segunda-feira, 31 de maio de 2010

Esperando Mais do Mundo

Eu ando esperando mais do mundo
e de mim,
eu quero andar por entre as cortinas
e sorrir vendo o que ninguém vê.
Eu quero deixar de ser Imperatriz
do óbvio
e me espantar somente com
o diferente.
Nâo quero mais a tenacidade
das coincidências
que denunciam o que há de comum
em mim,
eu quero a surpresa
grandiloquente das enchentes,
quero conhecer
o que nâo me pertence
e o que nao se assemelha:
eu quero,
ainda que impossível,
a plenitude dos dois, dos três,
dos múltiplos mundos
em que vivemos - todos - 
sem saída.
Ando esperando mais do mundo,
ando querendo tudo de mim, 
mas as coincidências
retornam e caem como
penas - de morte - 
sobre nós:
mundo
demais
em mim.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Eu andava a passear
pelas ruas da urbanidade:
comprei uma folha de plátano,
resgatei (apaguei?) uma memória,
comprei de um grupo de teatro,
comprei uma revista de teatro,
ganhei teatro de revista,
em plena XV de novembro,
sonho antigo abandonado
em prol da objetividade.
Vou fazer uma tese 
-  último resquício de objetividade -
(sondam-me novamente para o Nobel):
chovem pingos de cultura
"no fim do fundo da América do Sul".
Sob pesadas nuvens
(de cultura, vejam bem),
eu fujo do tempo:
captura impossível.

terça-feira, 25 de maio de 2010

(BorboLili)

São tantos ditos e reditos...
e um dia eu vou
gostar de ouvir Roberto Carlos
por lembrar de ti
e eu hei de criar novas ficções para
te ter aqui
eu serei contigo
sempre
as dicotomias
não existem
Descartes e Saussure
também não
só existem
borboletas amarelas

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Preciso tomar ar, fingir que sou normal & tenho um profundo interesse pelas pessoas e acontecimentos culturais e todas essas estonteantes possibilidades urbanas.
(Caio Fernando Abreu, nas Cartas)
[Não aguento mais coincidências, me acho piegas, inocente, sem perceber o mundo...]
Tenho achado viver tão bonito.
Talvez porque ande, como nunca, perto da ideia da morte.
(Caio Fernando Abreu, Cartas)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Há uma noite aqui: dizem as línguas - as boas, as más e as indiferentes - que começa a findar.
Não quero ver a morte
e enfrentar os Fantasmas da Infância
"maiúsculas respeitosas"
nào quero ser vitória
e enfrentar as Derrotas Gigantes
"maiúsculas respeitosas"
E eu crio coincidências
com o único intuito
de achar o mundo mais
confortável
minúsculas desrespeitosas
Não gosto de Premonições
(já sabem a utilidade das maiúsculas)
elas me jogam contra a parede
e brota o sangue
(as minúsculas não têm sentido)
Eu - desrespeitosa -
jogo adjuntos adnominais
e predicativos do sujeito
na tua cara:
está tudo se tornando ficção:
vou abandonar a vida
(desrespeito sintático-semântico!)

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Quisera eu ter escrito duas ou três obras imortais. Decidi hoje ser imortal: até segunda ordem.

