domingo, 16 de maio de 2010

O amanhã não vai chegar: fui eu que o criei

Esta minha ficção existe. Sim, é palpável, é verdade, fui eu mesma que a criei. Eu e o meu gênio de minhoca! Não estava preparada para o mundo diante de mim. E chamei-o, a minhoca (já prestaram atenção à genialidade das minhocas?). Não esperava que viesse. Chamei pelo prazer de ousar e sair da linha. Ele veio, o atrevido! Mas, claro, com a sua face que é a minha outra face e eu, displiscente, nem a conhecia. Eu de uma ambiguidade desenfreada. Enquanto leio, também escrevo, construo compulsivamente uma memória. E tudo isso entre os mortos, esperando para ser morta e livre no meu túmulo de mármore, idealizado na infância. Preciso viajar e preciso de dinheiro para viajar. Não que eu goste de riquezas, mas preciso dele para ir do mundo ao além-mundo. Este, muito bonito, com pontes e azul interminável. Aquele, o petulante! Cara-de-pau a me afrontar com a minha outra face. Eu poderia bem abdicar do dinheiro e pedir carona nas estradas, mas estaria sendo abusada, a gastar o dinheiro dos outros. Poderia ao menos pagar o pedágio, mas aí não seria abdicar de tudo completamente. Poderia ir caminhando, mas aí eu seria mártir e para isso não tenho vocação. Eu e meu gênio de minhoca! Meu túmulo seria somente um sinal de que eu estaria livre e tranquila debaixo da terra. Temos de alimentar os fantasmas: eles, sim, famintos, comem e dormem conosco. Somos como que um sopro, apenas um - bem intangível -, de vida para eles. Quando eu morrer, não quero ser fantasma, quero gostar da terra por cima, com preguiça de me morrer, de me mover, tão agitada que fico encerrada em claustrofobias. Tenho que me trabalhar até lá. Tenho que ser soprinho dos fantasmas. Respiro bastante e cuidadosamente agora, porque quero lembrar-me disso lá, debaixo do túmulo de mármore. Eu não quero terminar de ler a Chuva Imóvel, porque ela está sempre no final e todo final é uma despedida, que dói, oração adjetiva. Está doendo e eu não quero que a dor termine. Este mundo arrogante que insiste em afrontar-me com a minha outra face. Ele - Campos de Carvalho - ousou escrever a obra da minha vida, com o mundo o afrontando. Como pode este mundo afrontar Campos de Carvalho e tantos outros para afrontar-me depois a mim com a minha outra face que é esta de conhecer e esperar a morte antes que ela venha? Esta ficção é minha e é verdade: fui eu que a criei.

2 comentários:

Anne M. Moor disse...

E é a que mais gostei até agora!

Beijos e boa semana
Anne

janaina brum disse...

Anne, querida, novos rumos, novos rumos...
beijocas