sexta-feira, 16 de abril de 2010

Viagens e viagens

Não me perguntem por que resolvi escrever este texto: não faço a mínima ideia. Não viajei, não pretendo viajar para uma cidade que não conheço nos próximos dias, pelo menos. Mas ando precisando: conhecer uma cidade é um acontecimento. E não estou falando de nova yorks, de parises, de romas, de madris ou de cidades do méxico; não preciso ir tão longe. Estou falando de morros redondos mesmo, de piratinis, de pinheiros machado, de bagés. É um acontecimento: conhecer uma cidade é vê-la, é abrir a percepção, é como ler um poema que nos desestabiliza. Uma cidade é um mundo, é vasta, é um olhar sobre a arquitetura. Uma cidade é um enfoque da civilização.
Quando eu vim morar em Pelotas, caminhando por essas ruas estreitas, contando o número de quadras que me levava aos lugares, com o auxílio essencial do meu mapinha de bolso, eu pensava frequentemente sobre o conhecer uma cidade, sobre o falar uma cidade, sobre o significar uma cidade. Uma das coisas que eu pensava com frequência era que eu jamais saberia o que vinha na próxima quadra, eu jamais decoraria a ordem das ruas, eu jamais saberia mentalmente a sequência de prédios, as cores, os cruzamentos. Eu comparava frequentemente o conhecer uma cidade que não é natal com o aprender uma língua que não é materna: impossível ser inteiro.
Hoje Pelotas é uma cidade minha, materna, assim como é Jaguarão. Estranha essa relação... vinda de Jaguarão, conheci e percebi Pelotas como algo inteiramente novo, precebi seu céu, sua umidade, seus prédios, suas veias históricas. Uma vez em Pelotas, comecei a perceber a minha cidade natal como algo inteiramente novo, precebi seu céu, seu frio, seus prédios, suas veias históricas. Fui me tornando mais e mais nativa de Pelotas e mais e mais estrangeira em Jaguarão, até o momento em que o estado das duas para mim se tornou o mesmo: acostumei-me com as diferenças de Pelotas e surpreendi-me com as velhas conhecidas semelhanças de Jaguarão.
Eu gosto de ver minhas cidades com o olhar de quem está chegando para conhecê-las. Quando caminho pela Vinte de Setembro em Jaguarão, tento ver todos os detalhes, perceber aquela urbanidade ribeirinha como algo totalmente novo... surpreendo-me com as calçadas onde aprendi a caminhar. Quando ando pela Félix da Cunha em Pelotas, caminho diário e sistemático há sete anos, tento ver todos os detalhes, perceber aquela urbanidade histórica como algo totalmente novo... surpreendo-me com as calçadas onde aprendi a viver.
Sempre que posso, saio a caminhar sem rumo pela cidade - Jaguarão ou Pelotas, não importa. Sair sem rumo é poder olhar as pessoas, ficar curiosa para saber se elas acordaram bem ou mal, para onde vão, se estão com pressa, é imaginar histórias sobre suas vidas. É sentar na praça mais bonita que encontrar, é descobrir atalhos, ruas novas, prédios nunca percebidos. É pensar na vida, é tomar decisões sérias, é dar bom dia a desconhecidos, é planejar o futuro, é sonhar com o futuro, é pensar em política, amores, viagens, filhos, amigos, felicidades... é refazer todo um caminho, é definir um novo. Não importa se vão durar as decisões, importa é que pensemos nelas, em outras vias, em outras vidas, importa que estejamos sós sem desesperarmo-nos por isso. Importa a tranquilidade, dure ela uma hora ou se estenda por três ou dez ou 365 dias. Acontecimento.
É uma viagem.

Um comentário:

Anne M. Moor disse...

Jana

Texto maravilhos! Como dizes, caminhar as cidades que não conhecemos é abrir a porta para caminharmos as que achávamos que conhecíamos e dar outro valor!

Estou caminhando muitas cidades agora e estou encantada com esse jogo de comparações mágicas!

Beijão
Anne