sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

VI (Júbilo, memória, noviciado da paixão - Hilda Hilst)

Há algum tempo atrás, eu e uma amiga, Franciele Guarienti, costumávamos nos reunir para escrever poesia. A partir de um poema alheio, escrevíamos o nosso. O resultado era bom.Possa ser que tenhamos sido inocentes - ou pretensiosas - ao querer escrever a partir de nossos grandes ídolos, mas o fato é que, de qualquer maneira, pudemos desmitificar algumas coisas. Uma vez li uma frase - e não me lembro se era de Ítalo Moriconi, Silviano Santiago ou Armando Freitas Filho, ou, ainda, outro alguém citado por algum deles - que dizia, em outras palavras, que o bom poeta, segue em primeiro lugar os passos de seus "mestres", para depois criar um estilo "próprio". Pois bem, acho que foi isso que nos motivou a escrever o que nós chamávamos de "Desafios", na ilusão de que em algum dia teríamos um estilo próprio. De minha parte, deixei de acreditar que as palavras são propriedades de alguém. Talvez o poeta seja aquele que tem a possibilidade de mostrar-nos que as palavras não são nossas e que os sentidos se dão à nossa revelia. Agora, se o "estilo próprio" é a maneira como eu me deparo com os sentidos e tento transpassá-los para os poemas, talvez eu tenha um. De qualquer modo, não acredito que a maioria pense assim, mas vou vivendo e escrevendo. Se me acusarem de plágio, entenderei, pois andei deglutindo alguns e algumas poetas. Voltando ao que dá tema ao post, nós - eu e Franciele - sugeríamos um poema de que gostávamos e o chamávamos de "base" e escrevíamos os nossos. Abaixo segue um poema de Hilda Hilst que foi a "base" de nosso primeiro desafio. O poema que escrevi - cuja postagem ficará para depois - fez aniversário nesta semana: quatro anos. Bom, não vou me estender, fiquem com Hilda Hilst e tenham um bom final de semana!

Sorrio quando penso
em que lugar da sala
guardarás o meu verso.
Distanciado
dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
mais próxima à janela?
TU sorris quando lês
ou te cansas de ver
tamanha perdição
amorável centelha
no meu rosto maduro?
E te pareço bela
ou apenas te pareço
mais poeta talvez
e menos séria?
O que pensa o homem
do poeta?
Que não há verdade
na minha embriaguez
e que me preferes
amiga mais pacífica 
e menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardas na tua sala
vestígio passional
da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
que nunca me soubeste?


Hilda Hilst

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Faze de mim o que precisas
para seguir em frente.
Vagarosamente.
Não corras nas escadas
e joga todo teu ímpeto
nas estradas.

Faze de mim o teu refúgio
em dias quentes.
Urgentemente.
Não olhes para o lado
e ama todo o teu íntimo
nos sonhos alados.

Faze de mim o que desejas,
cálida ou fremente.
Disfarçadamente.
Não digas sequer uma palavra,
mas dize com os olhos
e em silêncio.

Segue o teu caminho,
mas manda notícias,
para que quando
eu ouça a tua voz
eu possa,
entre sonhos e destrezas,
entre espaços e sutilezas,
ver borboletas em pedras.

Faze de mim o que pressentes.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009


Não quero a paz
de dias calmos
e de um chão firme
a me segurar,
quero a paz
de um voo interminável
e sem sequer
vestígios de um chão
a me aprisionar.


Não era apenas
uma premonição,
mas aquela agonia 
lenta 
dos fatos indiscutíveis
e indispensáveis.

Eu pego um livro,
mas a queda livre
não deixa
acompanhar a leitura
linear 
sem sobressaltos.


A chuva é composta
de pequenas partículas
de inquietação.
São partículas livres
em um céu sem fim.


