quinta-feira, 29 de abril de 2010

Ousaste realmente transpor as barreiras da linguagem
e enfeitiçar-te com a transitoriedade de meu discurso?
Ousaste, enfim, projetar em mim teu desejo eterno
de completude e forçar a palavra a dizer tudo que,
historicamente, está relegado ao plano sensório do
indizível?
Reconheces a minha letra? Lembras dos tempos
em que, diariamente, eu - insana ao lidar com a tua ausência -
escrevia-te cartas, e poemas, e palavras de amor?
A minha letra te persegue entre os guardados mais objetivos.
Não busques contas pagas há muito tempo:
junto à sua objetividade, estão - incompatíveis - 
as testemunhas do nosso encantamento,
do irredutível dos sentidos que estouram as palavras.
Não juntes provas contundentes de que eu enlouquecia,
pois enlouquecias mais ainda,
envolto na aura dos comprimidos coloridos.
Essa loucura dói de tão inarticulável,
esta lucidez não é a prova de que somos mortais,
mas o documento que atesta a nossa mortífera alma.
Não quebres o sigilo da palavra - último segredo
que ainda nos mantém os laços. Não ouses dizer
este desejo que mantém as luzes todas acesas nas madrugadas
do teu quarto.
Emaranhados de linguagem te seduzem:
eu sou esta que diz,
eu sou esta que te indaga:
pipocam as palavras
em ecos, ecos de espelho
que te amarram ao além dos sentidos,
que te fazem tirar os olhos da tela
e projetar tua visão em uma
comunhão imaginária e linear - 
a grande farsa monótona da felicidade.
Não te embebas no meu discurso:
ele é vazio de sentidos - boca, olho, ouvido não existem
aqui.
Retorna:
a palavra explode no absurdo.

4 comentários:

Mulher na Polícia disse...

Emaranhados de linguagem me seduzem... também, depois que consigo pegar o fio da meada.

É...
Tenho muito o que aprender contigo.

Um beijo da mais nova fã.

RaH disse...

Incrível..

Acho que basta uma palavra para definir.

Beijo carinhoso.

janaina brum disse...

Oi, MP, sejas bem-vinda ao ELA!
Beijo

janaina brum disse...

Rah, querida, obrigada!
Beijocas