quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Uma fagulha
- hulha -
assombrosas telhas

jaz o retorno

em tortuosas folhas

olhas o fim
e não o vês

colinas não existem
tampouco céus azuis

troco os tremores
por perguntas vis

última oferta
troco um nó na garganta
por tenros rouxinóis
tão límpidos quanto anzóis

morreu o tempo
o fogo
que fura
teu olho
não vê

o olho
que disputa
o fogo
não vê

o que não vê
não olha
posto que chove

chove no fogo
do olho que olha
e vê o pouco que
pode ver
o olho que chove

chove fogo no olho do mundo

Em maio de 2014

Lattes III

Pesquisadora encontra vestígios
de índios em ilha
do Rio de Janeiro
Uma pedra

Na entrevista a pesquisadora
mostra-se apressada
e inquieta
o repórter não sabe a causa
de tanto alvoroço

Ele não sabe, mas os
pesquisadores brasileiros sabem
ela precisa urgentemente
de um maço de cigarros e internet
para poder colocar na plataforma
sua grande descoberta

O que a pesquisadora não sabe
sequer desconfia
é que no Lattes
não há maneira de inserir
uma pedra como indício de
que índios habitaram ilha do
Rio de Janeiro

Na quietude de seu quitinete
em frente à tela em branco
do computador
a pesquisadora chora

Não há categoria em que caibam
pedras
tampouco há bolsas concedidas
a quem as descobre

Em abril de 2015

Lattes II

Morreram todos os linguistas
e ao que consta
não deixaram herdeiros

Noticiou-se na tv e no
portal metrópole
ninguém sabe ninguém viu
foram-se os linguistas mas apenas
dezoito corpos foram encontrados

Não se encontraram tratados
sobre novas línguas
tampouco se tem notícias
de gramáticas
da língua falada

Levaram tudo consigo
todos os bancos de dados
e apagaram seus Lattes da
plataforma

Surgiu um boato
apenas um boato
diz-se que foram aos bordéis
linguistas e linguistas
nus e nuas entre prostitutas e michês
à preferência do cliente e da clienta
diz suas últimas pesquisas
sobre o "c" de certo
e o "c" de cu

Foi em vão procurá-los
mas dizem
e dizem apenas as más línguas
que foram felizes para sempre


Em abril de 2015

Lattes

Só não quero baboseiras:
teses estéreis sobre a mesa
atravancadas de concisões
brotam irreversíveis
na família CAPES brasileira

Sou uma mulher sensível
nunca abri a revista azul
talvez devesse
ou não

O Lattes adormecido
há três semanas

Qualis A
somente só ali
cabe minha catarse
será tão bonito
certamente na école normal
supérieure
acontecerá minha morte

Não caberão em meu ataúde
tantos artigos e resenhas
tantas pesquisas e tantos resultados
esquadrinhados em estatísticas
milimetricamente tratadas
por terceiros

É uma pena:
editora não me quer
mas há de chegar um dia
em que tanta ordem do dia
tenha um fim e não retorno

Sofro de um trauma
tão claro como não são os traumas
era uma vez uma revista Qualis C
tão medíocre quanto o que cabe nela
não há mais pareceristas em minha porta
estou em depressão

Não retornarão meus colegas de
mesas redondas
que pairam em torno de perfumaria
e novas rondas

Em breve um novo idioma
lê bem escreve bem e o mundo será
meu
no more Rivotril
no more chá de camomila
a Cinderella da Plataforma Sucupira
venceu sua síndrome do pânico
e tornou-se pós-moderna

Fragmentariamente feliz
e organizada em coletivos
horizontais repletos de novos
hippies
politicamente corretos
envoltos em concreto
e tambores retumbantes

Morreu a lira
e nasceram milhares
de resumos publicados
em anais de congressos.