Não é o meu motivo:
não é a minha dor:
não é o meu limite:
em um voo sobrenatural,
eu me ausentei de mim.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Asas Perdidas - Chico Saratt

Olá, amigos queridos! Quero dividir uma coisinha com vocês! No final de semana, visitei a 1ª Feira Binacional do Livro em Jaguarão. Lá, assisti a alguns shows - de muita qualidade -, dentre os quais o belíssimo show de Chico Saratt, acompanhado por Sérgio Napp em uma "viagem" pela música gaúcha, com um repertório riquíssimo que ia do nastivismo à MPB.
A letra que apresento aqui é de uma canção de Chico Saratt que tem sido minha trilha sonora desde muitos anos. Eu ouvi essa canção em momentos importantes da minha vida. Ela me toca profundamente, tanto que vocês podem ver, em alguns poemas meus já publicados aqui no ELA, referências à letra dessa música. 
Engraçada era (e talvez ainda seja) a minha reação frente à canção de Saratt. Eu a ouvia (e ouço) quase que diariamente e tinha a sensação de que só eu a conhecia, de que ela era minha! No sábado, Asas Perdidas, para mim, se tornou pública - mesmo que já fosse. Provavelmente seja por isso que tenha me assaltado uma vontade incontrolável de dividi-la com vocês, amigos.
Deliciem-se! 

Veja, meu bem,
quantos anos se passaram
e eu não mudei,
ainda tenho aquela velha cicatriz
no rosto
e no mês de agosto
continuo a fugir dos cães.

Veja, meu bem,
quantos anos se passaram
e você não mudou,
ainda tenha aquela velha mania de ser
a principal da cena
numa tomada de cinema
que ninguém filmou.

Mas não faz mal,
não tem mais nada não.
Só uma dor invade o coração.
Já estamos mais velhos
e sobrevivemos
nesse mundo de ilusões.

Eu escrevo teu nome em néon
pelas ruas escuras do meu coração
e te levo no tom da canção
sobre as asas perdidas
de uma saudade
que voou
e nunca mais voltou.

terça-feira, 24 de novembro de 2009


Talvez não seja apenas 
um encontro casual.
Talvez eu olhe nos teus olhos 
e me veja, me descubra.


Tantas madrugadas
de afinidades
e risadas
e seriedades.


Coincidências não existem, 
são peripécias do acaso
e da sorte.


A sorte de ter te encontrado
na cadeira ao lado.
Amigos são para tudo,
até mesmo para o
silêncio,
para os dias chuvosos e
pensamentos nebulosos.


Amigos são borboletas amarelas,
são sinais de boas novas.
Talvez não sejam só
objetivos comuns,
mas os caminhos que se cruzam.
Porque só caminhos diferentes se
cruzam quando a essência é a
mesma.

Mesma mesa de bar,
mesma música,
mesma vontade de chorar.
Mesmas minhas borboletas
amarelas a te espreitar.

Não tens saída: 
PERMANECERÁS.



Para minha amiga mais Margarida, LUCIENE SANTOS

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Sobre livros e livreiros


Se é uma vontade tácita
que me leva às portas
da livraria
não sei


não sei se vou
comprar livros
ou pelo encanto das
prateleiras
sobrecarregadas 
de volumes e do 
encanto que me trazes


na ponta dos pés
quero o livro
mais inatingível
mais inalcançável
quero que venhas
me ajudar


este é um encontro
solitário
não há sombras
a me espreitar
não há relógios nas livrarias


vou esperar o vento
intentar um único momento
e, talvez,
entre livros e livreiros
me libertar

sábado, 21 de novembro de 2009


Nada explica.
Afetos que surgem
em pleno alvoroço
de bares e sons e bebidas
me afagando.


Amigos que surgem
e de repente
tomam o lugar vazio
dos sentidos ainda esparsos.


Eles chegam no momento certo
há motivos, 
mas não os sei:
pressinto.


A poesia nos afaga,
faz emergir um sentimento
de cumplicidade
bem à vontade.
Só os poetas
e os loucos se
entendem.

Posso contar segredos
e ouvir o eco da minha voz
respondendo aos meus medos.
Fiz amigos nesta semana,
sobram motivos e
coincidências.


Não seria por acaso.
Felicidade é fato.







