terça-feira, 27 de março de 2007


Uni-vos, derrotados,

Afiai a faca da ignorância

Na solidão que vos atormenta.

Falai pensamentos turvos

E desesperados.

Talvez vos alivie

O falso julgamento.

Sejais superficiais

Na conspiração.

Depois, sei que voltareis

Com o egoísmo

Entre as pernas,

Mudando ditos

E refazendo tormentos

Segundo o que vos é

Mais interessante

Porque apaga este jugo

De serdes algo

Que ninguém vê.

segunda-feira, 26 de março de 2007


Vida partida pelo meio:
Seguir o mesmo caminho
E ainda assim, caminhada solitária.
Ainda outro dia,
Combinávamos o que seria de nós
Hoje:
Nada.
União serrada pelo tempo:
Cantar no mesmo ritmo
Cantares divergentes.
E ,quem sabe, em lugares diferentes,
Lembrar a mesma lembrança.
Festejos?
Só de um lado.
Do outro é pensamento suspenso,
Ruptura pormenorizada,
Laços que se rompem pela metade...

Nesta tarde de novembro,
Pergunto – mesmo sabendo que a resposta é infinita –
Ontem, por que não fizemos um nós
Que durasse eternamente?

terça-feira, 20 de março de 2007


Forças inabitadas

Rondam o meu destino.

Não sei o que será de mim.

Relva.

Sábias palavras do sábio

Que morre longe

Me delineiam.

Neste dia ininterrupto,

Quero saber para onde vão os sábios

Quando morrem.

Não saberia dizer

Se morro a cada dia

Um pouquinho

Ou se vou ter toda morte no final

(Eu não saberia ditar um fim)

Ainda outro dia,

Aprendi a fazer as pessoas pensarem em mim,

No entanto, não consigo pensar em ti.

Não posso acreditar na cinrcunferência.

(Será que estou morrendo aos poucos?)

Não sei mais quando acabará esta vertigem

De estar no mundo

Sem estar em mim.

O Outro.



Janaina Brum

Não posso mais manter a perfeita dicção

De quem não sente e não teme.

Tenho por força que mostrar

Minha inquietude.

Não posso mais dizer ao outro que não sinto.

Preciso que todos vejam meus sintomas.

a transparência não é mais do que a necessária

Para que me saibam.

Não quero mais aquele que durante todo o dia

Não me percebe, vibrante,

E que à noite, no entanto, dorme ao meu lado

E exige juras de amor eterno.

Preciso tirar a máscara

E declarar, infame,

A busca de um eu que transcenda

Os limites últimos da tirania.


Janaina Brum

segunda-feira, 19 de março de 2007


Não quero mais ser

O motivo malfeitor

Daquele que não tem motivos.


(E eu era um todo de linguagem

que estourava pelos poros e,

no entanto, não conseguia falar)


Não vou brigar, não vou fazer nada.

Eu naõ tenho motivos.

Eu não poderia ter.


(E a linguagem aumentando em mim

e eu impedida de falar.

Tudo queria falar:olhos, pés, mãos)


E o domingo terminava.

Meus olhos pulsavam de terror.

Eu jamais poderia.


(A linguagem que morria e não se mostrava.

No entanto, meu silêncio

era todo fala ininterrupta)


Desta vez não haverá lágrimas.

Meus olhos teimam...

Eu não poderia chorar.


Janaina Brum

quarta-feira, 14 de março de 2007


Não concebo a vida sem poesia;
A poesia cotidiana,
Como a poesia de uma professora de cento e vinte anos
(pela experiência sincera)
Que, ainda com a mesma empolgação sagitariana,
Prepara suas aulas na beleza de um mundo que não existe...
Com aquela ideologia infantil
(não infantil, mas imatura; e, por isso, bela)
Que se renova na esperança que só se realiza
Pela existência de pessoas assim;

A poesia que faz chorar
Porque diz, de forma legítima,
Aquilo que, em si, torna-se real;

A poesia dos atos impuros,
Que se tornam impuros
Pelo senso-comum de uma sociedade
Que não tem mais razão de ser;

O cotidiano em forma poética:
A poesia em forma de cotidiano.
A pedra no meio do caminho
Que, em cores doloridas,
É lançada não sei para onde.