Em abril de 2015

quinta-feira, 18 de junho de 2015

tantas noites em claro

e tantas síndromes

a me espreitar

não sei como me queres

e se me queres

durmo ao som do luar
Em pleno ar
não há margens para segurar
Foi da noite para o dia,
eu dizia,
mas tu me olhavas
e não falavas nada.
Eras.
Não seria improvável
trocares os pés pelas mãos
e caminhares assim
somente
na minha direção
não fosse a alameda
de memórias por que
passas.

Não seria absurdo um
céu de borboletas
puramente amarelas
cujos significados a elas
eu impus
não fosse o meu
olhar a te construir
insone.

Eu te imagino em
uma cidade frenética
de luzes piscando
e pessoas buscando
prazeres noturnos
ensejando permanência

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Como nos velhos tempos:
ele lhe entrega seus poemas
e ela pensa em pequenas gotas de orvalho.
Eu não sei, meu caro amigo, quantos filmes
me tirarão o sono.
Orgulho não perece
enquanto ela vai à geladeira e pensa
em quantas noites dormiu só.

Como nos velhos tempos:
ela aprende retroativamente o quanto
foi romântica
e cai no risco do positivismo.
Ele tenta tanto lhe mostrar os seus
rascunhos revistos e ampliados.
Ela dorme e não anoitece
enquanto ele enaltece
seu próprio niilismo.

Como num tempo ínfimo:
ele conta seus temores
sabendo que ela lê secretamente
seus poemas e pequenas gotas pululantes
preenchem o espaço vazio de seus olhos.
Eu não sei, meu caro amigo, quantos filmes
me darão sono.
Ela faz o caminho inverso e revê sua veia relutante
enquanto ele dorme só e sonha
com estranhos caminhos da normalidade.

Como num tempo bom:
ela se despe do orgulho e deita-se tranquilamente ao lado daquele homem.
Pensa em escrever, mas nada na literatura a atrai.
Não se sente mais desajustada, perde-se o brilho da criatividade.
Pensa em fazer um grande filme, mas se distrai
nas inúmeras possibilidades de um voo ajustado com antecedência.
É como se nada lhe faltasse.
Cansou-se da palavra.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Vou ao seu encontro -
relação imaginária -
mas as perguntas são as mesmas
tudo começou poesia me devora
por dentro, estômago, rins e tudo o mais
eu não devia chorar lágrimas-poemas saltitantes
foi naquele dia, no primeiro andar
ele enforcou no limiar a tentativa
descoberta dos últimos vinte anos
nobel à espreita
auto-análise não resolve
poesia só me salva e é pouco
mas me envolve
fluorescente
nuvem é metáfora
o verão por vezes é causticante
o veneno nunca é o mesmo a não ser
que me devore feito poesia
me contenta
nunca permaneci a mesma
mas guardei resquícios
poesia corresponde
metáforas substituem
um encontro imaginário
quase onírico

fechei o tempo
Dia bonito e sem sentido para os que querem a raça pura
pura claridade obscura da tua mão na minha
Pêcheux está morto e Althusser também
Um voo lancinante do quarto andar
comunidade não existe
metafísica não consiste
sem sentido o meu vestido
neste dia tão bonito para os que querem a raça pura
capitalismo não existe
comunismo também não
era verão e era de noite
sem sentido o ar gelado
para o que procura a cura
do mal humano
há pessoas em apuros às centenas
o telefone resiste aos atentados contínuos
continuidade não é regra
é imposição à qual resisto por prazer
primavera é ficção
atrás do meu armário me escondo
e digo não aos transeuntes
não existe esta dor
não existe "não existe"
tudo eu crio
e desfaço
tudo ao meu dispôr
e os homens lá fora querendo controlar
seus extintos instintos