 Para a minha amiga Bia Araujo, grande "poetisa"

quarta-feira, 18 de novembro de 2009


Quando penso o ato - 
passso a passo - 
há algo que foge
que escapa indelevelmente 
da inquietação do
meu olhar


Fala-se de língua
e cala-se
sua dimensão de
beleza
e dor


retorna incessantemente
sobre mim
uma palavra tácita
que não pode
ser pronunciada
sob a ameaça da
desvanecência


há um furo
incomensurável
queria dizer e não digo
há um impedimento
feroz
fora da fala
que me paralisa
e me fascina


penso em dois ou três
mortais que me fizeram - 
sem aviso - 
esbarrar na dor
e na sensação do
sem sentido


não há sentido
na sensação.
face do avesso do
outro
que não suporto.

Eu sou apenas
uma mulher 
debaixo de uma
árvore
e todas as
convenções 
que isso implica.


Isso.
Eu gosto da palavra
isso.
Traz-me o
obscuro e
o absurdo
dos sentidos.


Os sentidos.
Aqueles que se
espalham e
transbordam 
do recipiente
insípido 
da linguagem.
Sem verbos.


Não são os verbos
que movem minha
ação
e marcam a minha
linguagem,
mas os adjetivos:
eles retornam
inadvertidamente.


Tenho a firme impressão de
que eles - sim, ainda os 
adjetivos - ficam
nas bordas de 
uma sintaxe estanque,
sempre às vésperas de 
dizer o grito.
Sempre sem poder
dizê-lo,
mesmo que ele esteja
ali.


Presença infalível
e sem lembranças:
sobra sempre
esta fúria
sem sentido.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009


A tua dor me paralisa.
Impede todo intento.


De repente, tempo
não é mais uma
categoria
a espreitar todo momento.


O meu repertório não é
mais o mesmo.
Acabou-se o visgo
do formalismo.


Eu compreendo a tua
angústia e insisto
em repetir duas ou
três frases de impacto:
vêm de fora.


Não consola.
Nem mesmo a
tela de sensações
sem bordas é
capaz de não
paralisar tudo
no teu entorno.


Paisagem fixa e
fictícia
ensejando permanência


Não dói a tua dor em mim.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

E os tempos hoje são outros
só hoje
nuvens que espreitam a estação
passam sorratreiras
ao meu lado
e nem sequer percebem
que não estão em seu lugar


o sol de ontem
ainda contempla minhas
retinas
cansadas de tanta luz
e as nuvens continuam
sendo incompatíveis


tanto caminho pela
frente
que não posso deixar de
fazer duas ou três observações
aos transeuntes
sempre distraídos:


forjaste bem os alicerces
sólidos?
negaste a contradição
diária?
juraste fidelidade
eterna?


Anda dois ou três passos
a frente
e olha para o teu rosto
és somente o
passageiro
não controlarás o
teu destino
sobe, nuvem

domingo, 1 de novembro de 2009

Era aquela visita
programada
que me angustiava.

Não gosto das esperas
e não gosto de chegar
para quem me espera.

Quero sobressaltos
e alvoroços,
tardes frias de agosto
e, de setembro,
as borboletas amarelas.

Elas sempre retornam.
Há muito, criei
minhas próprias
superstições:
borboletas amarelas
são sinal de boas
novas.

Protejo-me do frio
sorrateiro que vem do sul
e projeto-me em
uma terra longínqua
e tão familiar.

A saudade mora,
é intrínseca:
não sei
não chorar.