domingo, 16 de maio de 2010

O amanhã não vai chegar: fui eu que o criei

Esta minha ficção existe. Sim, é palpável, é verdade, fui eu mesma que a criei. Eu e o meu gênio de minhoca! Não estava preparada para o mundo diante de mim. E chamei-o, a minhoca (já prestaram atenção à genialidade das minhocas?). Não esperava que viesse. Chamei pelo prazer de ousar e sair da linha. Ele veio, o atrevido! Mas, claro, com a sua face que é a minha outra face e eu, displiscente, nem a conhecia. Eu de uma ambiguidade desenfreada. Enquanto leio, também escrevo, construo compulsivamente uma memória. E tudo isso entre os mortos, esperando para ser morta e livre no meu túmulo de mármore, idealizado na infância. Preciso viajar e preciso de dinheiro para viajar. Não que eu goste de riquezas, mas preciso dele para ir do mundo ao além-mundo. Este, muito bonito, com pontes e azul interminável. Aquele, o petulante! Cara-de-pau a me afrontar com a minha outra face. Eu poderia bem abdicar do dinheiro e pedir carona nas estradas, mas estaria sendo abusada, a gastar o dinheiro dos outros. Poderia ao menos pagar o pedágio, mas aí não seria abdicar de tudo completamente. Poderia ir caminhando, mas aí eu seria mártir e para isso não tenho vocação. Eu e meu gênio de minhoca! Meu túmulo seria somente um sinal de que eu estaria livre e tranquila debaixo da terra. Temos de alimentar os fantasmas: eles, sim, famintos, comem e dormem conosco. Somos como que um sopro, apenas um - bem intangível -, de vida para eles. Quando eu morrer, não quero ser fantasma, quero gostar da terra por cima, com preguiça de me morrer, de me mover, tão agitada que fico encerrada em claustrofobias. Tenho que me trabalhar até lá. Tenho que ser soprinho dos fantasmas. Respiro bastante e cuidadosamente agora, porque quero lembrar-me disso lá, debaixo do túmulo de mármore. Eu não quero terminar de ler a Chuva Imóvel, porque ela está sempre no final e todo final é uma despedida, que dói, oração adjetiva. Está doendo e eu não quero que a dor termine. Este mundo arrogante que insiste em afrontar-me com a minha outra face. Ele - Campos de Carvalho - ousou escrever a obra da minha vida, com o mundo o afrontando. Como pode este mundo afrontar Campos de Carvalho e tantos outros para afrontar-me depois a mim com a minha outra face que é esta de conhecer e esperar a morte antes que ela venha? Esta ficção é minha e é verdade: fui eu que a criei.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Coincidências se agigantam sobre mim:
mapas astrais se parecem tanto com
premonições
telefonemas se parecem tanto
com profecias
novos caminho se desenhando
novas fendas
novas vidas
que me esperam
e as borboletas amarelas
ai, as bosboletas amarelas
parecem agora fruto
coletivo de imaginação
pouco fértil
perdas e afetos se entranham
premonições e profecias
se agigantam
deitar e sonhar:
objeto impossível de desejo
ensejo permanência

ainda

(é D'après Caio Fernando Abreu, oficialmente, mas eu poderia utilizar d'après um monte de coisas. Tudo se atrapalha... ainda mais hoje...)

terça-feira, 11 de maio de 2010

Poeminha que fiz, no final de 2009, a pedido de meu pai, para a equipe da Nefrologia do Hospital São Francisco de Paula...


Não há punições
Em um céu tão leve,
Só uma equipe de anjos
A me ninar.

Tantas manhãs de invernos
E primaveras e a mesma
Luz diariamente a me afagar.
São anjos a me ninar.

Quando talvez eu só esperasse
Sombras na sombra de um único  lugar,
Eram eles – os anjos – a me ninar,
Anjos de branco, sempre na porta, no limiar.

Só assim a minha dor
É mais suave – anjos de branco
A me ninar, na esperança
De dias bons a me ninar.

Anjos só voam em sonhos.
Aqui eles caminham e sorriem.
Anjos de branco
A me ninar.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O escritor é uma das criaturas mais neuróticas que existem: ele não sabe viver ao vivo, ele vive através de reflexos, espelhos, imagens, palavras. O não-real, o não-palpável. Você me dizia "que diferença entre você e um livro seu". Eu não sou o que escrevo ou sim, mas de muitos jeitos. Alguns estranhos.
Caio Fernando Abreu (tão eu que dá medo)
Voltei:
to-tal-men-te de-sor-ga-ni-za-da
nem sei mais a diferença entre poesia e prosa
há realmente a necessidade de dizer
que escrevo uma ou outra?
Coincidências se agigantam:
também ouvi língua e quereres hoje
e as borboletas?
Resistem:
não vou aguentar tanta lucidez
tenho escrito muito:
dói horrores
me dizer assim
acho que ando me
sentindo meio perseguida
não que as borboletas amarelas
apareçam realmente
mas todo mundo fala nelas
ando me sentindo
meio senso comum
e por que não?
dói horrores
céu azul
o de hoje
mas nuvens na noite
andava meio chorosa
mas um choro bom
ando carregando a cruz
da eternidade no peito
dói horrores
este
céu-azul-do-dia-com-nuvens-à-noite
acho que a paranoia
se torna grandiosa
dimensões épicas
dói horrores
ando pensando no que
fazer com isso