sábado, 17 de março de 2012

Au-déla de la littérature

É tão bonito, meu bem, eu aqui lendo e tu querendo tocar guitarra. É tão bonito: eu tão pouco absorta e tu e a guitarra. É quando eu te olho de viés. É tão pouco e é um tudo. E tu querendo tocar guitarra. É tão bonito. Eu me ensaiando num jogo de dados e tu querendo tocar guitarra. É tão bonito. Eu aqui e o sol lá fora. E tu querendo tocar guitarra. Mon petit amour est au-déla de la littérature. Traduze Joyce para que eu possa lê-lo pelos teus olhos? Tu querendo tocar guitarra. É só um fluxo. É tão bonito. Eu tão pouco absorta e Ulisses interditado pelo dicionário. Tu querendo tocar guitarra. O sol lá fora é uma metáfora, um lugar comum. Eu cheia de parênteses para enunciar clichês. E tu só querendo tocar guitarra. Tu es au déla de la littérature. E eu querendo anunciar metáforas.Nota prévia: haverá um tempo sem romances, sem novelas. Tu só queres tocar guitarra. É um todo e é um fluxo. Eu e minhas metáforas te contamos uma metade. É tão bonito. Eu tão pouco absorta. E os lugares comuns. Lacan achava que metáforas eram paráfrases. E tu, as guitarras e as mensagens. Há um ano só escrevo autobiografia. Lacan diz metáfora e eu digo paráfrase. Só paráfrases. É tão bonito. Guitarra. Ficção foi uma fuga. Lugar comum da fuga. Eu e as metáforas.

Lendo, tão pouco absorta, te olho de viés, tão pouco e tão tudo. Tão pouco é um tudo. Ensaio-me num jogo de dados, eu aqui e o sol lá fora: mon petit amour est au-déla de la littérature. Joyce para que eu possa lê-lo pelos teus olhos, só um fluxo, Ulisses e o dicionário interditados. O sol lá fora é uma metáfora: lugar comum. Parênteses e clichês anunciando metáforas. Notas prévias aos romances e às novelas: todo fluxo. Uma metáfora para Lacan: uma paráfrase. Mensaagens tuas, minha autobiografia. Ficção seria fuga? Lugar comum das metáforas. É tão bonito: tu e a guitarra au-déla de la littérature.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Tudo embalsamado em substâncias químicas:
teu verso e tua pele e teu rosto na vidraça.
Tudo se perde aos mililitros.
Dissolvo teu choque em água quente,
talvez banho-maria.
(Nos filmes de autor
há sempre um portal a
insistir na possibilidade de
um suspense)
Suspense barato aos mililitros.
Suspense embalsamado em substâncias químicas.
Teu verso e tua pele e tua mão no meu rosto.
Aos mililitros.
(Isqueiro esperto
por que se esperou na fila
do banheiro)
Teu verso e tua pele
não meus
aos mililitros.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Aqui

