segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

E ele escrevia
na velocidade da linha
e era assim que dava
um pouco de si a ela
uma estrela
um barco a vela
um furacão

morrem os instantes
em um segundo
mas a linha fica:
puro pó
no início do início
do século

Para meus amigos Crisântemo (A. Radde) e Margarida (L. Santos)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

E quem disse que o mundo não lembra de Ana C.?

BIENAL - SP
Créditos da foto: Franciele Rodrigues
Guarienti
Eu quero viver na Comunidade do Arco-Íris,
bem longe dos louvores,
bem longe das estradas
e das ruas congestionadas.
Eu quero viver atrás dos montes,
mesmo sem bucolismos, 
não importa.
Eu quero viver longe das calçadas,
das ruas descalças,
dos sonhos inatingíveis.

Eu vou voando em um segundo,
fugir, escapar do tédio absurdo
do mundo,
eu vou.

Não quero lembrar das estradas
e de todas as convenções que isso implica.
Quero estar em vigília,
sem propagandas de refrigerantes,
refrigeradores e condomínios gigantes.

Não vou para Pasárgada,
não quero reis, nem mulheres, nem camas.
Tampouco palmeiras e sabiás e
terras com pronomes possessivos.
Eu quero o impossível, o indizível,
eu quero o que a metáfora não alcança,
vou voltar para antes do estádio do espelho,
colher cogumelos e usar sapatinhos vermelhos.

Não comprei passagens, não espero aviões,
vou assim mesmo, de pés descalços e de pijama
e quando eu sentir saudades, vou cantar uma canção inédita,
vou me lembrar de anedotas
e vou dormir como criança,
ouvindo roques rurais -
eu e os ancestrais.

Não me mande notícias, a ECT não
chega na Comunidade do Arco-Íris,
se vier para ficar venha,
sem pompa e circunstância.
Se tiver receios, paciência!
Mas sonhe comigo,
entre bruxas e sereias,
entre hippies e mágicos, 
sem melancolias de auroras de infâncias,
mas de novo uma criança.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010



porque sou uma instância inferior de céus
e nuvens e trovões,
porque quero os clichês ardendo em mim
antes de serem clichês, chavões e banalidades,
porque vou até o sol e queimo frente a tanto enfrentamento,
porque choro sozinha nas noites e nos dias em que voo sem pouso,
porque sou pouco e sempre desejei o mais,
porque vou sair a procurar porquês,
Eu estou aqui. 
Por que vou até teus pés e volto em um átimo?
Por que sou sempre a última?
Por que levo dois tempos, assim bem computados, para
pensar e transformar os ímpetos em planos?

Volta à casa o antigo dono, faz do chão o seu entorno,
torna a mim o meu intento, vem do céu o sol e o vento,
não sou eu que escrevo cartas e as rasgo dois segundos depois?
Não sou eu aquela que quis roubar dois ou três versos geniais?
Porque percebo essa farsa em cinco atos ancestrais.

Estou ardendo e ninguém vê. Por quê?
Eu vou saindo pelos fundos,
não tenho ganas de paixões, de verdades,
bobagens, canções e novos mundos,
só vou saindo pela porta de trás,
querendo chamar atenção pelos 
avessos. Eu sempre fui igual
e invertida.
Eu sempre fui igual
e pervertida,
só me falta a ginga social.
Vou saindo pelos fundos,
mas continuo a espreitar meus passos:

vou amanhã ao meu encontro

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Aqueles dias foram
atos, foram portos,
aeroportos,
passagens, miragens
e eu era a feiticeira,
a cigana,
a rainha.
Eu jamais soube de
qualquer fluido,
de qualquer ruído,
de divindades
e freiras.
Eu era um porto de passagem
eu era hospedagem
eu era tudo o que
querias,
eu era tu
eu eras tu
todas
as eras
todas as ervas
eu em espanhol
eu em fluidez
eu de novo na terra
molhada,
eu devastada,
eu descoberta,
eu improvisada,
mundana
no submundo
eu uma deusa alada

atençào, senhores passageiros,
sem companheiros, sem aeroplanos,
estou voltando para terra firme.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

As pessoas boas estão morrendo. E eu as entendo: também sinto um tédio absurdo no mundo.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Não apenas retorno

Para quem é, com muito carinho.

Não esperava que aquela conversa de almoço – marcada com antecedência, esperada ansiosamente, tudo parecendo muito normal – ia fazê-la deslocar-se do mundo. Desde muito tempo escrevia, mas jamais pensara como naquela semana em fazer da escrita um projeto de vida. Jamais. E só ela sabia o quanto isso a perturbava. Claro. As pessoas estavam acostumadas a lê-la. Sabiam de seus ímpetos. Sabiam que mesmo no lugar mais improvável ela escrevia e jogava com as afeições. Mas não sabiam da ferida de escrever que se abria cada vez mais.

Tinha tudo para ser um encontro sociável e trivial, apesar da pauta previamente definida. Lugar cheio de pessoas conhecidas, acostumadas à sua formalidade habitual. Mais: à sua normalidade inquestionável. Muitas manifestações (contidas) de afeto, apresentações, conversas sobre o trabalho no hall de entrada. Um dia – e um almoço – cotidiano e trivial. Mas excedia. Elas não sabiam propriamente por onde começar, pois ambas estavam em uma fase perturbadora que queriam esconder. Mil disfarces, imaginava ela, podemos assumir agora. Talvez a melhor fase da carreira acadêmica. Nenhum motivo para inquietações. Ansiosa, ela transitava por entre as mesas pensando em quanto tempo ainda duraria aquele entre-tempo e imaginando se sua companheira de almoço também pensaria seriamente em burlar as banalidades.

Um dia singular não seria uma definição propriamente dita, seria até mesmo um sacrilégio expressar assim algo tão inexprimível. Ela gostava de pensar que sua amiga também estava pensando seriamente em assumir uma postura radical diante das coisas. Mas não era isso, era maior: ela – a amiga - estava sendo violentada pelo imperativo da escrita. Melhor ainda. Bons frutos viriam, apesar da dor. Laços se estreitando antes mesmo da primeira palavra sobre a inquietude.

O silêncio não era nada trivial. Enquanto se serviam aleatoriamente, ela previa o tom da conversa, os constrangimentos, as confissões. Não é fácil assumir a escrita. De repente esse verbo parecia verdadeiramente o mais apropriado. Assumir. Existem tantos tabus na escrita. Não se coloca no mundo; existe algo sempre por se dizer sem, no entanto, ter como. Havia uma tensão que não era negativa. Seriam discutidas vísceras e noites em claro, contenções e angústias. E isto obviamente envolvia descontroles.

