segunda-feira, 30 de março de 2009


Tecer palavras, cortar assuntos e rirmos juntos
Uma grande catástrofe se aproxima
Estejamos juntos
Não é à toa que o céu se põe nuvem firme
E densa
Crença nas agitadas tempestades
De silêncios e mágoas e pernas contundidas

Grita o grito forte de um vento que vem do sul
Mostra as pernas frouxas
E os desejos estranhos e secretos

Crescer caladas, catar assuntos e estarmos juntos
Um grande sol vem ao nosso encontro
Sejamos puros
Não é à toa que o chão se põe noturno
E pó
Poeira das estrelas em agitação
De palavras e jogos e abraços confundidos

Cala a palavra morta de um ser sem norte
Esconde as mãos que tremem
E a poesia que nos revela

sexta-feira, 27 de março de 2009

Eu não quis ser dona da palavra

se te tomei tuas conquistas, teus ideais

foi por querer ser o teu itinerário, tua estrada

tomar teu tempo e ouvir o que vai atrás da tua voz

no outro dia, havia marcas impenetráveis

de uma violência vinda de antes

dos meus conflitos e contradições

Eu não quis ser dona da verdade

quis consolar-te nos meus braços

abraços confundidos, confusos

Eu não quis ser deusa

e erguer a noite no lugar do dia

mas fiz

a consolar-te

quero te viver

tornar-te vívido

vivido

te pego na esquina em dois minutos

estejas pronto, não vou esperar

não temos destino

não creio no destino

é a hora, não tens saída


sábado, 21 de março de 2009


Acabou o vinho
o que vou beber?
Me embebendo toda
nas tuas carícias
penso nos braços dos outros
que estão por vir
Entedio todos os ouvintes
que bocejam
queria cantar
e é assim que a voz acelera
insegurança do tom monótono
da academia
Eu quero é poesia
me liberta
me liberta

A onda vem e me arrebata
agora pode me levar
já cumpri horários
já fui moça inteligente
superei expectativas

Quero me perder neste azul tão grande
sou menininha, quero colo
não ter preocupações, regularidades
definições

Sou dengosa, quero carinho de estranhos
luais no Laranjal e na minha lagoa
Rock'n'roll dos bravos
tua guitarra ne acaricia

O vento passa nos cabelos
e leva turbilhão
quero tanto a onda
e ela não vem

quarta-feira, 18 de março de 2009


Este néon todo no céu
do teu olhar...
Todo texto intertextualidade
não me liberto das malhas do discurso
e me aproveito da teoria para escrever
o meu poema
palavra não-dizer
do meu impulso

Nas ruas escuras de uma cidade histórica
penso versos sem nome
e não sou dona do meu mundo

Nas imediações da matriz
reclamo direito autoral
e toda palavra se parece com um acidente
da minha voz

Quero carnaval ensurdecedor
mas ele já passou pela avenida
não me esperou
desaforo do tempo
enquanto eu ensaiava uma palavra minha
despida de todo ranço
na academia frouxa
passou o trem e eu
eu me libertei

terça-feira, 17 de março de 2009


Mais uma vez trago aqui versos alheios, dessas jóias que encontramos por aí... O Taiyo escreve (e muito bem!) no blog Limite da Palavra. Vale a pena conferir! Vejamos o que esse menino diz de si:
sobre mim
sobremesa
sou mentiroso
da beleza
sou o fim
do idefinido
eu-mesmismo
nasci no Velho Continente
tenho 33 dentes
e ainda não tenho siso
Começou bem, não? Divirtam-se, amigos!
A buzina do táxi me deu um soco na barriga do ouvido

e a minha vida foi atropelada

pelo acelerado coração dela

ví o meu sangue manchado de poesia

pintando no asfalto uma rosa amarela


Siga aquele táxi

Não há tempo a perder

Não há vento no centro da cidade

então respiro com os olhos a poeira dos prédios e

o seu amor me sufoca

como se fosse um mergulho

do vigésimo andar

amarrado em fios do computador


Foi de parar o trânsito

e meditar em praça pública

o vento nos pêlos pubianos

invento a graça disso tudo

invento os carros, os motores e em transe: mudo


Foi você mesmo que disse que sabia dirigir

Eu te emprestei meu parto

te dei a chave do quarto

e fechei os olhos


não existem acidentes

só ácido nos dentes

de quem corre na falta de asfalto rente


Olha o volante!

Olha o Dante, o inferno, Machado,

A apoteose dos ossos do carro

retorcidos e retumbantes

numa marcha

até o fim do sono

até o engano das curvas

as formas sinalizadas na chuva


mal implantadas na estrada
Taiyo Omura

sexta-feira, 13 de março de 2009


Cinco poemas descabidos
entre a prosa da minha vida
e eu tomando dois litros
de guaraná Antártica
sem gás

escrevo desesperadamente
e nem um - nenhum - verso
me contenta

"Não tem mais nada, não"
A música - mesma música
que toca desde os quatorze anos
em néon

Não tenho regularidades
intento non sense e desisto
morreu a entrelinha
não sei o que fazer com o resto

Meu pai disse ontem
"Ela não é o máximo,
é o excesso"
Sou eu.

segunda-feira, 9 de março de 2009

O que você pensa dizer ao dizer INCLUSÃO SOCIAL?