Eu não quero construir nada. Eu não entendo por que me cobras tantos futuros se eu nunca quis estar aqui. Era sempre uma sucessão de fatos prováveis e inadiáveis que me fazia estar contigo. Eu nunca quis te dizer nada. Se te disse palavras contundentes foi por gostar de ver as palavras agindo por si só. Eu não quis te ferir, juro. Quis dizer uma água batendo na janela e ela bater. Quis dizer um amor e ele amar. Isso não é uma justificativa, calma. Mas eu preciso dizer. Acaso não vês agora a diferença entre o querer dizer e o querer mostrar? Não percebes que este choro não é aquele choro vazio do outro dia? Calma, vou explicar o inexplicável.
Eu nunca quis construir. Não quis estar aqui. Não pedi, entendes? Enquanto vibravas, eu queria só fumar um cigarro. Se eu te ouvi dizendo lonjuras foi só por querer te responder adequadamente e te fazer brotar. Eu não era aquela que admiravas. Lembras daquela noite em que me encontraste no meio-fio da calçada com os nervos por um fio? Eu sou aquela. Lembras que me dizias louca e "vai passar, vai passar"? Eu sou exatamente aquela que te dizia barbaridades e ódios e raivas e mágoas. Não, a culpa não é tua: não há culpas. Não tem causa. Eu não tenho porvir.
Compreendes esta história de construção? Eu não quero. Vou ficar aqui. Não penso na profissão, no casamento. Não quero. Deixa-me ficar assim. Construir é sempre construir prisões, entendes? Não posso prever amanhãs e depois-de-amanhãs. Se faço promessas, elas são totalmente ocas. Eu deveria ter te avisado antes. Mas ririas e acharias extremamente poético.
Eu quis te dizer um dia que não construiria uma vida. Não, não é que sejas a pessoa errada. Nem a certa. Isso não existe. Eu quis te dizer. Lembras do dia em que te levei até o cais e te falei sobre a intensidade daquela escuridão? Aquela escuridão não existe mais e eu não pude, não poderia prever. Nunca tive a pretensão de prever. É assim. Um céu escuro era um tudo. Era tudo que poderia existir. Não estou falando de instantes. Não poderia segmentar a vida em instantes. Seria colocar as coisas uma atrás da outraem sucessões. Absolutamente. Não é isso. Não estou falando de viver uma coisa de cada vez, não dou um passo atrás do outro. Entendes que só existe isto: este agora e o passado.
Eu nunca construí. Só existe passado e presente. Observa como este agora é absoluto, embora entrecortado de passados. Não me toques. Não me consoles. Eu não estou louca. Este momento não vai passar. É mais ou menos como me disseste naquela noite do temporal, na tua casa. A noite da explosão. Morrerias, não? É mais ou menos disso que eu estou falando, mas eu não lamento. Eu nunca lamento a falta de futuro. Futuro não existe, entendes? É simples: eu aceito.
Não construí minha vida. Ela é à vontade. Sim, é assim mesmo, não há segredos nisso. Não, isso não é um mistério que eu protejo. Como vou te explicar? Uma vez eu te disse que o inexplicável não mora nas palavras. Ele foge e se esconde atrás delas. E é só por isso que eu sou prolixa. Olha-me nos olhos. Vês que estão vermelhos? Percebes? Sofres tanto quanto eu? Entendes que agora é tudo? Não há amanhãs. Há um breu causticante logo ali. Não podemos prever. Não sejas pretensiosa. O futuro são só palavras. Vazio como a sintaxe.
O futuro é uma construção. E eu não sou afeita às arquiteturas. Se eu não dei atenção aos teus projetos não foi por distração. Todo porvir me desinteressa pela sua natureza de ficção. Só existem passado e presente. Não é que eu não me interesse pela lua nova, é que agora ela é para sempre cheia. Eu sei que precisas ir, mas espera, já que eu não sou capaz de perceber que vais embora. Deixa eu te eternizar agora. Eu não quis te ferir, juro. Não vou embora, eu jamais sairei daqui até que decida sair daqui. Entendes agora? Agora eu jamais vou morrer. Eu nem sei o que é a morte agora. As palavras existem soltas de qualquer coisa. As coisas jogam atrás das palavras. Eu não quis te atingir com a minha eloquência. Eu joguei todas as fichas. O veneno não está nas palavras, mas em quem quer fazer delas as coisas. Não, não é lição de moral. Eu nem tenho, nem sei o que é a moral.
Eu disse amor e amei. Não construí. Mas não rego as plantas, entendes? Não, eu não vou sofrer. As palavras são dos outros. Como posso dizer uma coisa que é só minha? Não sou pública como as palavras, não insistas. Só vou te dar pistas. Entende que eu só te disse mentiras justamente porque só mentiras podem ser ditas. Vês as minhas lágrimas? São reais. Jamais compreenderás esse real.
Real não se constrói. Este é teu erro: tentar construir reais. Eles são aleatórios e fortuitos. Tu constróis enquanto eu fumo e me distraio com os desenhos intactos da fumaça. Quando eu falei em explicar, eu não falei que seria fácil ou rápido. O tempo não é assim uma linha. Eu só te amei quando eu não disse nada. É essa contradição mesmo, não me tomes por incoerente. Eu nunca quis de ti o que podias me dar. Eu era oca. Vai lá. Eu não me importo. PodeS ir. Eu nunca te quis. Eu te jurei mentiras. Eu te joguei num limbo. Pega um avião para o futuro que eu vou ficar aqui no teu passado. Eu não posso ir. Não é minha última chance, não. Eu não pensei que te convenceria, eu não pensei em chorar, eu não previ jamais preveria jamais te verei chorar nunca soube disso eu só quero estar aqui não quis antes lua cheia só ela existe aquele presente é já passado eu não imaginava vai que eu não conheço estações eu nasci aqui é isso que eu sei que eu vou ficar se voltas não importa não existe não consigo ver não sou dada às arquiteturas não futuro não quero EU SOU AQUI