O papo teve início. No princípio, ela olhava para os lados buscando olhares curiosos, mas, á medida em que se despia das formalidades, das superfícies, ia deixando de perceber tudo que as rodeava. Se para a amiga aquilo era um desabafo sem contornos, para ela era um processo espelhado: tudo que já estava aparentemente sanado retornava vertiginosamente sobre ela, como se, observando-se de fora, voltasse a interiorizar todo seu passado tortuoso em torno da escrita. Tudo voltava em fluxos desorganizados: a infância contida, a adolescência que implicou sérios processos de adequação, as leituras solitárias na hora do recreio na escola, o primeiro “romance”, já há muito tempo queimado em uma fogueirinha catártica, a fuga da entranha, a troca de Clarice Lispector e Nelson Rodrigues por Agatha Christie, o curso de teatro abandonado dolorosamente, os roteiros de filmes adolescentes, a negação de tudo isso, os poemas apaixonados e, paradoxalmente, metrificados, a escrita severa e objetiva, a vida acadêmica, o retorno a Clarice, a “aparição” de Ana Cristina Cesar e de toda sua geração, a dor de voltar a escrever inquietações, a institucionalização do seu projeto literário, disfarçado de alheio, os títulos, os louros, a carreira se jogando sobre ela, as propostas, as respostas, as rosas, os foras, os novos projetos, e os poemas, e os contos, e os romances. Tudo ali, de repente, à sua frente, na figura tão familiar da colegaamigaconselheira de tantos anos, como se não houvesse um tempo linear em sua estranha sucessão de fatos. Se já há um mês pensava seriamente na possibilidade de jamais conseguir livrar-se dos imperativos da escrita, Naquele momento aquilo se tornava uma grande verdade incontornável. E era exatamente naquele momento. Já cogitara essa hipótese nos últimos dias, mas era uma coisa objetivada, que vinha de fora. Agora, à medida que aquele fora – dentro claramente disfarçado de exterioridades – ia se introjetando, bagunçava tudo e dava a conhecer uma verdade que, imaginada, não era tão dura.

Tentou fingir normalidade durante todo o tempo. Mas, se a amiga olhou-a nos olhos – e bem sabe que olhou – percebeu que algo se deslocava. Era um processo doloroso para ambas e elas bem sabiam disso. Havia uma coisa que se entranhava e elas só saberiam disso anos depois. Ela queria sinceramente que o horário objetivo do almoço se estendesse até a noitinha. Mas a formalidade as chamava. Precisavam sentar-se e ouvir meia dúzia de intelectuais de renome. Caminharam lentamente até a universidade, demorando-se a cada esquina na esperança de que aquilo tudo se prolongasse. Despediram-se no saguão, com promessas de um café no final da tarde, como se houvesse uma profanação naquela conversa confessional do almoço, seguiram para o mesmo lugar em diferentes companhias. Era realmente incompatível sentarem-se juntas diante de tanta superfície depois da profundidade de um encontro rápido como não deveria ser.

Ela não prestou atenção a nada. No intervalo, discretamente, andou conversando com dois ou três conhecidos que encontrava pelo caminho. Esqueceu-se propositalmente do horário marcado para a segunda mesa-redonda. Fumou um maço de cigarros à espera de que a amiga surgisse pela porta da frente da instituição para, despidas daquele visgo da academia, poderem chegar (ilusoriamente) a alguma solução. Em vão. Talvez impelidas por um desejo inconsciente e contraditório de voltar à normalidade superficial de suas vidas centradas, desencontraram-se. Tanto melhor: teriam tempo de digerir e pensar naquele desalojamento antes da próxima conversa. Teriam ímpetos de revolta, momentos epifânicos, ilusões e alucinações.

Ela chegou em casa exausta. Não tanto pelo dia cansativo, mas pela desordem que lhe causara a conversa. Resolveu deitar-se para dormir um pouco. Pensou debilmente em tudo e concluiu que aquilo era um grande divisor de águas na sua vida: nada lhe tiraria a vontade absurda de engolir o mundo. Colocou um DVD para aproveitar o tempo curto – sempre tinha a impressão de que a vida era muito pequena para fazer tudo que desse na telha – fazendo duas coisas ao mesmo tempo. E as duas coisas eram só uma e ia tomando forma uma verdade incontestável. O momento ante-sono reserva uma genialidade que só deixa resquícios: pensou coisas brilhantes de que jamais se lembrará. Sonhou pesadelos: de repente, resolvia impetuosamente comprar artigos de decoração. Saía do condomínio e entrava em uma loja em frente que jamais percebera, mas já conhecia previamente. Lugar escuro sem tique-taques de relógios. Prateleiras de madeira maciça em tom ocre, singular. Nunca se ativera a esses detalhes e, tampouco, a artigos de decoração. Procurava alguma coisa que não imaginava. Os artigos estavam cheios de poeira e, apesar de conhecê-los, estranhava suas formas. Andava por entre as prateleiras e observava discretamente a atendente que parecia arrumar alguma coisa. Sentiu que alguém passava o braço por sua cintura. Prendia-a, sem que ela pudesse se livrar. Não havia ninguém ali, só a sensação de que a prendiam com um braço só pela cintura. Precisava urgentemente sair dali e deixar o fantasma que a agarrava tão seguramente, não conseguia, lutava com o imaginário ser e aquilo era de uma realidade brutal. Desespero: não havia tique-taques de relógios. Ela estava presa no tempo dos fantasmas e não pertencia a ele. Saiu da loja em correria sem que pudesse se livrar do braço invisível. Quando acabará esta angústia? Tenho que me livrar! Tenho que me livrar! Escutou uma musiquinha desagradável: acordou com o celular na mão e em meio a vestígios de suores e lutas. Atendeu. Uma voz chamava-a à realidade. Abre a porta! Não conseguia falar. Abre a porta! Levantou-se cambaleante a abriu a porta. Ainda bem que chegava um indivíduo potencialmente capaz de tirar-me da vertigem. Era ele, era ele, era ele. Eu sou a redenção! Eu sou a saída! Eu sou capaz de te tirar da vertigem! Parece que ele dizia. E tirou: durante duas horas, ela voltaria à normalidade fingida a que estava acostumada. Era sempre bom sair da solitária. Mas esperava ansiosamente por estar sozinha novamente e poder escrever tudo aquilo. Inscrever, diria. Tornar aquilo uma memória.