Vou passar mais
um inverno
e - talvez - a primavera
sem te ver.
Não vou esperar
borboletas amarelas.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Mais poeminhas pretensamente pós-modernos

não há nada mais urbano
que a noitinha
na cidade:
polaróides infinitas
de um infinito
sem lembranças

amanhã retorna

*************


tenho que acabar
com minhas manias concretistas
e construir um muro de
concreto entre
os meus dois mundos


pluralidade assusta


************


eu ando pelas ruas de
uma cidade infinita:
no infinito da cidade
me perco e me 
encontro


contradição transborda


************


caminhei contra o vento
e contra mim mesma:
por que será que insisto
em querer dobrar na mesma
esquina
se o caminho se desfez?


amor transcende

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Esta vertigem não me deixa
insiste em pegar o mesmo barco
e sobre escombros andar


Eu não quero mais essa vertigem
e insisto em pegar o mesmo trem
e sobre destroços planar


Não posso mais acreditar na 
Verdade
de um mundo de caminhos
e respostas
prontas e tranquilas


Não podes mais me ver
há uma proibição tácita
que não te deixa
passar pelas ruas
onde eu ando


E a vertigem - 
que é minha e tua - 
não vai nos abandonar
nem no barco
nem no trem


Não é destino
é conversa inexistente
não creio mais no frio
potencial de uma terra
pampeana
não creio
não há


Tudo é incompatível
as nuvens com as borboletas
amarelas
o arco-íris com as noites
de tormenta
não há
nós não existimos mais
nem as vias fronteiriças


sopra vento

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Tantas torres
e tantas vias
tenho medo de cair
embora o vendaval
já tenha findado


protejo-me de toda
tempestade
embora me encante
por elas


sobressaltos
os sobressaltos me aceleram
e é aí que me
assalta uma vontade
de ser brisa do mar
de nada adianta ter
findado o vendaval
não levou de mim
o giro
a espreita
o acordo tácito


sopra vento
em
mim

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Remonto
revejo
revivo
projetos antigos
e a tempestade
parace querer
atestar
sua validade
sua promessa
sua mudança

intento mudar
radicalmente de vida
seria então
vontade de ser outra?
vontade de ser
o avesso?

Sim, o avesso
chama-se
avesso exatamente
o que devemos esconder
a todo custo
esconder

mas eu não
vou intentar
duas ou três
tempestades
não podemos evitar
as tempestades
mas podemos
aceitá-las

Eu risco o
céu em uma
fração de segundos
vou cair nas
dores do mundo
quero fazer
algo em que possa
dar tudo de mim:
câmera a filmar
todos os meus
versos

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Olhas para os lados
e não olhas o lado essencial
a te espreitar.
Sim,
talvez eu andasse a te rondar.

Não me vias e não me vês,
estou justamente atrás
do espelho,
justamente aquele que insististe
em quebrar.

Sim, aquele tango
que te faz lembrar
toca e nem desconfias
que eu estou a te rondar,
por entre as pedras,
por entre os prédios,
no menor pedido de silêncio,
já vi teus olhos,
não me enganas,
eu estou a te rondar
nos pesadelos,
nos sentidos,
nos tatos e nos gostos.

Já passei da hora,
estou indo me arrumar.
Lembras do dia frio em
que falavas de temores?
Em que brilhavas como
um raio?
Sim, talvez eu estivesse a
te esperar
na frente do espelho
em que te reconhecias todo
dia.


A chuva?
Parou.
A fortaleza?
Ardeu.
O mundo?
Partiu.

Talvez, eu estivesse a te rondar.
Ele andava por entre as ruas
por entre as pernas
por entre os povos
ele andava.

Ele sorria ao sentir o vento
por entre os braços
por entre as pernas
por entre os cabelos
ele sorria.

Ele parava ao ouvir as vozes
dissimuladas por entre os ruídos
insignificantes
das cidades.

Ele falava aos que somente
ouviam
ele não os constrangia com o
seu silêncio - estado natural
ele apostava no azar

Ele - impessoal -
abdicava de desinências
e designações
anônimo -
inominável -
ele andava por entre os cruzamentos
e só parava nas esquinas


Ele não pensava nos mortos
justamente porque eles
se sobrepunham a todo
pensamento
a todo intento

Ele sobrevivia a cada instante.
De repente,
não consigo pensar em nada
que seja muito meu.
Tanta precaução e
tantos sustos nas esquinas,
naquelas esquinas em que
costumamos esbarrar.

Estou vivendo com calma,
acostumando-me ao teu olhar
sem sustos,
sem avessos,
sem tropeços
em pleno ar.