Quando a Esther me propôs o tema da blogagem coletiva, eu fiquei um tanto perdida. o primeiro impacto fez pensar "pô, legal". Mas o tema logo começou a me instigar... "Inclusão social" é expressão que está na moda, na boca de todos os demagogos profissionais do país (e provavelmente de fora dele)... O que eu - meio poeta, meio lingüista - poderia dizer sobre esse tema? Questionamentos e questionamentos iam em um crescente desconforto. O que eu posso dizer sobre isso? Quem sou eu para falar disso? Para quem estarei falando? O que eu entendo DE inclusão social? O que eu entendo POR inclusão social? Há alguma coisa contifa na expressão em si? O que querem dizer quando enchem a boca para falar de inclusão? Mais: o quenão querem dizer? As perguntas não parariam por aqui, mas o parágrafo já pede um fim.

Confesso que num primeiro momento pensei estar a Esther "indo na onda" daquilo que está "na crista da onda". Mas o "mistério" da inclusão não se contentava em minha cabeça com essa resposta. Foi então que pensei na imagem que a Esther possivelmente fazia de mim e dos outros a quem convidou para a blogagem. Nós nos conhecemos apenas virtualmente, temos algumas coisas em comum, mas sequer sabemos a profissão uma da outra. Somos poetas e isso basta para que estabeleçamos contato. Pois é, somos poetas... O que uma poeta tem a dizer sobre inclusão social? Aí estava o cerne das respostas às minhas questões: o que a Esther me propunha não era somente um papo qualquer em um lugar qualquer sobre o tema, mas um colocar-se na posição de POETA - como ela me conhece - para falar sobre algo de que todos falam. Muito bem, estou aqui, não sei ainda exatamentepara quê, mas o fato é que escrevo para a blogagem.

Não é a Jana estudante quem fala. tampouco a professora, a amiga, a namorada, a filha ou a menina politizada: é a Jana que se quer poeta, embora saiba que todos os outros papéis que assumo estão implicados aí. Recentemente, descobri meu principal intuito como poeta: QUESTIONAR. Eu questiono tudo; há quem diga que sou crítica demais e desconfiada ao ponto de ser taxada de paranóica. Pois bem, eu gosto de ser assim e é dessa posição que vou falar de "inclusão social". É tempo ainda de desistir, leitor, posso ser um tanto quanto chata e talvez não vá dar respostas, mas instigar ainda mais suas inquietações. Bom, eu gosto mesmo é de "desconstruir" (desculpa, Derrida, não agüentei...). O que quero dizer com isso é que não vou propriamente falar sobre o tema, mas sobre o que falam sobre ele. Quando falamos "inclusão social", estamos mobilizando saberes cuja procedência não podemos precisar. Quem fala, vale dizer, originalmente em "inclusão"? Com essa pergunta, fica claro que não falarei sobre inclusão, mas farei o que talvez alguns de vocês chamarão de "metalinguagem". Mas, se fujo do tema, é propositalmente que o faço.

O negócio é complicado. Ainda estou enrolando, mas agora vai... A gente tem ouvido falar muito em inclusão social de negrosm de pobres, de idosos, de deficientes. Da mesma forma, ouvimos falar em inclusão no mercado de trabalho, na educação, inclusão digital, etc., etc. INCLUSÃO é a palavra-chave da virada do milênio. Para mim, a idéia de inclusão já pressupõe uma exclusão que é mais do que conseqüência de um sistema falho, mas característica necessária e inextrincável dele. A noção de sistema capitalista já traz em seu bojo a exclusão, como parte pertencente à maquinaria cujas falhas só a fazem ser mais eficiente. A exclusão é necessária ao capitalismo. Com isso, a dicotomia exclusão/inclusão social só pode provir de um mesmo discurso: o discurso do capital, do mercado, sejam quais forem suas especificidades.

Conscientemente ou não, creio que a expressão em pauta provém das próprias instâncias de poder, que oprimem e que excluem. Não se trata aqui de negar muito do que se tem feito em nome da INCLUSÃO SOCIAL por ongs, escolas e pessoas que pensam realmente em "ajudar", em "agir pelo coletivo", em "melhorar as condições do todo", mas de perguntar quem nosdá esse discurso e com que intenções. O mesmo poder que exclui e segrega os cidadãos fornece sentidos para o sintagma"inclusão social". em outras palavras, é o poder que pode "incluir", pois exclui sistematicamente. As instituições que nos falam e falam por nossa voz em inclusão são instâncias às quais estamos submetidos e cujo discurso incorporamos sem pensar, como se fosse nosso.