Quando se viu sozinha novamente, não lhe ocorreu tomar da mão a sua vertigem e conviver com ela. Resolveu tornar-se uma pessoa acompanhada. Abriu um e-book, um livro esgotado na editora. Leu durante alguns minutos, quase horas. Viu toda a sua experiência do dia descrita de forma magistral em apenas duas frases. Parou. Era mesmo para acontecer. Estava tudo determinado previamente. Eles me perseguem. Escreveu uma longa carta para a amiga-do-almoço-desestabilizante. Contou seus sonhos e citou as passagens mais assustadoras do livro esgotado nas editoras. De alguma forma, sabia que a amiga também estava inquieta onde quer que fosse. Ela, que sempre criticou a aura mágica da escrita, tornava-se uma mística. Qual é a técnica? Não interessa. Cadê a entranha? Tornava-se visceral. Tudo tomava forma agora e ela via, não sem pavor, o seu destino petrificado nas páginas povoadas de letras e sons desorganizados. Aquela lucidez doía. Por quanto tempo agüentaria lidar com aquilo tudo? Resolveu ligar para a amiga-do-almoço-desestabilizante, mas desistiu ao olhar o relógio. Linearmente, não era hora de ligar para alguém: 04:57. A madrugada do ressurgimento. Feridas pipocavam no absurdo dos sentidos cada vez mais explícitos: desnudavam-se aleatoriamente.

Ela precisava organizar aquele microcaos particular e intransferível. Lembrava de pessoas declamando, de cavalos correndo em 20 de setembros, de conversas ao pé do ouvido e de mijadas. Fazia toda a trajetória da sua história com a amiga-do-almoço-desestabilizante. Eram anos se passando. E elas só se viam esporadicamente. Pretendia modificar todo aquele estado de coisas. Mandara vários e-mails para ela durante a madrugada. Contatos mais do que imediatos de alto grau de afinidades e compartilhamentos. Já não sabia mais o que era real ou ficcional. Verdadeiramente, já não sabia mais a necessidade dessa distinção, tampouco sua validade. Era inútil. Tudo era real, tão real que doía e parecia absurdo. Ela só saberia anos depois. E isso implicava uma outra objetivação. De outra ordem. Que pena.

Amanhecia e ela escrevia verborragicamente aquela carta adiada e inacabável. Não era hora de pensar em trivialidades. E ela não pensava. Não pretendia dormir, nem sob o efeito dos comprimidos. Precisava aproveitar aquela verdade nebulosa. Precisava deglutir toda a mudança a que estava condenada. Precisava tomar providências acerca da metafísica de toda aquela experiência. Às 06:48, pássaros cantando, ela desistiu categoricamente do plano cotidiano, embora não fosse – e não pudesse – se desvincular dele. Inversão de papéis. Jamais pensei que tomaria como regra e verdade indubitável a ficção esporádica e escondida; jamais pensei que não seria a rotina o real. Jamais pensei em tal estado modificado de coisas. Ela desistiu instantaneamente da convenção e dormiu profundamente sem sonhar e sabendo exatamente quem era o fantasma. Não voltaria ao mundo.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Esta ausência em mim

Fosse apenas a impressão de que todo aquele alvoroço era uma ilusão passageira, eu haveria ficado e tomado mais uma dose. As luzes dos holofotes projetadas sobre nós me deixavam tonta e aquela brincadeira ia se tornando a melhor parte de mim. Eu tinha de ir embora. Era um imperativo a me espreitar. Eu precisava deglutir sozinha - e inteira - toda aquela inquestionável noite sem fantasmas. Não era apenas um ponto de vista; aquela ilusão era uma verdade indubitável e sem limites. Era minha.
Ao abrir a porta, perguntei-me se era mesmo a minha verdade que eu queria encontrar naquela noite. Os fantasmas não viriam assombrar-me. Havia uma gama de destinos a decidir. O que seria feito das cartas amareladas há tanto tempo na gaveta? O que faria com as roupas amontoadas no armário sem que ninguém pudesse usá-las? Quem herdaria os livros espalhados pela sala? Quem abriria as cortinas diariamente para que tantas flores tomassem sol?

Eu deveria fazer planos para os próximos dias. Estava paralisada frente ao jorrar de mágoas e desconfortos, ao que me assaltava uma proibição tácita e sem sentidos à qual eu acatava plenamente. Era a fuga que me assustava. Era o sem-motivos que me atraía. Eu não perderia um único momento daquela fluidez em que ele me jogava inadvertidamente. Ele não tinha direitos; tampouco eu, culpas. Eu pressentia ser aquela noite a hora das escolhas, em que eu - entre o sim e o não - só poderia dizer sim.

Eu não precisaria de motivos, tampouco existiriam. Havia apenas uma via a seguir, via de mão única. De certa maneira, era uma grande oportunidade de abandonar os fantasmas e tomar o rumo de dois ou três mortais pouco admiráveis. A única vez em que eu não seria levada pela vontade dos poderosos. Sonhos não poderiam se insurgir, apenas uma realidade que doía de tão clara. Eu jamais fugiria da minha verdade.

Parada no meio da sala, sem saber por onde, por que ponto perdido começar a viver, eu observava, sem medo de me demorar, o abajur ao lado do sofá. Por tantos anos ele estivera ali e, naquele momento, era tão claro que seu lugar não era aquele, mas à esquerda da mesa de leituras. Os destinos jamais deixariam de conter aquele abajur não fosse a impressão de que todo aquele alvoroço era uma ilusão passageira. A verdade só começaria a partir daquele momento.

Já principiara a amanhecer quando percebi que continuava a sobreviver em um mundo de relógios e mentiras. Não queria as lembranças, mas aquela vaga impressão de que elas retornavam no meu corpo. Amanhecia. As lágrimas estabeleciam um novo contorno para meu rosto, sob a impressão de que ele chegaria a tempo de me tirar daquela tontura.

Eu continuava a olhar o abajur sem que pudesse trocá-lo de posição. Eu não queria mais a fúria de paixões rápidas ensejando permanência. Eu não poderia. Sob a égide da mudança, eu intentava livrar-me das amarras do passado. De repente, tempo e espaço já não eram categorias prontas a se manter em um momento muito próximo. Eu estava quase na beira, sem que pudesse, no entanto, me mexer.

Só mesmo aquela música poderia arrancar-me da regra. Somente aquela voz poderia fazer-me precipitar a fuga premente e cessar o desconforto da minha voz. Se eu resolvesse pela permanência, certamente ocuparia parte do meu destino a procurá-lo pelo mundo, mas só encontraria a mesma ilusão. No fluir de línguas daquela canção, eu só encontraria o esvair-se permanente da liquidez em que se fizera a sua voz. Encantada.