Estou abandonando-me ao olhar.
Mas olha bem devagar
e me preenche
plenamente.

Olha-me nos olhos e dize
que não há tempestade
ininterrupta,
que não há começos sem retornos.
Olha-me.

Estou chegando
neste terreno tão seguro,
tão sutil
e tão sereno.
Estou chegando,
guarda as coisas a me esperar,
ouve uma música bem triste
e sorri:
eu estou chegando
na próxima estação,
irei de carona com o
vento.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Escreverei um poema das alturas
porém não das quedas
um poema que voe
mas que voe com leveza
feito borboletas amarelas

Escreverei um poema dos errantes
porém não dos erros
um poema que ame
mas que ame com tristeza
feito descompassos e desacertos

Escreverei um poema das entranhas
porém não de desesperos
um poema que chore
mas que chore com desafogo
feito abraço e desencontro

de repente cai um pingo
e ele se parece com tormentas
descobri um oceano
em mim:
vou amanhã ao teu encontro
levando-te meu único
poema:
teu

domingo, 27 de setembro de 2009

E hoje eu vi
perambulando em mim
as ruas vazias dos nossos sonhos

E hoje eu vi
que tanto mar e tanto fogo
não poderiam ser nada
além de duas doses de
conhaque

Eu vi
tanto fogo
e quis tanto ver
as ruas dos nossos sonhos

Eu quis
tanto mar
e duas doses de conhaque
depois do jantar

E eu tive de inventar
outros contextos
para não lembrarmos
de nós
no mais trivial encontro

Queda
o muro caiu
e o teu ideal também
rasgaste a bandeira
em praça pública
bem pública da
pequena cidade onde
nasceste

E eu vi
vi o teu culto de profanação
e chorei
em praça pública
chorei
bem pública
chorei na praça da
pequena cidade onde
nasci

Ainda assim
os junhos não retornam
uns sobre os outros

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Os anjos caminham pelas
calçadas da capital e
as pessoas não os percebem
estão procurando-os nos sonhos
e não sonham que eles estão tão perto

meu anjinho
a falta que me fazes
ao caminhar pelas ruas
do interior

meu porto seguro

e alegre
queria-te perto
me livrando dos
vendavais
rindo dos meus medos
e acreditando nos meus
ideais

meu irmão
te fazes tão presente na
tua ausência
que sinto teu abraço
quando estou só

estou só
em qualquer lugar
não sei me virar sozinha
e a insegurança
se torna fortaleza
para os outros
que me olham
e nem imaginam
nem imaginam
que falta alguma coisa
que falta o teu abraço diário
ao chegar do trabalho

falta alguma coisa em mim
as asas do anjo que fui
lembras dos nossos planos?
lembras das nossas noites
amenas e de nossas gargalhadas
sem motivos?

queria-te mais perto
para aguentar este amor
que mora em mim:
saudades

Para meu irmão Marcelo Brum

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Estou cansada da metafísica
que insiste mesmo perante
a concretude das minhas
lágrimas

De repente um coisa
que eu não enxergo
tão real que dói
se torna imaginária
diagnósticos
antes tão precisos
negam
a verdade dos agostos

médicos não-humanos
tornam-se humanos
quando erram
erram e cometem
erros irrevogáveis
eles sempre foram
humanos

o paciente recebe sua alta
e ao chegar em casa
chora
não há mais volta do
caminho sem fim
da eternidade

estou rumando
para lá
para a dureza causticante
do inapreensível
não há retornos

vou contigo
não me repreendas
quero estar perto
mesmo que o diagnóstico
não mais exista

olho pela janela
e não pergunto que paisagens
verás da tua
mas penso inadvertidamente
sobre isso
queria-te perto
sem estradas
contagem regressiva:
mora esta saudade em mim

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Tanta poesia
e eu, sonolenta,
esqueço de dois ou
três versos fundamentais.

Esse cotidiano
que insiste em querer
apagar
nossos poemas.

