quinta-feira, 29 de abril de 2010

Ousaste realmente transpor as barreiras da linguagem
e enfeitiçar-te com a transitoriedade de meu discurso?
Ousaste, enfim, projetar em mim teu desejo eterno
de completude e forçar a palavra a dizer tudo que,
historicamente, está relegado ao plano sensório do
indizível?
Reconheces a minha letra? Lembras dos tempos
em que, diariamente, eu - insana ao lidar com a tua ausência -
escrevia-te cartas, e poemas, e palavras de amor?
A minha letra te persegue entre os guardados mais objetivos.
Não busques contas pagas há muito tempo:
junto à sua objetividade, estão - incompatíveis - 
as testemunhas do nosso encantamento,
do irredutível dos sentidos que estouram as palavras.
Não juntes provas contundentes de que eu enlouquecia,
pois enlouquecias mais ainda,
envolto na aura dos comprimidos coloridos.
Essa loucura dói de tão inarticulável,
esta lucidez não é a prova de que somos mortais,
mas o documento que atesta a nossa mortífera alma.
Não quebres o sigilo da palavra - último segredo
que ainda nos mantém os laços. Não ouses dizer
este desejo que mantém as luzes todas acesas nas madrugadas
do teu quarto.
Emaranhados de linguagem te seduzem:
eu sou esta que diz,
eu sou esta que te indaga:
pipocam as palavras
em ecos, ecos de espelho
que te amarram ao além dos sentidos,
que te fazem tirar os olhos da tela
e projetar tua visão em uma
comunhão imaginária e linear - 
a grande farsa monótona da felicidade.
Não te embebas no meu discurso:
ele é vazio de sentidos - boca, olho, ouvido não existem
aqui.
Retorna:
a palavra explode no absurdo.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Ando pensando seriamente em colocar referências bibliográficas em tudo que escrevo:

ANDRADE, Carlos D.
CESAR, Ana Cristina.
COUTO, Mia.
HILST, Hilda.
LISPECTOR, Clarice.
MÁRQUEZ, Gabriel G.
PIÑON, Nélida.
PRADO, Adélia.
WITHMAN, Walt.

Será que faltou alguém?
Eu jogo os dados para o lado:
não vou lidar com jogos de interesses,
viro a noite do avesso
e não há nenhum tropeço que me 
faça perder o tino.
Nao há uma decisão,
mas apenas uma vontade tácita
de um novo começo:
começo a incorporar
um discurso todo meu
que me persegue desde a maturação
da ideia prosaica de dizer
o medo.
Eu não posso controlar destinos,
mas posso prevê-los:
ainda não sei se sou anjo
ou poeta.
Liberta, liberta.

domingo, 25 de abril de 2010

(In)completas

Gente! Novo projeto! Eu e a Luciene Santos, do blog Vale (Quase) Tudo, estamos inaugurando um novo blog, O (In)completas, um blog de correspondências, em que expressaremos nossas opiniões sobre todas as coisas imagináveis e algumas inimagináveis também, talvez principalmente sobre elas! Vamos tentar, aos poucos, acortumar-nos com a ideia de uma escrita "colaborativa". Quem sabe, daqui a pouco, não estaremos escrevendo a quatro mãos? Quem disse que a escrita tem de ser uma experiência solitária? Bom, acho que vai ser legal. Confiram, comentem, crucifiquem, divirtam-se, chorem, vejam no que vai dar:



Nascemos pela vontade de comunicar-nos, pela vontade de dizer-nos, pela vontade de investigar os mundos, os nossos mundos, os mundos dos outros, a não-totalidade dos mundos. Somos pessoas inquietas e para nós não basta a troca prosaica e trivial do dia-a-dia. Queremos comunicar-nos literariamente,confessar-nos publicamente e deixar de esconder que não estamos à vontade no mundo.
Beijos, jana

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Caixinha de surpresas:
amanhã novas personagens
surgirão.
Eu - pagã - 
sigo fugindo da
mística
poética:
ando espreitando
a segurança
das prosas

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Depois de Monty Python, muda-se ou não de vida? Quero ser uma bobalhona intelectual!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

nas veias de uma cidade
sem portais e sem limites
eu me desfasso passo-a-passo
em compasso com o som
ensurdecedor dos túneis e 
das marés
não é uma fotografia:
é uma intensidade in loco
é uma tensão profunda e abstrata
eu gosto de me despedir das cidades
mas sempre espero a hora de voltar
e rever aquele lugar
que não me diz nada:
ponte profunda
e sem sentido
entre mim e meus afetos