Por vezes, antes daquele momento, eu fizera da sua voz um hino e projetava-a em uma personalidade forte e coerente, talvez o recanto em que eu passaria as horas vazias da minha vida normal. Na caverna da sua voz. Somente ali eu poderia fugir de dias triviais. Eu inventava o seu olhar para mim. Havia muito tempo eu fugira das companhias desejáveis. Naquela época, eu já intuía o limiar em que viveria até que a morte viesse cessar minhas inquietações.

Era a primeira vertigem a me assaltar. Não haveria ilusão maior do que a separação tão clara entre a vida e a morte. Em outros tempos, eu não questionaria a existência de limites e fronteiras. Mas já era hora de alçar meu voo interminável. Era ainda tempo de confrontar-me com o espelho. Com a mentira do espelho. Era hora de despedir-me dos imaginários. Era hora de sair da ficção.

Os primeiros transeuntes já passavam pela calçada de meu prédio. Jamais imaginariam a mudança prestes a acontecer. jamais seriam vítimas dela. Eles não intuíam a simetria das calçadas. A minha verdade parecer-lhes-ia a grande mentira. Não importava. Eu jamais desejaria a compreensão. Seria este o meu legado: a incompreensão.

Não havia mais necessidade de estar o abajur ligado. No entanto, não me parecia possível apagar a única luz artificial a dar sentido ao devaneio prévio. Todo acontecimento deixa rastros irrevogáveis e a luz do abajur era um rastro imprescindível: último vestígio de lucidez.

A sua voz sobrevivia. Era o único elemento que ainda me prendia a uma estabilidade fictícia. A tranquilidade que eu jamais desejara. Eu permaneceria horas a seguir o fio de sua voz. Mas a escolha já estava feita antes de mim: não haveria mais horas. Perder a lembrança da sua voz era meu único lamento e, ao mesmo tempo, o tênue fio que me prendia à ficção do espelho.

Havia muito tempo, as lágrimas formaram em meu rosto sulcos profundos ao que, convencionalmente, chamam olheiras. Era estranha a capacidade das palavras de mascarar o real. Eu estava cansada da fuga que a linguagem impunha a qualquer fenômeno. Nunca pude dizer a minha dor. Talvez nisso a sua voz me realizasse plenamente, mas somente no que não dizia. Não havia formas, tampouco fórmulas. Passei um tempo presa por apenas um fio à ilusão cotidiana.

Eu lamentava o fato de que jamais lembraria do nosso encontro. Não era propriamente uma crise, mas uma luz intermitente a me cegar. Não há diferenças entre o céu e as estrelas, a não ser o que lhes é imposto, impregnado de humanidade. A vertigem era maior a cada esquecimento. O que mais me prendia à realidade era a sua grande ficção. A simetria das calçadas era estranhamente incompreensível: excedia toda classificação.

Havia algum tempo, eu parara com os remédios. Estranhamente, depois disso, eu me curara. Os pesadelos cessaram e, especialmente naquela noite, os fantasmas desapareceram. Era um bom sinal, talvez. Um sinal de que começava a me desprender das convenções. Os relógios já haviam parado. Não havia mais chão que me prendesse, nem lugar que me contivesse. Aquele apartamento era apenas o último invólucro. A última testemunha.

Sempre que estava prestes a encontrar o ponto de partida, sua voz vinha resgatar-me da viagem que eu tanto quisera. Obstáculo e porta do desconhecido. Era como se quisesse me salvar, como se algo fosse se perder se eu desvendasse o mistério de sua voz. Tão clara, tão segura. Talvez sua voz fosse um indesejável guia insistentemente dois passos à frente. A estender-me a mão.

A contradição ainda me assustava. Eu precisava de mais alguns instantes até estar pronta. Só existe contradição na convenção. Eu estava ainda impregnada de humanidades. Os transeuntes já olhavam, ao passar, para a luz incabível que saía pela janela, incompatível com um sol tão alto. Os pássaros já não cantavam. Fora-se o último resquício de suores noturnos.

As palavras estavam prestes a se dissolver. Não existiriam mais preces capazes de acalmar. Não restaria sequer um sentido preso aos vocábulos mofados. No último momento, só restaria a sua voz cansada e sem formas a me espreitar. Chegava a hora de indagar-me: como seria esta manhã não fosse aquela noite em que só havia a impressão de que todo aquele alvoroço era apenas uma ilusão passageira?

Haveria a minha era. Era a hora. Ilimitada, sem dúvidas, era aquela verdade uma ilusão. Sem fantasmas, toda aquela noite inquestionável, eu inteira, sozinha, deglutir precisava. A me espreitar, havia um imperativo. Ia embora a melhor parte de mim naquela brincadeira. Tonta deixavam-me, sobre nós, os holofotes de luzes projetadas. Mais uma dose teria tomado se houvesse ficado a te espreitar. Uma ilusão passageira era apenas aquele alvoroço. A impressão de que tudo fosse.

Foi então que eu me ausentei de mim.

Janaina Brum

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Manda-me notícias da sua última produção,
super-produção,
não,
um produto da melhor
indústria cinematográfica,
mesmo que dizer isso
seja uma permanente,
distante,
patente
contradição
guardada na minha estante
que instantaneamente se cobre
de valores
alheios.
Vem,
conta-me teus ideais,
teus projetos,
mananciais
de pura,
pura e pouco
cristalina criatividade.
Eu ando tendo lampejos,
sofrendo de agonias
e déficit de atenção.
Vou largar castelos
e gravar um filme de
mistério,
vou escrever poemas,
pilhas de poemas trash,
assistir a dramas e comédias
espanholas.
Eu tenho projetos...
preciso tanto saber de ti
que traço sozinha os teus
planos
e temo -
com tremores -
os teus desafetos.
Vamos rodar a última cena juntos,
primeira cena do Cinema Novo,
da Nouvelle Vague.
Vamos pegar um trem,
teremos um cenário.
É agora,
corta,
termina aqui o filme.
Vamos viver, meu bem,
sem Glauber, Pedro, François,
Claude ou Carlos
:

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Ele abriu os braços
novamente
e, desta vez,
eu pude perceber,
embora receosa,
o gesto:
é a minha casa
sendo construída,
pensei.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Pessoalíssima e nada pessoana

Gente, talvez eu me arrependa, mas vou publicar algo bem pessoal agora...

VIII



Não que existam mesmo coincidências, assim, nessa dimensão mágica. Mas eu gosto delas. Eu gosto de montar sua arquitetura diametralmente calculada.


