terça-feira, 27 de outubro de 2009

Mais poeminhas pretensamente pós-modernos

não há nada mais urbano
que a noitinha
na cidade:
polaróides infinitas
de um infinito
sem lembranças

amanhã retorna

*************


tenho que acabar
com minhas manias concretistas
e construir um muro de
concreto entre
os meus dois mundos


pluralidade assusta


************


eu ando pelas ruas de
uma cidade infinita:
no infinito da cidade
me perco e me 
encontro


contradição transborda


************


caminhei contra o vento
e contra mim mesma:
por que será que insisto
em querer dobrar na mesma
esquina
se o caminho se desfez?


amor transcende

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Esta vertigem não me deixa
insiste em pegar o mesmo barco
e sobre escombros andar


Eu não quero mais essa vertigem
e insisto em pegar o mesmo trem
e sobre destroços planar


Não posso mais acreditar na 
Verdade
de um mundo de caminhos
e respostas
prontas e tranquilas


Não podes mais me ver
há uma proibição tácita
que não te deixa
passar pelas ruas
onde eu ando


E a vertigem - 
que é minha e tua - 
não vai nos abandonar
nem no barco
nem no trem


Não é destino
é conversa inexistente
não creio mais no frio
potencial de uma terra
pampeana
não creio
não há


Tudo é incompatível
as nuvens com as borboletas
amarelas
o arco-íris com as noites
de tormenta
não há
nós não existimos mais
nem as vias fronteiriças


sopra vento

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Tantas torres
e tantas vias
tenho medo de cair
embora o vendaval
já tenha findado


protejo-me de toda
tempestade
embora me encante
por elas


sobressaltos
os sobressaltos me aceleram
e é aí que me
assalta uma vontade
de ser brisa do mar
de nada adianta ter
findado o vendaval
não levou de mim
o giro
a espreita
o acordo tácito


sopra vento
em
mim

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Remonto
revejo
revivo
projetos antigos
e a tempestade
parace querer
atestar
sua validade
sua promessa
sua mudança

intento mudar
radicalmente de vida
seria então
vontade de ser outra?
vontade de ser
o avesso?

Sim, o avesso
chama-se
avesso exatamente
o que devemos esconder
a todo custo
esconder

mas eu não
vou intentar
duas ou três
tempestades
não podemos evitar
as tempestades
mas podemos
aceitá-las

Eu risco o
céu em uma
fração de segundos
vou cair nas
dores do mundo
quero fazer
algo em que possa
dar tudo de mim:
câmera a filmar
todos os meus
versos

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Olhas para os lados
e não olhas o lado essencial
a te espreitar.
Sim,
talvez eu andasse a te rondar.

Não me vias e não me vês,
estou justamente atrás
do espelho,
justamente aquele que insististe
em quebrar.

Sim, aquele tango
que te faz lembrar
toca e nem desconfias
que eu estou a te rondar,
por entre as pedras,
por entre os prédios,
no menor pedido de silêncio,
já vi teus olhos,
não me enganas,
eu estou a te rondar
nos pesadelos,
nos sentidos,
nos tatos e nos gostos.

Já passei da hora,
estou indo me arrumar.
Lembras do dia frio em
que falavas de temores?
Em que brilhavas como
um raio?
Sim, talvez eu estivesse a
te esperar
na frente do espelho
em que te reconhecias todo
dia.


A chuva?
Parou.
A fortaleza?
Ardeu.
O mundo?
Partiu.

Talvez, eu estivesse a te rondar.
Ele andava por entre as ruas
por entre as pernas
por entre os povos
ele andava.

Ele sorria ao sentir o vento
por entre os braços
por entre as pernas
por entre os cabelos
ele sorria.

Ele parava ao ouvir as vozes
dissimuladas por entre os ruídos
insignificantes
das cidades.

Ele falava aos que somente
ouviam
ele não os constrangia com o
seu silêncio - estado natural
ele apostava no azar

Ele - impessoal -
abdicava de desinências
e designações
anônimo -
inominável -
ele andava por entre os cruzamentos
e só parava nas esquinas


Ele não pensava nos mortos
justamente porque eles
se sobrepunham a todo
pensamento
a todo intento

Ele sobrevivia a cada instante.
De repente,
não consigo pensar em nada
que seja muito meu.
Tanta precaução e
tantos sustos nas esquinas,
naquelas esquinas em que
costumamos esbarrar.

Estou vivendo com calma,
acostumando-me ao teu olhar
sem sustos,
sem avessos,
sem tropeços
em pleno ar.

Estou abandonando-me ao olhar.
Mas olha bem devagar
e me preenche
plenamente.

Olha-me nos olhos e dize
que não há tempestade
ininterrupta,
que não há começos sem retornos.
Olha-me.

Estou chegando
neste terreno tão seguro,
tão sutil
e tão sereno.
Estou chegando,
guarda as coisas a me esperar,
ouve uma música bem triste
e sorri:
eu estou chegando
na próxima estação,
irei de carona com o
vento.