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Viagens e viagens

Não me perguntem por que resolvi escrever este texto: não faço a mínima ideia. Não viajei, não pretendo viajar para uma cidade que não conheço nos próximos dias, pelo menos. Mas ando precisando: conhecer uma cidade é um acontecimento. E não estou falando de nova yorks, de parises, de romas, de madris ou de cidades do méxico; não preciso ir tão longe. Estou falando de morros redondos mesmo, de piratinis, de pinheiros machado, de bagés. É um acontecimento: conhecer uma cidade é vê-la, é abrir a percepção, é como ler um poema que nos desestabiliza. Uma cidade é um mundo, é vasta, é um olhar sobre a arquitetura. Uma cidade é um enfoque da civilização.
Quando eu vim morar em Pelotas, caminhando por essas ruas estreitas, contando o número de quadras que me levava aos lugares, com o auxílio essencial do meu mapinha de bolso, eu pensava frequentemente sobre o conhecer uma cidade, sobre o falar uma cidade, sobre o significar uma cidade. Uma das coisas que eu pensava com frequência era que eu jamais saberia o que vinha na próxima quadra, eu jamais decoraria a ordem das ruas, eu jamais saberia mentalmente a sequência de prédios, as cores, os cruzamentos. Eu comparava frequentemente o conhecer uma cidade que não é natal com o aprender uma língua que não é materna: impossível ser inteiro.
Hoje Pelotas é uma cidade minha, materna, assim como é Jaguarão. Estranha essa relação... vinda de Jaguarão, conheci e percebi Pelotas como algo inteiramente novo, precebi seu céu, sua umidade, seus prédios, suas veias históricas. Uma vez em Pelotas, comecei a perceber a minha cidade natal como algo inteiramente novo, precebi seu céu, seu frio, seus prédios, suas veias históricas. Fui me tornando mais e mais nativa de Pelotas e mais e mais estrangeira em Jaguarão, até o momento em que o estado das duas para mim se tornou o mesmo: acostumei-me com as diferenças de Pelotas e surpreendi-me com as velhas conhecidas semelhanças de Jaguarão.
Eu gosto de ver minhas cidades com o olhar de quem está chegando para conhecê-las. Quando caminho pela Vinte de Setembro em Jaguarão, tento ver todos os detalhes, perceber aquela urbanidade ribeirinha como algo totalmente novo... surpreendo-me com as calçadas onde aprendi a caminhar. Quando ando pela Félix da Cunha em Pelotas, caminho diário e sistemático há sete anos, tento ver todos os detalhes, perceber aquela urbanidade histórica como algo totalmente novo... surpreendo-me com as calçadas onde aprendi a viver.
Sempre que posso, saio a caminhar sem rumo pela cidade - Jaguarão ou Pelotas, não importa. Sair sem rumo é poder olhar as pessoas, ficar curiosa para saber se elas acordaram bem ou mal, para onde vão, se estão com pressa, é imaginar histórias sobre suas vidas. É sentar na praça mais bonita que encontrar, é descobrir atalhos, ruas novas, prédios nunca percebidos. É pensar na vida, é tomar decisões sérias, é dar bom dia a desconhecidos, é planejar o futuro, é sonhar com o futuro, é pensar em política, amores, viagens, filhos, amigos, felicidades... é refazer todo um caminho, é definir um novo. Não importa se vão durar as decisões, importa é que pensemos nelas, em outras vias, em outras vidas, importa que estejamos sós sem desesperarmo-nos por isso. Importa a tranquilidade, dure ela uma hora ou se estenda por três ou dez ou 365 dias. Acontecimento.
É uma viagem.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Daqui a pouco, todo este excesso e toda esta exaustão parecerão insuficientes.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Revoltadinha, como sempre...