Vem de antes de Ovelhas. Vem de antes do Caio. Vem de antes de mim. Era uma semente feminista. Era um trabalho que esboçava um começo de simpatia feminista pelas escritoras brasileiras. Mas escritoras não eram necessariamente feministas. Era uma confusão. Havia mulheres escrevendo por todos os lados. E eram poemas e contos e crônicas, e eram amores, amantes e tecidos. E uma. Sereia. Não se assemelhava a nada. Era única, de difícil acesso. Uma fotocópia. Um pedacinho de obra, um pedacinho de obra inacabada. Era o prenúncio de três anos de teses fundamentais sem conclusão alguma.


Três anos. Diluiu-se o feminismo, ficou uma posição indefinida, sempre desconfortável, que vai continuar assim. Foi-se a tese, defendeu-se como se fosse a vida, quase morreu-se de inanição. Ficou só ela – a escritora. Mas esqueceu-se cheia de pó nas prateleiras. Veio Caio. Pura ignorância, descobriu-se tardiamente uma amizade profunda entre Caio e Ana Cristina. Uma amiga me veio com o livro. Toma. Lê as cartas dele. Ele fala da Ana C. Veio um amigo e disse: lê Campos de Carvalho. Li. Veio outra amiga e disse: lê Mário Prata. Guardei na gaveta. Veio a depressão, outro amigo disse: vê Terça Insana. Vi. Mil vezes. Decidi fazer outra tese. Começaram as pesquisas, concomitantemente com a leitura das cartas. Ana Cristina que era amiga de Caio que era amigo de Grace que trabalhou com Mário Prata que era primo de Campos de Carvalho. E agora tem uma miscelânea na minha cabeça.


Não para por aí. Papai adorava Saramago. Conheceu-o – tudo documentado – através do Appel, que, para mim, não tinha nome, só sobrenome. Pois bem, papai foi viajar no céu sem asas no mesmo dia em que Saramago foi (embora nenhum dos dois acreditasse em céus). Segui eu lendo as cartas do Caio, cheias de borboletas amarelas, como meus poemas, cheias de tropeços na minha vida, na sua vida, não apareceu Saramago, mas apareceu Appel. Appel no luto. Eu entre destroços e recordações. Eu entre leituras e esquecimentos. Eu entre risadas frenéticas e choro convulsivo. Eu sozinha com saudades. Eu lendo e lendo tanta lembrança que era só minha (por herança). Eu lendo e escrevendo. Eu e as coincidências mais banais. Borboletas, perdas, sacadas, begônias, Saramago e meu pai tomando um drink no pub do céu. Preciso achar o Appel, se não o último, um dos últimos desejos.


Eu preferi a literatura. Fugi, criei mundos e não mundos sem dor. Doía também. Mas era uma dor só minha, não era mundana, tinha laivos de filosofias e auto-ajuda. Vamos dar risadas esporádicas e ficar sós quinze minutos ao dia. Medo – já disse – não tenho mais. O pai botou no bolso e remexe agora lá no pub do céu, junto com as coincidências, que eu coleciono e ele também.


Pai, faz o seguinte, fala com o Saramago aí, fala com o Caio, com a Ana C., que eu procuro o Appel, ok? Eu sei que ele precisa saber da reforma do teatro, eu sei que ele merece, ele participou do tombamento, foi peça fundamental, talvez a única. Eu sei. Eu vou tentar, fazer contatos. Conta para o Caio das borboletas amarelas. E conta para a Ana C. que eu reproduzo versos e versos dela e só percebo que não são meus tempos depois.


“Esvoaça, esvoaça”
Há um tempo atrás, resolvi escrever uns textos enquanto lia outros (não meus): uma coisa meio solta do tipo "o-que-der-na-telha". Pois bem, tenho várias páginas acumuladas. Hoje deu vontade de publicá-las aqui, já que ando sem criatividade para a poesia e com preguiça para as narrativas, cujos projetos são sempre longos e complexos e pedantes e impossíveis. vamos fazer esta experiência de mostrar meus "fluxos de (in)consciência sem pretensões literárias. Me contem o que acharam, ok? Beijos, Jana

II



Ainda na introdução. Essa coisa de acusação não ficou nos anos 1990. É perpétua. São acusados os escritores: aqueles que publicam e aqueles que continuam no anonimato como eu. Somos acusados. Acusados por denunciar um estado íntimo que deve permanecer segredo pelo bem da moral e da ética decadentes, somos acusados por não sermos compreendidos facilmente, dada a objetividade do mundo e a confusão tão clara em que estamos metidos, somos acusados por sermos inadequados, patinhos feios inquietos e relutantes, raios que os partam que incomodam por dizerem o que não pode ser ouvido. Somos acusados. Ainda não se pode falar em punições no novo milênio, mas há uma pena de morte na espreita. “Tu escreves?” é a pergunta dos Novíssimos inquisidores, e desde a descoberta nos olham desconfiadamente, querendo adivinhar os segredos e as vidas promíscuas que supostamente vivemos. Querem me surpreender na minha anormalidade, mas isso eu reservo para poucos, só uns poucos escolhidos. Para os outros – os inquisidores –, nem uma migalha. Podem ler o blog, sim, mas se me verem no trabalho não verão a mesma pessoa. Bem-feito.


Meus textos são todos deserdados, bastardos, censurados de antemão. Mas eu os publico, eu os levo ao choque com os olhos acostumados a uma normalidade fictícia. Querem me ver ali? Autobiografia só esta. Eu sou realmente muito mais o que escrevo do que o que eu vivo. Mas eles, os inquisidores, não saberão disso até que eu prove, até que eu resolva dar-lhes o choque final.


A quem quer que vá ler o que escrevo, digo que sei que estão a procurar impressões sobre o livro de Caio. Não acharão. Ovelhas Negras é mero pretexto para eu pensar sobre mim e sobre o que escrevo. Tenho também as minhas ovelhas negras, meu rebanho é feito só delas. Não faço aqui plágio, não recebo grandes influências, só ganho um pretexto para escrever. Ovelhas Negras, ovelhas negras, mesmo que eu não seja católica, mesmo que eu não separe o mundo em rebanhos, mesmo que eu não tire os pecados do mundo e não tenha piedade de ninguém (mentira, às vezes eu tenho, embora me censure). Mesmo que não seja esse o meu parâmetro, resta-me um pouco de catequese ainda, resta-me um ar católico, mesmo que seja pura negação. É que se eu nego, tem um fundo. Vou falar em ovelhas negras porque Caio preferiu ovelhas a ervas daninhas e quem sou eu para tirar-lhe a autoridade? É só uma crença negada, um resquício de criação. Eu confesso que vou ainda a missas de sétimo dia.


