segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Asas Perdidas - Chico Saratt

Olá, amigos queridos! Quero dividir uma coisinha com vocês! No final de semana, visitei a 1ª Feira Binacional do Livro em Jaguarão. Lá, assisti a alguns shows - de muita qualidade -, dentre os quais o belíssimo show de Chico Saratt, acompanhado por Sérgio Napp em uma "viagem" pela música gaúcha, com um repertório riquíssimo que ia do nastivismo à MPB.
A letra que apresento aqui é de uma canção de Chico Saratt que tem sido minha trilha sonora desde muitos anos. Eu ouvi essa canção em momentos importantes da minha vida. Ela me toca profundamente, tanto que vocês podem ver, em alguns poemas meus já publicados aqui no ELA, referências à letra dessa música. 
Engraçada era (e talvez ainda seja) a minha reação frente à canção de Saratt. Eu a ouvia (e ouço) quase que diariamente e tinha a sensação de que só eu a conhecia, de que ela era minha! No sábado, Asas Perdidas, para mim, se tornou pública - mesmo que já fosse. Provavelmente seja por isso que tenha me assaltado uma vontade incontrolável de dividi-la com vocês, amigos.
Deliciem-se! 

Veja, meu bem,
quantos anos se passaram
e eu não mudei,
ainda tenho aquela velha cicatriz
no rosto
e no mês de agosto
continuo a fugir dos cães.

Veja, meu bem,
quantos anos se passaram
e você não mudou,
ainda tenha aquela velha mania de ser
a principal da cena
numa tomada de cinema
que ninguém filmou.

Mas não faz mal,
não tem mais nada não.
Só uma dor invade o coração.
Já estamos mais velhos
e sobrevivemos
nesse mundo de ilusões.

Eu escrevo teu nome em néon
pelas ruas escuras do meu coração
e te levo no tom da canção
sobre as asas perdidas
de uma saudade
que voou
e nunca mais voltou.

terça-feira, 24 de novembro de 2009


Talvez não seja apenas 
um encontro casual.
Talvez eu olhe nos teus olhos 
e me veja, me descubra.


Tantas madrugadas
de afinidades
e risadas
e seriedades.


Coincidências não existem, 
são peripécias do acaso
e da sorte.


A sorte de ter te encontrado
na cadeira ao lado.
Amigos são para tudo,
até mesmo para o
silêncio,
para os dias chuvosos e
pensamentos nebulosos.


Amigos são borboletas amarelas,
são sinais de boas novas.
Talvez não sejam só
objetivos comuns,
mas os caminhos que se cruzam.
Porque só caminhos diferentes se
cruzam quando a essência é a
mesma.

Mesma mesa de bar,
mesma música,
mesma vontade de chorar.
Mesmas minhas borboletas
amarelas a te espreitar.

Não tens saída: 
PERMANECERÁS.



Para minha amiga mais Margarida, LUCIENE SANTOS

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Sobre livros e livreiros


Se é uma vontade tácita
que me leva às portas
da livraria
não sei


não sei se vou
comprar livros
ou pelo encanto das
prateleiras
sobrecarregadas 
de volumes e do 
encanto que me trazes


na ponta dos pés
quero o livro
mais inatingível
mais inalcançável
quero que venhas
me ajudar


este é um encontro
solitário
não há sombras
a me espreitar
não há relógios nas livrarias


vou esperar o vento
intentar um único momento
e, talvez,
entre livros e livreiros
me libertar

sábado, 21 de novembro de 2009


Nada explica.
Afetos que surgem
em pleno alvoroço
de bares e sons e bebidas
me afagando.


Amigos que surgem
e de repente
tomam o lugar vazio
dos sentidos ainda esparsos.


Eles chegam no momento certo
há motivos, 
mas não os sei:
pressinto.


A poesia nos afaga,
faz emergir um sentimento
de cumplicidade
bem à vontade.
Só os poetas
e os loucos se
entendem.

Posso contar segredos
e ouvir o eco da minha voz
respondendo aos meus medos.
Fiz amigos nesta semana,
sobram motivos e
coincidências.


Não seria por acaso.
Felicidade é fato.







 Para a minha amiga Bia Araujo, grande "poetisa"

quarta-feira, 18 de novembro de 2009


Quando penso o ato - 
passso a passo - 
há algo que foge
que escapa indelevelmente 
da inquietação do
meu olhar


Fala-se de língua
e cala-se
sua dimensão de
beleza
e dor


retorna incessantemente
sobre mim
uma palavra tácita
que não pode
ser pronunciada
sob a ameaça da
desvanecência


há um furo
incomensurável
queria dizer e não digo
há um impedimento
feroz
fora da fala
que me paralisa
e me fascina


penso em dois ou três
mortais que me fizeram - 
sem aviso - 
esbarrar na dor
e na sensação do
sem sentido


não há sentido
na sensação.
face do avesso do
outro
que não suporto.

Eu sou apenas
uma mulher 
debaixo de uma
árvore
e todas as
convenções 
que isso implica.


Isso.
Eu gosto da palavra
isso.
Traz-me o
obscuro e
o absurdo
dos sentidos.


Os sentidos.
Aqueles que se
espalham e
transbordam 
do recipiente
insípido 
da linguagem.
Sem verbos.


Não são os verbos
que movem minha
ação
e marcam a minha
linguagem,
mas os adjetivos:
eles retornam
inadvertidamente.


Tenho a firme impressão de
que eles - sim, ainda os 
adjetivos - ficam
nas bordas de 
uma sintaxe estanque,
sempre às vésperas de 
dizer o grito.
Sempre sem poder
dizê-lo,
mesmo que ele esteja
ali.


Presença infalível
e sem lembranças:
sobra sempre
esta fúria
sem sentido.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009


A tua dor me paralisa.
Impede todo intento.


De repente, tempo
não é mais uma
categoria
a espreitar todo momento.


O meu repertório não é
mais o mesmo.
Acabou-se o visgo
do formalismo.


Eu compreendo a tua
angústia e insisto
em repetir duas ou
três frases de impacto:
vêm de fora.


Não consola.
Nem mesmo a
tela de sensações
sem bordas é
capaz de não
paralisar tudo
no teu entorno.


Paisagem fixa e
fictícia
ensejando permanência


Não dói a tua dor em mim.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

E os tempos hoje são outros
só hoje
nuvens que espreitam a estação
passam sorratreiras
ao meu lado
e nem sequer percebem
que não estão em seu lugar


o sol de ontem
ainda contempla minhas
retinas
cansadas de tanta luz
e as nuvens continuam
sendo incompatíveis


tanto caminho pela
frente
que não posso deixar de
fazer duas ou três observações
aos transeuntes
sempre distraídos:


forjaste bem os alicerces
sólidos?
negaste a contradição
diária?
juraste fidelidade
eterna?


Anda dois ou três passos
a frente
e olha para o teu rosto
és somente o
passageiro
não controlarás o
teu destino
sobe, nuvem

domingo, 1 de novembro de 2009

Era aquela visita
programada
que me angustiava.

Não gosto das esperas
e não gosto de chegar
para quem me espera.

Quero sobressaltos
e alvoroços,
tardes frias de agosto
e, de setembro,
as borboletas amarelas.

Elas sempre retornam.
Há muito, criei
minhas próprias
superstições:
borboletas amarelas
são sinal de boas
novas.

Protejo-me do frio
sorrateiro que vem do sul
e projeto-me em
uma terra longínqua
e tão familiar.

A saudade mora,
é intrínseca:
não sei
não chorar.

Vou passar mais
um inverno
e - talvez - a primavera
sem te ver.
Não vou esperar
borboletas amarelas.