sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

VI (Júbilo, memória, noviciado da paixão - Hilda Hilst)

Há algum tempo atrás, eu e uma amiga, Franciele Guarienti, costumávamos nos reunir para escrever poesia. A partir de um poema alheio, escrevíamos o nosso. O resultado era bom.Possa ser que tenhamos sido inocentes - ou pretensiosas - ao querer escrever a partir de nossos grandes ídolos, mas o fato é que, de qualquer maneira, pudemos desmitificar algumas coisas. Uma vez li uma frase - e não me lembro se era de Ítalo Moriconi, Silviano Santiago ou Armando Freitas Filho, ou, ainda, outro alguém citado por algum deles - que dizia, em outras palavras, que o bom poeta, segue em primeiro lugar os passos de seus "mestres", para depois criar um estilo "próprio". Pois bem, acho que foi isso que nos motivou a escrever o que nós chamávamos de "Desafios", na ilusão de que em algum dia teríamos um estilo próprio. De minha parte, deixei de acreditar que as palavras são propriedades de alguém. Talvez o poeta seja aquele que tem a possibilidade de mostrar-nos que as palavras não são nossas e que os sentidos se dão à nossa revelia. Agora, se o "estilo próprio" é a maneira como eu me deparo com os sentidos e tento transpassá-los para os poemas, talvez eu tenha um. De qualquer modo, não acredito que a maioria pense assim, mas vou vivendo e escrevendo. Se me acusarem de plágio, entenderei, pois andei deglutindo alguns e algumas poetas. Voltando ao que dá tema ao post, nós - eu e Franciele - sugeríamos um poema de que gostávamos e o chamávamos de "base" e escrevíamos os nossos. Abaixo segue um poema de Hilda Hilst que foi a "base" de nosso primeiro desafio. O poema que escrevi - cuja postagem ficará para depois - fez aniversário nesta semana: quatro anos. Bom, não vou me estender, fiquem com Hilda Hilst e tenham um bom final de semana!

Sorrio quando penso
em que lugar da sala
guardarás o meu verso.
Distanciado
dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
mais próxima à janela?
TU sorris quando lês
ou te cansas de ver
tamanha perdição
amorável centelha
no meu rosto maduro?
E te pareço bela
ou apenas te pareço
mais poeta talvez
e menos séria?
O que pensa o homem
do poeta?
Que não há verdade
na minha embriaguez
e que me preferes
amiga mais pacífica 
e menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardas na tua sala
vestígio passional
da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
que nunca me soubeste?


Hilda Hilst

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Faze de mim o que precisas
para seguir em frente.
Vagarosamente.
Não corras nas escadas
e joga todo teu ímpeto
nas estradas.

Faze de mim o teu refúgio
em dias quentes.
Urgentemente.
Não olhes para o lado
e ama todo o teu íntimo
nos sonhos alados.

Faze de mim o que desejas,
cálida ou fremente.
Disfarçadamente.
Não digas sequer uma palavra,
mas dize com os olhos
e em silêncio.

Segue o teu caminho,
mas manda notícias,
para que quando
eu ouça a tua voz
eu possa,
entre sonhos e destrezas,
entre espaços e sutilezas,
ver borboletas em pedras.

Faze de mim o que pressentes.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009


Não quero a paz
de dias calmos
e de um chão firme
a me segurar,
quero a paz
de um voo interminável
e sem sequer
vestígios de um chão
a me aprisionar.


Não era apenas
uma premonição,
mas aquela agonia 
lenta 
dos fatos indiscutíveis
e indispensáveis.

Eu pego um livro,
mas a queda livre
não deixa
acompanhar a leitura
linear 
sem sobressaltos.


A chuva é composta
de pequenas partículas
de inquietação.
São partículas livres
em um céu sem fim.


Não é o meu motivo:
não é a minha dor:
não é o meu limite:
em um voo sobrenatural,
eu me ausentei de mim.