Parece-me que devo falar em guardados, em textos nunca mostrados ou mostráveis. Pois bem, tenho me esforçado em publicar – marginalmente no blog, bem dito – textos mofados, cheio de dicotomias e chavões, textos que fazem parte do meu caminho, embora eu sempre tivesse querido começar de forma genial. Assim, publicando aquelas coisas que me dão arrepios de tão anti-estéticas, anti-literárias (ou talvez ante), eu me sinto purgada, perdoada, humilde (bem católica). Falando sério, é bom mostrar aos outros também os caminhos que trilhamos. Estou gostando do contraste entre a Janaina de sete anos atrás e a de agora. Vai ser um barato mesmo quando a diferença entre as Janainas for de trinta ou quarenta anos. Vamos brincar de ser o que se era.


Volta Lispector no Caio. Não estou tão longe. Estou tão perto. Estou chegando lá. Vou me depurar, vou me transformar, vou buscar maturidade, vou ser imatura e campeã. Vou salvar umas almas e perder tantas outras. Vamos lá, no caminhão que leva o rebanho para o meio do deserto. Vamos lá, sem prefácios e sem epígrafes:
Há um tempo atrás, resolvi escrever uns textos enquanto lia outros (não meus): uma coisa meio solta do tipo "o-que-der-na-telha". Pois bem, tenho várias páginas acumuladas. Hoje deu vontade de publicá-las aqui, já que ando sem criatividade para a poesia e com preguiça para as narrativas, cujos projetos são sempre longos e complexos e pedantes e impossíveis. vamos fazer esta experiência de mostrar meus "fluxos de (in)consciência sem pretensões literárias. Me contem o que acharam, ok? Beijos, Jana

Quando me deparei com Ana Cristina Cesar, pensei que perderia um pedantismo insistente como um vírus. Ainda não, não era hora. Melhorei, certamente. Deixei também de lado os maniqueísmos, as rimas e as métricas. Mas o resquício de clarices permaneceu. Até porque sempre me agradou ser clariceana. E ainda me agrada até certo ponto. Mas ando experimentando uma coisa mais jovem e é assim que chego às ovelhas. Encontrei, no livro de cartas, um caio que não era romano nem romântico: tinha a contradição toda nova dos anos setenta (que começaram em 68!) e isso me agrada tanto! Sempre agradou. E essa gente ralou diante de tanta repressão e se despiu do ranço acadêmico de que quero ainda me livrar. Essa gente escreveu palavrões que foram sempre cortados pela censura. Ficou ali um buraco, que preencho com muita facilidade. Essa gente ousou, essa gente se fodeu e eu aqui no bem-bom do século XXI. Quero aprender com eles. Vamos lá, sair do primeiro parágrafo da introdução.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Gente, dica para quem gosta da obra do Caio Fernando Abreu:


http://salveacasadocaiofernandoabreu.blogspot.com/


Quem puder (e quiser), dê uma força para a campanha!


Beijocas da Jana

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Pensei - irrefletida:
não gosto de imagens,
elas dizem tudo,
nada além.
Depois
uma conversa,
um trem, um viaduto,
um carinho
depois do depois
que sempre
"já é depois"
ele disse
talvez irrefletido como
eu:
"eu estou a fim de um vinho, 
para alimentar a sinceridade 
de dizer que imagens mentem
a todo instante... 
a lua é cheia de caos"
parei,
bem mística,
no meio do nada,
e passou,
de leve,
mas passou,
na minha frente,
uma borboleta amarela.

Para meu amigo Augusto Radde (com lindas palavras do mesmo!)

sábado, 7 de agosto de 2010

"Não sinto loucura no desejo de morder estrelas, mas ainda existe a terra. E porque a primeira verdade está na terra e no corpo. Se o brilho das estrelas dói em mim, se é possível essa comunicação distante, é que alguma coisa quase semelhante a uma estrela tremula dentro de mim. Eis-me de volta ao corpo. Voltar ao meu corpo. Quando me surpreendo no fundo do espelho assusto-me. Mal posso acreditar que tenho limites, que estou recortada e definida. Sinto-me espalhada no ar, pensando dentro das criaturas, vivendo nas coisas além de mim mesma."
(Clarice Lispector - Perto do Coração Selvagem)

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Não há sol aqui...
mesmo se houvesse:
as palavras alheias caem
obscuras
sobre nós.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Vou te propor um pacto:
vamos causar impactos?
Jorram intentos:
puro vapor do nada.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Ele me chamou e viu o
que
eu
não
vi
Eu achava
digo
acreditava
pi-a-men-te
que
aperto-no-peito
fosse somente
uma metáfora
e
sei
não
sei
se
isso
essa
pseudo-metá-
fora
do aper-
to no pei-
to
chama-se
sau
dade
ou
fan
tasma
CONFIA!

não
era:
e eu não

segunda-feira, 26 de julho de 2010


Não gosto de medos: desconfio deles. De repente, me dá uma vontade louca de voar: atenção, senhores passageiros. Dessa vez, sem aeroplanos.
"Momento de falta de acabamento", diz a música do momento. E eu aqui, entre a falta e o entendimento.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Sinto muito frio,
eu disse.
E ela me apertou
contra o peito.
Era hora de delicadezas.
Eu não posso com este
céu
em
mim.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Assim não vale, Blogger!

Gente, escrevi um texto novo no perfil e o blogger não deixou eu publicar, pois era muito grande. Perdeu um pouco do sentido lá. Então pensei que seria bom publicar o texto na íntegra como postagem.

Em primeiro lugar, eu sou. Mas eu sou de um modo bem específico, bem particular. Eu sou entre livros, entre leituras, entre gentes. Eu sou sempre no limiar.




Eu não sou deste tempo, nasci na data errada, houve um engano ao me colocarem no mundo: foi tarde demais. Eu deveria ter vivido nos anos 60, 70, 80 e não agora. Apesar disso, eu gosto de ser agora e de ser assim um ser meio "retrô".


Se eu sou no tempo errado, eu sou no lugar certo. Apesar de ter anseios de grandes metrópoles e de praias desertas, eu sou no entremeio de tudo isso, sou em Pelotas, essa mistura bonita e úmida de grandes problemas e de grandes amenidades.


Eu sou com as pessoas certas. Já levei tabefes, sim, de amigos, de amores, de todos os lados. E ainda levo. Mas vale a pena estar aqui, vale a pena ter os amigos, os colegas e os familiares que eu tenho. Por eles, posso levar mil tabefes e pontapés e continuarei feliz.