Não bateu na porta: entrou ventando, prepotente, com anúncios e  programinhas superficiais, superfícies ocas,
oco, oco, oco!
Ai, a telecomunicação! Tão expansiva, tão invasiva! Janelas, janelinhas, portas, campainhas, companhias para quê? Se há a novela das 8, das 24 horas! Não me incomodem! Hoje é o último capítulo! Eu não vivo depois do Jornal Nacional! Eu queria tanto que a minha vida fosse um reality show! Show de Thruman? Não! É demais para minha cabecinha! Gosto daqueles em que podemos votar pela Internet! Ai, o que seria de mim  sem o modem, o orkut, o msn e o escambau? Ai, que vida intensa! São dezoito janelinhas piscando ao
mesmo tempo! Ai, como sou feliz, tenho vida social e não preciso nem sair de casa! Quantas dádivas! Clico, clico, clico e não leio naaadaaaa, só deixo recadinhos!
Mente aberta, mente aberta,
toc, toc, toc,
sou a mídia, bom dia, brasil! Vou levando a sua intimidade vou chutando qualquer rastro de opinião! Seja você mesmo! Compre batom, margarina, rivotril, gardenal, cervejinha, cervejinha que vem com mulherzinha de brinde, compre saúde, inteligência, elegância: compre um câncer intelectual!
O mocinho e o bandido, as mulheres todas grávidas no final! Ai, a vida é tão emocionante na tv! Siga o seu ídolo no Twitter, siga! Descubra a que horas ele acorda, come, anda, caga, descubra se ele é ou não real! Mande correntes por e-mail, ganhe mais e mais amigos no face, seja natural, anti-social!
Só um pouquinho, vou ficar ausente no msn, pra ver mais uma edição extraordinária de um programa especial. Entrei no Terra, conheci uma pessoa bem legal, namoramos há mais de três anos, vamos nos conhecer no dia do juízo final! No programa do SBT, apareceremos no Jornal, vai ser uma Beleza! Vamos ganhar produtos do patrocinador, uma reforma na casa e no carro e seremos felizes até o próximo chat mortal!
Oco, oco, oco!
Aço, aço, aço!
Posso, posso, posso!
Passo, passo, passo!
Isso! Isso! Isso!
Poço, poço, poço!

Para quê pensar se a tv já pensou em tudo por nós?
Trabalho dobrado.
Não é:
não era destino.
Um encontro como este
não poderia ficar 
enclausurado
em um destino,
seria limitá-lo.
O que rompe fronteiras
é justamente porque as tem.
Não é...
Não seria destino:
é antes uma história,
uma memória,
pré-história,
pré-estréia, 
uma memória
que não é liberta
porque nunca foi presa.
É um lugar,
um lugar de força,
um lugar de dois.
um lugar de silêncio...
É aqui, sim, o amor.

Para meu irmão Diames e minha cunhada-irmã Deise, desde o guardanapo em que escrevi uma "Ode" do porvir, até um poema antecendente que nunca mostrei porque dói de tanto amor que tenho por eles!
Espero a cidade úmida
ao amanhecer
jogo dados para o alto
e me assalta uma melancolia
de antepassados
sórdidas manhãs de abril
sem cerração
céu aberto e promessas de calor
espero a manhã fria
na beira da lareira
primeira vez que te vi.
Ela virá.


Não gosto de holofotes.
Mas eu, sujeito de direito,
plena e lúcida,
reclamava razão,
reivindicava plenas certezas
e a lucidez dos loucos.
Dona de mim
e do direito,
esperei-te por duas noites
em vão
certa da tua volta
Dona da razão
sucumbi à força das evidências
e das obscuridades
e, dona do mundo,
ensaiei chamar atenção
pela janela
em voo livre
custa-me apagar os holofotes

Essa também sou eu
não reconheces
meu lado passional
e perigoso?
Esse que quer andar constantemente
na contramão?

Estou no escuro e
sozinha
dona da razão
não controlo qualquer
ação
sequer o choro
dona do direito
não te concedo o direito de 
resposta
mas reclamo a tua voz

Eu? Sob os holofotes

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Não sou Clarice, mas deveria!


Era um dia cinzento.
E ele andava por entre
portas e portões
e a cada passo
menos saídas encontrava.
Ele era um homem sério,
embuído em injunções
e lágrimas:
jogo metafórico de não
exprimir - 
sob tortura - 
o óbvio.
Exigências de seriedades
e vontades de risos até o
amanhecer.
E aquele olhar que voltava
em transes
e aquela voz
que insistia em retornar...
transtornos na ilusão de ser
inteiro
tortura na noite quente
de primavera
tradução inóspita do indizível.