to-tal-men-te de-sor-ga-ni-za-da
interna e externamente

domingo, 2 de maio de 2010

Tudo, tudo converge:
ele não escolheu esta publicação
e ela realmente é um tanto
sórdida.
Ando pensando seriamente em
não conversar mais nos msns
da vida:
vá que publiquem?
Eu, hein! 
Não quero meus segredos assim!
Bando de voyeristas!
Desagrada!
Ai, como dói
esta loucura de
desejos!
Tenho impressão que alguma coisa na minha cabeça muda. E muda forte. Não sei bem o quê. É como se estivesse muito mais velho. Assim como se um contato frontal com a morte fosse a única coisa que faltava para ficar definitivamente adulto. Pois é. Era terrivelmente real. E feio. E vazio - alguma coisa já não estava mais lá. A alma? Pode ser.
Caio Fernando Abreu

sábado, 1 de maio de 2010

Eu te vejo
te leio 
te desenho
e penso na crueldade
de dias tão intensos
Para que tanta luz?
Os sons corroendo a cidade
os vícios clamando
por vontades.
Falas de coisas tão mortais
e ainda vivem
é concreto
ela não se atirou
ela está ali,
bem bonita na prateleira
livros póstumos 
são saudades
principalmente quando
trazem fotos
saudades de quem
não conheci
voa, anjo, voa
Tudo que escrevo tem me parecido absolutamente literário. Ando me virando em ficção.
"Andei escrevendo bastante. De repente, acho que está saindo um livro novo. Sabe que tenho medo de escrever? Evito sempre que posso. Dá uma grande exaustão, depois. Uma exaustão agradável, mas a cabeça fica excitada demais, é qualquer coisa muito próxima da loucura. Mas nos últimos tempos não tenho conseguido evitar. Vai saindo. É meio assustador."
Caio Fernando Abreu (acho que foi realmente o momento certo)
Tenho amigos tão bonitos. Ninguém suspeita, mas sou uma pessoa muito rica.
Caio Fernando Abreu (Poderia bem ser meu)
Faz um favor?
Não destrói os meus
ídolos - 
bem sei que
brinquei de ser
iconoclasta,
mas me fere.
Pra que me dizer verdades
se eu prezo tanto
o  meu mundo de fantasmas?
Pra que me jogar
neste absurdo de real
em que eu tantas vezes logrei entrar?
Me fere.
Viveste numa época que é toda minha
e eu não estava lá.
tenho ciúmes de te encontrar
onde jamais estive.
Tenho ciúmes...
não me firas.
Choro sozinha e
sem sentido na
madrugada alheia.
Eu não saberia previamente
que se tratava de uma premonição:
eu - por minha vez quase indiferente
na superfície - também
sou invadida pela vida
dos outros,
também penso nesta mudança de estado
em que meus afetos se jogam.
Meu pai - figura mítica
que me dá existência divina -
sofre de uma mudança
renegada,
potencial,
sempre no horizonte.
É grave:
ela o determina
e não aconteceu.
Dói este céu
ferrenho
em mim.
"Na medida em que busquei garantir ao máximo a legibilidade de romance, optei por preservar a maioria dos nomes próprios, que aqui se transformam em personagens do teatro mental de Caio. Toda carta é encenação, a própria sinceridade na carta é uma encenação."
Ítalo Moriconi na Introdução às Cartas de Caio Fernando Abreu
De repente,
o momentâneo e
sem sentido se
faz escrita:
a gente discursiviza a vida,
desestabiliza a memória
e eterniza o efêmero.
Polaróides urbanas
sobre a letra:
institucionalização do nada
(age em nós)
Plurilema policultural: para cada livro que amo, queria escrever um outro - visceral. Obras da noite têm pequenas obras-filhas, de ventre, de víscera, de versão diferentes. Assalta-me a palavra alheia.

(Com o pensamento na Lili P.R.)