Eu gosto de ser na Terra. É bom errar... e poder consertar depois... ou não também, sei lá.


Já é manjado alguém dizer que é livre. Não sou. Tenho que trancar a porta de casa quando entro, cuidar as esquinas quando ando pelas ruas à noite, desligar estrategicamente o celular nos domingos, sumir da Internet de tempos em tempos, essas coisas. Mas, de vez em quando, tenho asas. E ando, ando, voo, voo por aí. e ninguém me vê. Eu posso ser a famosa mosquinha. Isso se chama CRIATIVIDADE. E eu sou feliz por isso.


Estimulo minha criatividade todos os dias. Nem que seja saindo para caminhar sem rumo pela cidade e imaginar histórias urbanas. Tento estimular a criatividade alheia também. Gostaria muito que esse fosse o tal de legado que dizem termos de deixar para isso que vulgarmente chamam de humanidade. Por isso, tornei-me professora. Talvez eu consiga, talvez não, talvez eu nem mesma saiba o que é criatividade, mas o importante é que ando buscando. Ando sendo em busca disso.


Eu quero tudo que ainda não existiu, tudo que ainda não veio. EU QUERO O ANTES. EU SOU QUERENDO O ANTES. E isso basta.

Obra-prima de minha irmã Daniela

Gente, vocês sabem que não costumo postar nada de muito pessoal aqui no ELA. Mas hoje, particularmente, vou postar fotos, fotos do meu sobrinho lindo, o João Inácio. Não há obra mais bela que essa, gente! Danizinha, que luz teu João Inácio veio trazer para nossas vidas neste momento tão delicado!
AMO VOCÊS!!!!

Gente, sou titia coruja, sim! Vejam que belezura de bebê!!!!




domingo, 18 de julho de 2010

Eu não quis te fazer mal:
juro que não.
Eu só quis chamar todas
as atenções
e mais ainda.
Se o poeta toma o papel do ator,
rouba a cena
e causa fúria,
ele não vê,
ninguém vê
a sua profunda ligação de artista.
Se eu sou inquieta e tu também
não precisamos brigar.
Para quê?
Vamos fazer uma canção.
Eu não quis subir no palco:
se subi e roubei - 
eu roubei - a cena 
foi somente por querer
te dizer
bem alto
(só assim o som é mais do que o sentido)
nos teus ouvidos
que tudo isso aqui é transitório.
Eu quis te dizer a minha mentira,
eu não quis te ferir,
não.
Eu quis te mostrar os meus avessos,
tudo isso que me faz agir.
Eu não quis te mentir
com a seriedade dos artistas.
Tudo é transitório.
Eu te disse a verdade irrefutável 
da mentira.
Eu te disse e me joguei
do palco, do prédio,
nos trilhos, nas calhas.
Eu me joguei e voei,
voei tão alto e tão longe
que te olho agora
distante.
Esta é a minha verdade:
NÃO PERMANECE,
NADA PERMANECE.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Eram luzes,
danças frenéticas,
não propriamente uma
paixão.
Era um estar-entre-águas
cachoeiras e enchentes.
Era um gosto adocicado
de energético
e o ácido
dos ácidos e dos alcóois.
Eram olhos se olhando
e mãos se procurando
na noite,
vazia, sim,
plena de fumaças
e olhares esquecidos
e amnésias temporárias.
Era uma noite qualquer e
um romance sem futuro,
não propriamente uma paixão.
Era uma noite
de Pérsios e Santiagos,
e eu no meio,
segurando a mão dele.
Era a mão dele
e bastava,
não propriamente uma paixão.
Eram livros empilhados
e a voz dele no telefone,
era um interurbano
na noite de julho.
Era.
Não propriamente uma paixão:
melhor.

quinta-feira, 24 de junho de 2010


Eu acho que morrer é assim como virar uma árvore. Imóvel. Com raízes fortes. Morrer não dói, eu acho, morrer é passar de animal a vegetal. O único incômodo deve ser não poder se mover, mas isso só para quem está acostumado a andar, a mexer os braços, as pernas. Morrer é como deixar de ter braços e pernas. De início a gente não sabe como lidar com tanta desumanidade. Depois se toma distância assim da vida humana e se olha como se fosse um terceiro. Se é que uma árvore olha. De repente é só ouvir que faz uma árvore. Ou de repente nem é isso. Será que se tem medo de chuva quando se é uma árvore? Existe um deus das árvores? No início, acho que eu me assustaria da noite sendo uma árvore. Mas ser árvore não dói, imagino. A gente nem sente tanta frescura sendo árvore de raiz bem fincada no chão. Nem se tem vontade de correr. Deve ser bom ter o vento batendo dos braços, ou seja, galhos. Como se tornam os braços galhos?
Ando com saudades de uma árvore.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Ando tendo palpitações - 
problemas de espaço-tempo - 
redimensionei a vida -
coração aos pulos
no alto-falante - 
falou?
Quem falou?
Eu disse:
- coração aos pulos
no alto-falante.
Tento tocar em frente
mas me puxam para trás:
-calma, menina, quem disse que 
ia parar o tempo?
Sim, eu disse,
sim, sou pura pretensão.
O tempo se acavalando
sobre mim.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Invento passatempos
e fujo do tempo:
guria pequena e caprichosa,
não estou à mercê do juízo,
Fujo dos passatempos
e invento o tempo:
mulher de futuro e de negócios.
Chamaram-me ontem
para uma entrevista:
querem me dar um prêmio
e eu resisto.
Ninguém sabe,
mas ando me sentindo culpada:
tantas coisas importantes nas entranhas
e eu a dar atenção a coisas de relevo.
Ando envolta em tempos,
não quero que o tempo passe:
passa não, tempo, passa não,
eu quero ficar aqui,
pequena e caprichosa.
Não quero nem futuros nem negócios,
pequena e caprichosa,
vou parar o tempo, reinventá-lo,
colocá-lo no lixo,
pequena e caprichosa,
vou inventar os paratempos.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

RECHEIO

Oi, pessoas! Eu gostaria de fazer um convite! Minha amiga, colega, irmã de coração Graziela está com um novo projeto: um blog que se chama recheio. Lá, ela escreve crônicas, "cronicontos", poemas e os mais variados textos. O que esses textos têm em comum é a profundidade. Usando as palavras da própria Grazi, os textos são "paulatinamente impactantes". Além disso, essa menina é extremamente cuidadosa, seus escritos são muito bem pensados e muito bem articulados: "densos, tensos, intensos".
Bom, vou deixar que a própria Grazi fale - em um poema escrito no recheio - mas não sem antes expressar a minha satisfação em ver que ela está, finalmente, dividindo sua produção conosco: vale a pena ler, é fantástico! Boa leitura! Beijos da Jana.