Janaina Brum

terça-feira, 13 de março de 2007


Sublime heresia
Dos rostos disformes.
Alguém me dizia:
“Idéias não formes”
Tão livre irradia
Das paixões enormes
Esta fantasia,
Humana não tornes,
Em motes do dia,
Jamais! Nunca informes.
A sua magia,
Deixe! Ainda dorme...
Na imagem macia
De um sonho, de odes...
Que esta prelazia
Lá fique, em seu orbe.
Senso comum, torpe,
Que se delicia
Nesta imagem ocre,
Que sempre inicia
Sensação tão forte,
Que se vê, se via,
Se vai...

segunda-feira, 12 de março de 2007


Na rua traversa,
Disperso o vento,
A chuva não sessa
No meu sonho isento.
Perdão não me peças!
Não quero lamentos!
A ira possessa
Vai no pensamento.
Promessas, promessas,
Aquele tormento.
E logo começas,
E logo eu tento.
Acabo com essas
A custo de intentos...
Mas amanhã...é,
Já é outro dia.

E que este amor,
Salpicado de lugares-comuns,
Dure para sempre.
Com seus figurinos típicos,
Suas monotonias
E seus cantares.
Tumultuadas tardes
De verão
Enclausurado.
Simuladas noites
De inverno
Ao relento.

Dos vinte e um aos trinta:
Nove.
Ainda terei esta
Loucura
Talvez sensata?
E esta paixão?
Incólume?

Mas a lembrança
De um rio desnudo
Que não é tão belo
Quanto se apresenta.
Mas a lembrança
De um beijo insólito
Na margem
Na amurada.

Linha divisória...
E... Que este amor...
Salvo de lugares comuns...
Dure para sempre.

Janaina Brum

Abandono-me à solidão:
Vago desejo de ser água.
Triste sombra
Ao final do dia.

Despeço-me da tua lembrança:
Tênue desejo de poder ser tua.
Clara chama que te remonta.
Silêncio...

Monólogo que me comove:
Amor que se atenua.

Janaina Brum

domingo, 11 de março de 2007


Tarde cinzenta:
Escrevo
E perco-me na teia das significações.
Palavras claras em meio à sintaxe tortuosa.

Fumo
E distraio-me na imagem da fumaça.

Será que virias, se eu chamasse
E me tirarias, tonta, do papel?
Improvável.

Janaina Brum

quarta-feira, 7 de março de 2007

BREU



O que farei com este sol
Que insiste em segmentar-me
A visão?

Meu pai conta histórias
Que não ocorrem mais
E eu penso num passado
Que não me pertence.
Breu

No quarto fechado,
Apenas um elemento
Quebra a escuridão:
Abajur da infância,
Velho, lascado.
Breu

Calma, meu amor,
Às três horas passo para
Te pegar.
Por que tanta pressa?
Breu

Começo a viver agora,
Neste instante.
Acelero,
Não piso no freio.
Futuro? Não vou pedir nada.
Breu

terça-feira, 6 de março de 2007


Tudo Tempestade
Trazer à tona
Teses e técnicas
Antigas.

Tormento

Tu, querido amante,
Assim me tinhas,
Torturante.

E mesmo então,
Na tessitura de minha voz,
Intuías os meus lamentos.
Entontecido.
Estonteante.

Belo tratado
Este só nosso
De tardes e noites
Turbulentas.

Tédio que não termina
Até que venhas,
Talvez,
E me tires desta tontura
Cotidiana que sobrevive
Apesar da morte.

Janaina Brum

segunda-feira, 5 de março de 2007


EPÍGRAFE

Nada se faz à sombra de um destino.
Que ares nebulosos atirem-se sobre mim!
Que mares em conflito configurem a calma.
E que promessas não se cumpram.
Turbilhão de novidades.
Pequenas doses de Nirvana.

- Desafio –

Tarde chuvosa de verão...
Escreverei e terei febre.
Claro, Pessoa!
O que fazer com esta linguagem
Rudimentar
Que não descreve?

Não é à toa que o verso acaba assim.
Não é à toa que o mundo está assim.
Não é à toa.
Não ordenarei o caos.


Janaina Brum