Escrito em 16/06/2010

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Escada afora, noite abaixo,
te chamo de louco, busco algum laço,
todo dia, poesia, me chama de novo,
me puxa do braço,me conta teu oco,
me diz um segredo, me enfrenta – teu medo,
me desvenda: meu medo.
me perco na luz, desconheço meu passo,
te chamo em segredo e te abraço.
do traço, do oco, do medo, do espaço,
te refaço sem palavras – escravas da ordem –
na minha desordem:
puro aço, aço do sentido do teu traço em mim:

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A linguagem treme de desejo - a propósito de "USUFRUTO"

Depois de um tempo sem postar, volto sem poemas, mas falando de coisas "poéticas". Eu, que pensei ser Usufruto uma peça teatral sobre hipocrisia, com uma pitada de feminismo, me surpreendi: é e é muito mais!



Devo adverti-los de que este texto não tem gênero: crítica, resenha, artigo de opinião, talvez todos juntos e mais uma pitada de diário segredoso e íntimo – quase ficcional. Escrevo sobre a peça Usufruto, com texto e atuação de Lúcia Veríssimo, atuação de Cláudio Lins e direção de José Possi Neto. Faço isso pois a peça ecoou em mim. Como não tenho compromisso com a crítica teatral – nem com a crítica de qualquer espécie – permito-me misturar e, principalmente, admitir que misturo todos os gêneros, todas as impressões, sejam elas minhas sobre a peça ou sobre mim a partir da peça.
O espetáculo, que aconteceu em Porto Alegre, no Theatro São Pedro, nos dias 18 e 19 de junho, já tem longa carreira: desde 2009 circula pelas salas de teatro do país. O texto de Lúcia Veríssimo tem um claro objetivo, expor um pensamento muito simples e pouquíssimo aceito: “Caretice é uma doença perigosíssima, o Ministério da Saúde deveria advertir uma merda dessas”. Para além do assunto, que é a hipocrisia, Usufruto é colocado pela sua autora como um tributo a Roland Barthes e, assim,um texto que versa, sob o pretexto da crítica à nossa sociedade, sobre coisas muito profundas.
O que significa dizer que a peça é um tributo a Barthes? Não sei, só sei que, a despeito do interesse pelo tema, foi o que me fez decidir sair de Pelotas e ir até a capital exclusivamente para assistir Usufruto. Não sou grande conhecedora de Barthes, mas o primeiro texto seu que me veio à cabeça foi “O prazer do texto”, talvez pela ligação que fiz de tudo que li e vi sobre a peça e a fruição de que esse autor fala. Obviamente, não podia deixar de lembrar de “Fragmentos de um discurso amoroso”, seu texto, de longe, mais artístico. Bom, voltemos à peça.
Com cenário extremamente simples, como convém (penso eu) a um espetáculo que privilegia o texto, a peça conta a história de uma mulher e um homem – personagens sem nome – que se conhecem no apartamento que ambos pretendem comprar. A fim de resolver quem dos dois ficaria com o apartamento, propõem (ela propõe) um jogo em que cada um deve expor os motivos por que merece ficar com o apartamento.
História simples? Talvez possa, em um primeiro momento, pensar-se isso. Todavia, o texto envereda para um lugar – sim, um lugar – extremamente incômodo para a maioria: o desejo. A personagem de Lúcia Veríssimo desconstrói pouco a pouco a negação – tão naturalizada, para fazer referência a Barthes, ainda que nas Mitologias e não nos livros citados anteriormente – do desejo, consciente ou inconsciente sobre a qual se assenta nossa sociedade. A personagem de Cláudio Lins – representante legítima da nossa sociedade ocidental – é forçada simbolicamente a despir-se de todo o imaginário social em torno do amor e do desejo. O interessante é observar que essa personagem é mais nova do que a de Lúcia e é ela, como mulher de uma época de ganhos enormes contra a hipocrisia, que é o vetor de tudo isso.