Poesia resiste,
transborda em toda
tentativa.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Na contradição das noites
quentes de agosto,
eu viro, reviro, remexo,
acho coisas sem sentido
entre todos os sentidos.
Penso em ti
e me pareces tão distante,
de mim, dos meus sonhos
e dos meus amores.

Encontro vagas companhias
e me apetece uma
noite a caminhar
pelas ruas
a esmo e
sem perigos.

Volto ao passado
e não encontro nenhum
verso
que te remonte.

Ele:
tenho saudades dele
somente quando o vejo
e me assalta um carinho
imperfeito,
pleno de guitarras
e baterias e contrabaixos.

Dói esse sorriso
das músicas sonolentas
e das músicas agitadas
do calor de agosto.

domingo, 30 de agosto de 2009

Hoje,
nada se parece com você,
nem mesmo a música,
aquela música que embalou
tantas ilusões e declarações
de amor.

Hoje,
tudo me distancia da menina,
menina que lia poemas escondida,
aqueles poemas que abalaram
tantas certezas e opiniões
sobre o amor.

Hoje,
nada faz lembrar você,
a não ser a sua ausência,
ausência embalada
pela música
e pelos poemas
que deixei para trás.

Não vou pedir tréguas
nesta briga que comprei
há uns anos atrás,
não quero paz,
quero coração acelerado e
lágrimas e tropeços
e canções e sussurros
nos ouvidos.

E eu intento agora viver,
causa do passado,
sem condenação
e sem clausuras.
Começa agora:

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Hoje resolvi mexer nos meus arquivos... Achei coisas das quais nem lembrava. Dentre elas, o poema a seguir. Interessante ver o que a Janaina de 18 anos pensava, como escrevia... Interessante me deparar com outra Janaina, que tinha outras preocupações, outros ideais e outra forma de escrever, até mesmo ensaiando métrica. Compartilho com vocês esse estranhamento que senti há poucos momentos atrás. Uma boa noite!


Brotou da boca fremente
de um velho, índio, judeu:
Não sei quem é mais demente
se é o resto ou sou eu.

Andou no senso recente
comum que já esqueceu:
O que você acha comente
se for o mesmo que o meu.

Saiu da boa indecente
de algum puritano ateu:
Tenho no sangue latente
só tudo o que Deus me deu.

Lembrou um sábio inerente,
pensante que se meteu:
Ser humano é ser doente
mais no outro que no que é seu.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009


Eu gosto disto:
tantas dúvidas e
tantas noites de espera.
Faço peripécias
e espero luz do sol
no outro dia.
Leio os jornais e
atento para todas as notícias
que podem te conter,
furacão.
Isso! Estou falando contigo,
coração.
É um diálogo e não
um divagar
por entre as pedras
do meu pensamento insano.
Estou falando cara a cara.
Eu leio este jornal,
tu lês este jornal mais tarde,
quando estou nos braços da noite
tão carente e tão
bem acompanhada.
Tu não me compreendes.
Estou falando exatamente disto
que não consegues entender
entre dentes,
entrelinhas.
Estou falando entre dentes
e não estou tratando de
entrelinhas, embora
elas persistam.
Estou falando de sol e de calor,
de sentir-me mais sóbria ao teu lado.
Estou falando de estrelas e de brisas,
de estar menos tensa ao teu lado,
quase nada.
Estou falando e a palavra prende,
agarra-se ao nada,
foge,
deixa-me sem ar.
Não falo de promessas,
mas de pactos.
Do impacto que me causas.
Estou falando do indizível.
Só.
Rigor não compreende.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Noites e dias chuvosos
e temperamentais
eu - intempestiva -
saio à cata de amores possíveis
e rubores potenciais
Gosto das tempestades
e desse ar de aventura
que me trazes
desço do carro
e não há nada mais
que me supere
que recupere
aquela ingenuidade de
quando me conheceste
corro dos pingos corrosivos
e como se não houvesse
mágoas tentas me consolar
Noite em bares
com luzes coloridas
e vozes suaves nos ouvidos
Todos querem me consolar
Fico tão à vontade
no conforto
que me traz a luz elétrica
se ela de repente falta
me dá medo e preciso do teu peito
E isso é porque percebo
que a cor da noite é absurdamente
clara sem os holofotes
e com nuvens
Noites turbulentas
corroídas por alcóois
Fecho todas as janelas e parece
que algo estranhamente falha
Não consigo dormir
me domina uma sensação
estrangeira
de não poder pensar
Ordens médicas
estou proibida de pensar em ti
por duas semanas
Lembras do agosto passado?
Lembras da minha roupa clara
absurdamente clara para o inverno?
Lembras dos ruídos
que te proporcionavam tanto abraço
e coragem?
Não posso pensar
Não me atraias
Não me traias
Trago comigo aquela
vontade urbana de querer
o mar
Não me vejas
sou invisível e se mostrares que me vês
perco meus poderes
Ñão me digas que nada se passou
entre os dois lados deste abismo
Não sabes o que penso das rosas
que me enviam
Não sabes quantos homens
demoraram-se aqui
Escapa de ti o amor que senti
por eles
Escapa-me a dor que abafei
em festas e romances
Escapa a voz que me soou
nesse momento

