terça-feira, 24 de novembro de 2009


Talvez não seja apenas 
um encontro casual.
Talvez eu olhe nos teus olhos 
e me veja, me descubra.


Tantas madrugadas
de afinidades
e risadas
e seriedades.


Coincidências não existem, 
são peripécias do acaso
e da sorte.


A sorte de ter te encontrado
na cadeira ao lado.
Amigos são para tudo,
até mesmo para o
silêncio,
para os dias chuvosos e
pensamentos nebulosos.


Amigos são borboletas amarelas,
são sinais de boas novas.
Talvez não sejam só
objetivos comuns,
mas os caminhos que se cruzam.
Porque só caminhos diferentes se
cruzam quando a essência é a
mesma.

Mesma mesa de bar,
mesma música,
mesma vontade de chorar.
Mesmas minhas borboletas
amarelas a te espreitar.

Não tens saída: 
PERMANECERÁS.



Para minha amiga mais Margarida, LUCIENE SANTOS

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Sobre livros e livreiros


Se é uma vontade tácita
que me leva às portas
da livraria
não sei


não sei se vou
comprar livros
ou pelo encanto das
prateleiras
sobrecarregadas 
de volumes e do 
encanto que me trazes


na ponta dos pés
quero o livro
mais inatingível
mais inalcançável
quero que venhas
me ajudar


este é um encontro
solitário
não há sombras
a me espreitar
não há relógios nas livrarias


vou esperar o vento
intentar um único momento
e, talvez,
entre livros e livreiros
me libertar

sábado, 21 de novembro de 2009


Nada explica.
Afetos que surgem
em pleno alvoroço
de bares e sons e bebidas
me afagando.


Amigos que surgem
e de repente
tomam o lugar vazio
dos sentidos ainda esparsos.


Eles chegam no momento certo
há motivos, 
mas não os sei:
pressinto.


A poesia nos afaga,
faz emergir um sentimento
de cumplicidade
bem à vontade.
Só os poetas
e os loucos se
entendem.

Posso contar segredos
e ouvir o eco da minha voz
respondendo aos meus medos.
Fiz amigos nesta semana,
sobram motivos e
coincidências.


Não seria por acaso.
Felicidade é fato.







 Para a minha amiga Bia Araujo, grande "poetisa"

quarta-feira, 18 de novembro de 2009


Quando penso o ato - 
passso a passo - 
há algo que foge
que escapa indelevelmente 
da inquietação do
meu olhar


Fala-se de língua
e cala-se
sua dimensão de
beleza
e dor


retorna incessantemente
sobre mim
uma palavra tácita
que não pode
ser pronunciada
sob a ameaça da
desvanecência


há um furo
incomensurável
queria dizer e não digo
há um impedimento
feroz
fora da fala
que me paralisa
e me fascina


penso em dois ou três
mortais que me fizeram - 
sem aviso - 
esbarrar na dor
e na sensação do
sem sentido


não há sentido
na sensação.
face do avesso do
outro
que não suporto.

Eu sou apenas
uma mulher 
debaixo de uma
árvore
e todas as
convenções 
que isso implica.


Isso.
Eu gosto da palavra
isso.
Traz-me o
obscuro e
o absurdo
dos sentidos.


Os sentidos.
Aqueles que se
espalham e
transbordam 
do recipiente
insípido 
da linguagem.
Sem verbos.


Não são os verbos
que movem minha
ação
e marcam a minha
linguagem,
mas os adjetivos:
eles retornam
inadvertidamente.


Tenho a firme impressão de
que eles - sim, ainda os 
adjetivos - ficam
nas bordas de 
uma sintaxe estanque,
sempre às vésperas de 
dizer o grito.
Sempre sem poder
dizê-lo,
mesmo que ele esteja
ali.


Presença infalível
e sem lembranças:
sobra sempre
esta fúria
sem sentido.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009


A tua dor me paralisa.
Impede todo intento.


De repente, tempo
não é mais uma
categoria
a espreitar todo momento.


O meu repertório não é
mais o mesmo.
Acabou-se o visgo
do formalismo.


Eu compreendo a tua
angústia e insisto
em repetir duas ou
três frases de impacto:
vêm de fora.


Não consola.
Nem mesmo a
tela de sensações
sem bordas é
capaz de não
paralisar tudo
no teu entorno.


Paisagem fixa e
fictícia
ensejando permanência


Não dói a tua dor em mim.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

E os tempos hoje são outros
só hoje
nuvens que espreitam a estação
passam sorratreiras
ao meu lado
e nem sequer percebem
que não estão em seu lugar


o sol de ontem
ainda contempla minhas
retinas
cansadas de tanta luz
e as nuvens continuam
sendo incompatíveis


tanto caminho pela
frente
que não posso deixar de
fazer duas ou três observações
aos transeuntes
sempre distraídos:


forjaste bem os alicerces
sólidos?
negaste a contradição
diária?
juraste fidelidade
eterna?


Anda dois ou três passos
a frente
e olha para o teu rosto
és somente o
passageiro
não controlarás o
teu destino
sobe, nuvem

domingo, 1 de novembro de 2009

Era aquela visita
programada
que me angustiava.

Não gosto das esperas
e não gosto de chegar
para quem me espera.

Quero sobressaltos
e alvoroços,
tardes frias de agosto
e, de setembro,
as borboletas amarelas.

Elas sempre retornam.
Há muito, criei
minhas próprias
superstições:
borboletas amarelas
são sinal de boas
novas.

Protejo-me do frio
sorrateiro que vem do sul
e projeto-me em
uma terra longínqua
e tão familiar.

A saudade mora,
é intrínseca:
não sei
não chorar.

Vou passar mais
um inverno
e - talvez - a primavera
sem te ver.
Não vou esperar
borboletas amarelas.