Ela

Presa à maldade inabitável do Éden
Redentora da fogueira
Bastarda dos céus
Menina apocalíptica errante
Comensal da fruta
Geradora do bendito e maldito fruto
Finalista de uma falsa estação
Heroína da forjada espada
Marcada no tempo
Insegura na noite
Herdeira da morte
Livre do dia
Amazona de asas sem antecedentes
Gélida e verticalmente decaída
Em praça pública
Nas labaredas de seu corpo

grazi Ela

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Esperando Mais do Mundo

Eu ando esperando mais do mundo
e de mim,
eu quero andar por entre as cortinas
e sorrir vendo o que ninguém vê.
Eu quero deixar de ser Imperatriz
do óbvio
e me espantar somente com
o diferente.
Nâo quero mais a tenacidade
das coincidências
que denunciam o que há de comum
em mim,
eu quero a surpresa
grandiloquente das enchentes,
quero conhecer
o que nâo me pertence
e o que nao se assemelha:
eu quero,
ainda que impossível,
a plenitude dos dois, dos três,
dos múltiplos mundos
em que vivemos - todos - 
sem saída.
Ando esperando mais do mundo,
ando querendo tudo de mim, 
mas as coincidências
retornam e caem como
penas - de morte - 
sobre nós:
mundo
demais
em mim.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Eu andava a passear
pelas ruas da urbanidade:
comprei uma folha de plátano,
resgatei (apaguei?) uma memória,
comprei de um grupo de teatro,
comprei uma revista de teatro,
ganhei teatro de revista,
em plena XV de novembro,
sonho antigo abandonado
em prol da objetividade.
Vou fazer uma tese 
-  último resquício de objetividade -
(sondam-me novamente para o Nobel):
chovem pingos de cultura
"no fim do fundo da América do Sul".
Sob pesadas nuvens
(de cultura, vejam bem),
eu fujo do tempo:
captura impossível.

terça-feira, 25 de maio de 2010

(BorboLili)

São tantos ditos e reditos...
e um dia eu vou
gostar de ouvir Roberto Carlos
por lembrar de ti
e eu hei de criar novas ficções para
te ter aqui
eu serei contigo
sempre
as dicotomias
não existem
Descartes e Saussure
também não
só existem
borboletas amarelas

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Preciso tomar ar, fingir que sou normal & tenho um profundo interesse pelas pessoas e acontecimentos culturais e todas essas estonteantes possibilidades urbanas.
(Caio Fernando Abreu, nas Cartas)
[Não aguento mais coincidências, me acho piegas, inocente, sem perceber o mundo...]
Tenho achado viver tão bonito.
Talvez porque ande, como nunca, perto da ideia da morte.
(Caio Fernando Abreu, Cartas)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Há uma noite aqui: dizem as línguas - as boas, as más e as indiferentes - que começa a findar.
Não quero ver a morte
e enfrentar os Fantasmas da Infância
"maiúsculas respeitosas"
nào quero ser vitória
e enfrentar as Derrotas Gigantes
"maiúsculas respeitosas"
E eu crio coincidências
com o único intuito
de achar o mundo mais
confortável
minúsculas desrespeitosas
Não gosto de Premonições
(já sabem a utilidade das maiúsculas)
elas me jogam contra a parede
e brota o sangue
(as minúsculas não têm sentido)
Eu - desrespeitosa -
jogo adjuntos adnominais
e predicativos do sujeito
na tua cara:
está tudo se tornando ficção:
vou abandonar a vida
(desrespeito sintático-semântico!)

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Quisera eu ter escrito duas ou três obras imortais. Decidi hoje ser imortal: até segunda ordem.

domingo, 16 de maio de 2010

O amanhã não vai chegar: fui eu que o criei

Esta minha ficção existe. Sim, é palpável, é verdade, fui eu mesma que a criei. Eu e o meu gênio de minhoca! Não estava preparada para o mundo diante de mim. E chamei-o, a minhoca (já prestaram atenção à genialidade das minhocas?). Não esperava que viesse. Chamei pelo prazer de ousar e sair da linha. Ele veio, o atrevido! Mas, claro, com a sua face que é a minha outra face e eu, displiscente, nem a conhecia. Eu de uma ambiguidade desenfreada. Enquanto leio, também escrevo, construo compulsivamente uma memória. E tudo isso entre os mortos, esperando para ser morta e livre no meu túmulo de mármore, idealizado na infância. Preciso viajar e preciso de dinheiro para viajar. Não que eu goste de riquezas, mas preciso dele para ir do mundo ao além-mundo. Este, muito bonito, com pontes e azul interminável. Aquele, o petulante! Cara-de-pau a me afrontar com a minha outra face. Eu poderia bem abdicar do dinheiro e pedir carona nas estradas, mas estaria sendo abusada, a gastar o dinheiro dos outros. Poderia ao menos pagar o pedágio, mas aí não seria abdicar de tudo completamente. Poderia ir caminhando, mas aí eu seria mártir e para isso não tenho vocação. Eu e meu gênio de minhoca! Meu túmulo seria somente um sinal de que eu estaria livre e tranquila debaixo da terra. Temos de alimentar os fantasmas: eles, sim, famintos, comem e dormem conosco. Somos como que um sopro, apenas um - bem intangível -, de vida para eles. Quando eu morrer, não quero ser fantasma, quero gostar da terra por cima, com preguiça de me morrer, de me mover, tão agitada que fico encerrada em claustrofobias. Tenho que me trabalhar até lá. Tenho que ser soprinho dos fantasmas. Respiro bastante e cuidadosamente agora, porque quero lembrar-me disso lá, debaixo do túmulo de mármore. Eu não quero terminar de ler a Chuva Imóvel, porque ela está sempre no final e todo final é uma despedida, que dói, oração adjetiva. Está doendo e eu não quero que a dor termine. Este mundo arrogante que insiste em afrontar-me com a minha outra face. Ele - Campos de Carvalho - ousou escrever a obra da minha vida, com o mundo o afrontando. Como pode este mundo afrontar Campos de Carvalho e tantos outros para afrontar-me depois a mim com a minha outra face que é esta de conhecer e esperar a morte antes que ela venha? Esta ficção é minha e é verdade: fui eu que a criei.