundidade. Usando as palavras da própria Grazi, os textos são "paulatinamente impactantes". Além disso, essa menina é extremamente cuidadosa, seus escritos são muito bem pensados e muito bem articulados: "densos, tensos, intensos".
Bom, vou deixar que a própria Grazi fale - em um poema escrito no recheio - mas não sem antes expressar a minha satisfação em ver que ela está, finalmente, dividindo sua produção conosco: vale a pena ler, é fantástico! Boa leitura! Beijos da Jana.

Ela

Presa à maldade inabitável do Éden
Redentora da fogueira
Bastarda dos céus
Menina apocalíptica errante
Comensal da fruta
Geradora do bendito e maldito fruto
Finalista de uma falsa estação
Heroína da forjada espada
Marcada no tempo
Insegura na noite
Herdeira da morte
Livre do dia
Amazona de asas sem antecedentes
Gélida e verticalmente decaída
Em praça pública
Nas labaredas de seu corpo

grazi Ela