Escapa...
estou morrendo aos poucos
mas queria ter toda a morte
no final
Paixão transborda em mim
sem destino
e possibilidade

quarta-feira, 5 de agosto de 2009


Tão rápido que não posso tocar

e esse é meu testemunho
acordo na madrugada
e rejeito claridades
mas gostaria de saber o que
dizes tão distante
neste sonho que insiste
em retornar

Está voltando
Retorno em horas
horas cansadas do dia
cansadas de esperar

Fugiste dos tribunais
em que eu era ré confessa
em que eu era
santa discórdia
negando as superfícies

Está fugindo
e eu não posso crer nas claridades
das madrugadas
tantos comprimidos
tantas falas imaginárias
mendigos, divas, divâs
e tudo o mais
as ruas me rasgam no asfalto
áspero
aspereza do olhar

de repente
o sonho tão azul
dos contos de fadas
vira pesadelo
quer ser um pesadelo
e eu não escuto o que dizem
os mortos que retornam

retorno em silêncios
silenciosamente
os pesadelos voltam a ser sonhos
e sem avisos
me jogam na felicidade
que dói de tão absurda
absurdamente silenciosa e
sobrenatural

tenho medo de felicidades
sobrenaturais
caem do terceiro andar.

sexta-feira, 31 de julho de 2009


E se não é a arte esta coisa de nos
identificarmos sem saber exatamente em quê?
Este estranhamente familiar
que nos leva em arrebatamentos por segundos?
Era só um filme...
um filme de romans, de pedros, de fernandos,
de espanhas, de méxicos, de franças e de saxões
familiarmente estranhos,
logicamente insanos.
E eu me vejo, me amo, me arrebato
te vejo, te odeio, te desperto.
Não é só um filme...

Definitivamente, não podes me perdoar,
ao que eu questionaria,
cairia a teus pés.
Não podes me perdoar pois estamos neste instante
definitivo em que é impossível perdoar erro tão grotesco.
Exatamente porque estar aqui é um erro
imperdoável.
Estamos neste extremo em que não há mais
respostas,
não há perguntas, não há razões,
só há comprimidos,
mas não cura.

Olho pela janela e me assalta uma dor
amortecida por este céu tão doce.
Não há quem possa sofrer
sob um céu tão doce...

De repente, acordo assustada,
temo as premonições.
Agora te pareces com um fantasma.
E eu tenho medo de fantasmas.

Quero tanto que o barulho do chuveiro
se pareça somente com esse cair de águas
sem sentidos e sem futuros.
Tempestades.

Te surpreendes com meu rosto?
Acharias possível evitar este encontro fugaz?
Pensaste em mim nos últimos meses?
Como dormes sem meu abraço?
Tudo se repete.
É tudo igual, tudo como antes.
Só os sentidos mudam e mudam constantemente,
escapam.
Tudo o mesmo no papel, mas há algo que excede
esse testemunho:
Amor transborda.