Não quero dizer que não pertenço e não estou submetida a esse sistema capitalista: sou filha dele, sua descendente direta. Mas não é por isso que não vou questionar; questiono o funcionamento social e as palavras desse funcionamento. De que boca sai a palavra "inclusão"? Daquela mesma que me criou e quer me engolir. Não é fazer drama, não. Pensar um pouco no que dizemos e no que dizem através de nossa vozé necessário para refletirmos sobre uma série de coisas, talvez sobre todas. Sou fruto do capitalismo e, por isso, me sinto apta a me revoltar contra ele. Inserida no sistema, tento olhar para ele como se estivesse fora. Mas, mesmo sem tal esforço, podemos ver que algo vai mal. Não quero ser incluída em nada - sujeito passivo. Fazemos por n[os, governantes! E isso a que vocês chamam "INCLUSÃO". como se fosse caridade, é apenas o efeito de muitas obrigações não cumpridas. A "inclusão" mascara uma série de coisas que vai mal, deixando o povo agradecido e orgulhoso dos patrões tão bonzinhos. Definitivamente, eu não quero ser incluída por esse sistema!

Acho que as pessoas devem se ajudar, não me entendam mal. todos devem ser iguais, mas não uns mais que os outros, como dizia no celeiro de Orwell. E digo mais, não é esse sitema que está aí e que estufa o peito para falar "inclusão social" que vai mudar o que ele mesmo criou em sua eficiência e auto-suficiência. Não há um pai ou um "grande irmão" que fará por nós e incluirá mulheres e juvens no mercado de trabalho, deficientes e indígenas no ensino, marginais no centro. Se houver, desconfiem, algo querem de nós e as conseqüências serão certamente onerosas. Não se deixem incluir como se estivessem recebendo uma dádiva. Não o é. Nós somos o sistema, mesmo que queiramos fugir dele. Nós é que devemos ser ativos, não podemos ficar esperando gestos paternalistas para sermos "incluídos". Aliás, onde seríamos incluídos? Por quem? Paraquem? Não saberíamos ao certo.

Não posso dar conta de tudo que digo quando digo "inclusão social". O fato é que dou voz a um discurso que me incomoda e que me escapa, vem antes de mim. Nomar "inclusão" é sublinhar o caráter inerente da exclusão ao sistema. quem inclui, exclui em um só movimento. Não quero mais. Não quero mais o sistema como está, o modo como as coisas são colocadas e são (mal)feitas com tanta naturalidade. Não sei o que digo quando digo "INCLUSÃO SOCIAL". Não quero mais dizer.

E vocês, leitores, o que pensam dizer quando dizem "INCLUSÃO SOCIAL"?

quarta-feira, 4 de março de 2009


Minha biografia
seria mais
bibliografia?
se escrevo no verso
da formalidade
é porque do outro lado
havia luz materialista
a nos cegar
a esconder a tempestade
"veja, meu bem"
não, eu não mudei
vivo na mudança
sempre temporária
temerária
não poderia mudar
Olha-me
eu estou aqui
de volta

Deixa-te mostrar
isso
mais um pouco
começes por dizer-te
objetivamente
como num relatório
deixa-me antever
o turbilhão
deixa
eu queria saber te ler
compreender
tua carta escondida de amor
deixa
eu queria estudar
a tua sintaxe
já sei descobrir
teu riso nervoso
que acoberta
as "asas perdidas"
deixa
eu quero te ver
desnudo
uma pilha de nervos
consolar-te
senhor dono da verdade
meu pai
meu céu
quero te tirar do chão
te mostrar as estrelas
quero-te criança
te dar colo
e semear
um futuro bom

que a tua menina cresceu
mas está aqui
pequena
pedindo colo
deixa
eu ter orgulho de ser
parte tua
deixa
e verás
como podes ser inteiro

Para meu pai

segunda-feira, 2 de março de 2009


Dois poemas "com o pensamento em Ana Cristina", como diria o Drummond
Por que demoraste tanto
a saudar teu pequeno público
diverso hostil?
Por que guardaste teus poemas
de nós
por tanto tempo?
Preciso de tempo para
me acostumar
com teus escritos secretos
guardados
discretos
seletos
preciso de tempo para te deglutir
inteira
**********************************************
Pouco a pouco
pé ante pé
tête à tête
preciso de ti
inteira
na palavra
que jogaste
no papel
prefiro a tua palavra
obscura
coisa
babel
torre
não há interpretação
que te supere
o sangue do discurso
escorre dentre tuas
folhas antigas
teus punhais
antigos e soltos
Hoje é dia de agradecer! Obrigada a todos os visitantes do "Entre a loucura e a arte" por estarem presentes nos últimos tempos! Estou imensamente feliz com todos os meus "amigos blogueiros" e espero ver cada vez mais gente neste mundo digital!
Quero agradecer especialmente pela discussão que se travou no post abaixo sobre Mikhail Bakhtin! Vocês me fizeram ver que o nosso Bakhtin de sempre está aí! Foi somente na sexta-feira, diante de uma banca que me causou muitos medos, que consegui perceber tudo o que foi discutido aqui na semana passada! "Caiu a ficha", sabe? Obrigada amigos, aos que me conhecem pessoalmente e aos que me conhecem só virtualmente! Um beijo grande no coração de vocês!
Jana