Ele sucumbe ao seu avesso.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Borboletas amarelas e "insanidade"

Gente! Depois vocês dizem que sou maluca por causa das borboletas amarelas! Bom... que seja! Gosto de ser maluca! Mas, o importante, além de o Banco Real dar dez dias no cheque especial, é que não sou a única que gosta das borboletinhas amarelas. A atriz, diretora, escritora e etc. Grace Gianoukas, do Terça Insana (Amanhã em Pelotas! Ebaa!), também fala nelas. Vejam o trecho de sua entrevista com o jornalista Álvaro Machado:

Você recomeçou a escrever enquanto estava lá?
Grace: Não, eu não escrevia mais, mas fui tendo insights. Me lembro perfeitamente da hora em que entendi porque isso tinha me acontecido. Eu estava na janela do quarto do HC, com vista de puro concreto, e de repente na minha tinha frente comecei a perceber uma minicopazinha de verde, uma réstia de copa de árvore. Foi quando entendi que aquilo era uma zerada para eu começar de novo, apareceu até uma borboletinha amarela. E depois mais duas, três, quatro. Só isso, simples assim... Eu lia coisas muito bacanas, a biografia de Maria Callas me marcou muito.

Íntegra da entrevista que, aliás, vale a pena:
http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/3166,2.shl

A atriz e diretora também tem um blog que eu recomendo:
http://tobemridicula.blogspot.com/

Para finalizar um post deste tipo, que não costumo fazer, um vídeo da, talvez, mais famosa personagem de Grace Gianoukas, Aline Dorel:

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Era uma imagem de filmes:
romans, pedros e tarôs.
Fazia furo.
Entre os laivos da minha
leitura delirante,
eu te observava,
assim, de canto,
te via e te imaginava
em um voo sem quedas,
amparado pelos afetos.
Eu te quero perto
e isso não é um aforismo,
é apenas um sempre,
uma intermitência:

Amor sempre Amor.

quarta-feira, 7 de abril de 2010


Até mesmo por te
Querer bem
Te disse frases mortais

A palavra fere
A ferida da palavra
Palavra-fera
A te espreitar

Tantos livros a me esperar
E eu pensando estratégias
Pra te censurar

As noites
Caem como águas
Chuveiro dos tempos
Canções a nos molhar

Até mesmo por te
Usar para espiar os meus
Lamentos
Te cobri de raivas
E de tormentos

Não era vento, era um
Soprar sem mágoas
Era um cair sem quedas
Um enjôo sem vertigem

Era o tempo a me esperar

sábado, 3 de abril de 2010

era uma sala de paredes cinzas:
era uma dor expressa
em apenas um
matiz:
eram diálogos
inexpressivos:
só mantinham
uma comunicação
prosaica:
eram paredes que me
continham:
paredes cinzas:
pessoas desconhecidas:
pessoas reconhecidas:
eram dores de antes
de mim:
eram ilusões óticas
:
 :
  :
eram esferas a girar:
vertiginosamente

este é um poema de sonhos:
é um poema desejante:
um poema que quer ser
um poema por vir:
um poema de futuros:

este poema é uma confissão:
confissão de retrocesso:
não sei para onde me dirijo:
não é um caminho sem volta:
antes um caminho sem
caminho antecedente,
embora não comece aqui:

este é um poema de vozes:
multiplicidades esféricas:
é um poema redondo:
um poema de entornos:
não vai para lugar algum:
sentidos circulares:
esta é uma circunferência:

:
poema circundante
:

quinta-feira, 1 de abril de 2010


De repente, vidros estilhaçados
Lançavam-se sobre mim
E sobre aquelas velhas certezas
Não era apenas uma metáfora
Era concreto e fazia
Sangrar meu rosto e meus ideais
Era horizonte que não se realizava
Mais como horizonte
Era terra firme
Em terremotos
Eram motivos alheios
A governar meus
Ais
Eram espelhos se quebrando
E se jogando em minha face
Distorcida
Era a dor
Que de tão concreta
Não mais doía
Impossível de significar
Eram os cacos dos poemas
Amontoados sobre mim
Eram os vestígios
Dos crimes
Que cometi ao aproximar-me
Da verdade
Era febre intermitente
E orações inarticuladas
Eu estava dentro de uma caixa
Pequena caixa, acompanhada
Somente
De meus gritos
bafados
Era a verdade nua
Que eu não quisera
Jamais
Alcançar