sábado, 31 de janeiro de 2009


Gula lago
engulo toda amarula do mundo
queijos e vinhos
maracujá e berinjela

Avareza e
destreza
não tenho
nunca vi
gasto tudo que tenho
e derrubo tudo o que vi

Preguiça de prego
não prego, mas tenho
deito na rede
não existe mais prosa
nem prazer que me tire
me atire no mundo

Inveja invejo
amores que vejo
invejo destreza
mas não avareza

Soberba
Só ergo
em casos extremos
não ouço conselhos
não deixo ouvir

Luxúria não digo
confesso que tenho
não falo o que é
murmúrio murmuro
e deixo onde está

Pecados pecadores
só pecam se crêem
num deus encerrado
em templos e medo
não peco...
não peço...
Deus, liberto


Este poema (?) foi feito por proposta de meme feita por Diom Afonso, do blog Entre Sagrado e Profano... Quem quiser continuar, sinta-se à vontade!

Depois da água, o fogo

Desce correnteza

Chove uma lágrima

Gira o mundo

E nós giramos junto


Depois da água, o vento

Passa nos cabelos

Venta nas ventanas

Gira guarda-chuvas

E nós chovemos juntas


Depois do fogo, a água, o vento

Jorra sangue lento

Grita grito entranha

Gira nosso corpo

E nós, delicadeza


Depois de nós o tempo

Vai apagar o tempo

Vai chover lembranças

Vai levar a lágrimas

Sobrevoar estrelas

E nós? Sobrevivemos

Juntas


Para minha amiga Inessa Carrasco

domingo, 18 de janeiro de 2009


É nesta margem,
Neste lugar tão guardado,
Que sou.
Sou e não sou.
Amo e não amo.
Digo, redigo e não digo.

É aqui, nesta margem,
Que existo,
Que choro,
Que canto,
Que encanto.

Este lugar me encanta.
Sigo a margem até que dobre,
Olho para trás e vejo
A ponte,
Esta ponte que me leva
Ao outro canto do mundo
E me faz cada vez mais
Ser daqui,
Ser aqui.

Toda vez que volto,
Sopro ventos
Que não mais são poemas,
Que deixam de ser
Distantes,
Que existem sem minha
Brusca interferência.

Toda vez que volto
Revolto e reconforto.
Sem pássaros,
Sem paisagens,
É na noite que me sinto plena.

Sem medos,
Sem mágoas,
É na noite que te vejo plana.

Margem...
Em que sou e não sou,
É de ti que vivo.

Quando me olhas,
Há algo em mim que ressurge
Inacessível
Inimaginável
Enigmático

Quando me olhas,
Há algo em ti que resplandece
Intocável
Intangível
Impuro

Quando meu olho está no teu
Há algo no universo que canta
Impensável
Indizível
Envolto

Não quero ser aquela
Que, em ventos de outubro,
Deixou de ser estrela
Para se tornar clausura

Não quero ser quimera
Que, no frio de junho,
Deixou de ser estranha
Para se tornar teu íntimo

Não quero ser com complemento
Não quero ir ao teu encontro
Não quero te dizer palavras dóceis
Tampouco te abraçar no infinito

Quero mais é,
No encontro dos teus desejos,
No silêncio dos sentidos,
No infinito do teu abraço,
Ser.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009


É exatamente neste horário -

Horário turvo

em que não me sei

e em que desejo meu desejo -

Que te vejo passar e me consolas.

Este entremeio entre a tardinha e a noite

Me põe pensativa e melancólica -

Te vejo passar e me consola -

Não sei se sou névoa ou chão,

Não sei se sou tua ou não,

Não sei se me queres - senão -

Te vejo passar, o meu consolo,

Te vejo olhos e boca

Te vejo mãos e gestos

Te vejo conforto e mais um pouco

Te vejo sem chão e mais nada

Te vejo passar... e te consolo...

SENÃO.


Janaina Brum

Não tentes me furtar um único sentido

Há um segredo em cada linha

E se há uma propriedade

Inerente ao poema

É exatamente esta:

Não contar.

O poema não diz,

Não revela,

Não consola,

Não nivela,

O poema inquieta.

Não sou eu quem está aqui:

És tu.


Janaina Brum