Não pretendo aqui narrar toda a história, quem quer conhecê-la que vá ao teatro, mas devo dizer – e é só por isso que escrevo – que a peça tirou-me da minha zona de conforto, bem como eu gosto. Tirou-me da zona de conforto não porque trata de sexo, de moral, hipocrisia, etc., etc. ad infinitum, mas porque trata de linguagem (lembram da minha fixação pela falta da linguagem??). O texto é construído discursivamente em torno de imagens que fazemos de certo e errado, de bom e mal, de politicamente correto e incorreto, sem esquecer que é através da linguagem que se constrói tudo isso: é isso que está em xeque! E mais: está em xeque a construção de um imaginário social perfeito feito através de uma “ferramenta imperfeita”, para usar as palavras de Paul Henry, que é a linguagem. A personagem de Lúcia Veríssimo desconstrói discursivamente todo o imaginário da personagem política e moralmente correta de Cláudio Lins, trazendo à tona o desejo recalcado, o domínio do inconsciente sobre o consciente, por mais que queiramos o contrário.
A sábia incerteza dela quebra todas as falsas certezas dele. Eu, que pensei inicialmente ser a peça ligada ao “Prazer do texto”, não pude tirar da cabeça o “Fragmentos de um discurso amoroso”. Fragmentos milimetricamente ligados por um fio condutor que nos leva a um lugar surpreendente: o amor – não o amor burguês, mas o amor sem adjetivos, o amor que Barthes descreve teórica e poeticamente, o amor que, usando o próprio texto da peça é “feito para sabermos que existe”. Usufruto é definitivamente uma peça sobre o amor, o amor que queremos de um outro que criamos para nós mesmos por esta “ferramenta imperfeita” que falha toda vez que tentamos construir o que não é linguística ou simbolicamente apreensível: “amor perverso e polimorfo” (verdade que nos mostra a impossível satisfação plena do desejo) e não “amor puro e fiel” (ilusão que nos leva à censura), amor que sentimos e que raramente vivemos.
Eu me contradisse? Sim, e a contradição é nossa condição de existência. Eu disse que o Usufruto era um texto sobre linguagem e disse depois que era sobre o amor. Sobre a linguagem sobre o amor, a linguagem do amor e a linguagem no amor (expressões de Eni Orlandi), sobre o simbólico, sobre o imaginário e sobre o real, sobre projeções que só fazemos na linguagem. E isso está muito bem posto na peça: no final, toda a desconstrução do imaginário social personificada na atriz Lúcia Veríssimo se mostra um ato de pura linguagem, de pura discursividade, discursividade essa que aponta para a falha do simbólico e, consequentemente, para o real com o qual nos deparamos por esse furo da própria linguagem. Depois de, pelo viés da desconstrução, convencer a personagem de Cláudio de que suas convicções e imagens morais e sociais eram distorções e negação do desejo ou censura mesmo, a personagem de Lúcia, em um telefonema, desfaz toda a história que contou, sugerindo que sua vida tem sido tão normal (ou normalizada) como a dele. Puro instrumento de convencimento? Não, manifestação do desejo e pela única via que temos para manifestá-lo organizadamente: a linguagem. O que dizemos é concreto, o que dizemos é verdade, mesmo que seja apenas uma verdade em meio a tantas outras: o que dizemos acontece.
É dessa maneira que o texto abre para a multiplicidade de sentidos: quem se identificou com a personagem de Cláudio Lins pode ter saído do teatro aliviado, pensando que toda a desconstrução tinha o objetivo de convencê-lo e que era uma mentira. Quem se identificou com a personagem de Lúcia Veríssimo saiu do teatro confuso e contraditoriamente satisfeito com a possibilidade de várias verdades agindo sobre nós e nos constituindo. Obviamente deve haver quem tenha saído sem entender nada ou chocado.
Pensaram que eu ia falar sobre a cena polêmica  de sexo que há no espetáculo? Não, a cena é linda, com uma iluminação fantástica, mas há bastante gente que fala sobre isso; quem ficar curioso, pode procurar na Internet. Eu, que não tenho obrigação nenhuma de informar ou de criticar (aliás, eu nem entendo de teatro), reservo-me o direito de falar de linguagem, de amor e de desejo: do desejo e do amor da linguagem. Mas não se preocupem, este é só um ponto de vista ou, como eu prefiro pensar, um dos vieses por que se pode olhar para Usufrutro. Encerro meu texto com a citação de Roland Barthes que já usei várias vezes e que não saiu da minha cabeça durante toda a peça e que não sai da minha mente mesmo agora:

A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha palavra treme de desejo. A emoção de um duplo contacto: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é ‘eu te desejo’, e liberá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir (a linguagem goza de se tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação. (BARTHES, Fragmentos de um discurso amoroso, 1989, p. 64)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Poeminha sonante, aliterante e sem sentido

A troca
da toca
de rosas
na roda
que goza
que prosa
que torna
a bruta
da gruta
que volta
que goza
que goza
de rosas
de tocas
de rodas
da rosa
do gozo
do mundo

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O outro: teatro de mim

Basílica
da santidade pretendida
de um ou dois mortais,
eu vi um monte,
era cabral,
eu vi o tempo,
era um temporal.
Eu vi um mundo
e era apenas seu avesso.
eu vi
e era um descerrar de cortinas,
um cessar de horas,
um último íntimo
intenso, duro e causticante
em quatro atos,
fragmentos,
descontentes,
nós
milimetricamente
contundidos
esparsos, jogados, dados,
confundidos deliberadamente,
numa sorte dos sentidos.

Eu moro na palavra,
Tu moras na palavra.

Pura encenação do sem sentido.
Pura encenação do sem sentido.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Te liguei
telefone ocupado
ia te contar uns baratos,
ia te falar de Clarice,
novos planos e barbitúricos.
Ias me contar teus novos
projetos?
Nunca mais me falaste
de teus poemas frouxos,
não me farias rir de novo
de novos brilhos
e romances roucos.

Tenho um segredo e
só conto se insistires
(vou cortar o cabelo
e entrar numa onda
metropolitana,
vou te escrever uma carta
e sentir vontade
de poesia no avião)

Escrevi uma canção,
Bethânia vai gravar,
mas disse que vai
pedir um arranjo menos
heavy metal

coração aos pulos
coração aos pulos

não que eu sinta
exatamente a tua falta,
mas quero te contar
milímetro por milímetro
as minhas pretensões

vou comprar uma
secretária eletrônica
de Pepa Marcos
e um telefone vermelho
para esperar
diante do espelho
um telefonema
do outro lado do oceano

vou te contar um fato
desses sem importância:
pura convenção
eu comprei uma lembrança
vou construir uma memória
vou contar histórias:
super produção

chove na minha janela
e do outro lado faz
sol
vim em busca de uma
busca
te mando notícias
me mandas notícias
te mando notícias
me mandas notícias
até eu me acostumar
assim, de relance,
com a secretária muda


   :
      :

chove no centro
de uma noite
sem sentido
na capital
da minha janela
não
só uma superstição
telefone desligado

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Luzes caleidoscópicas
como num filme
anos oitenta.
São setenta filmes
por ano,
são quarenta livros,
são amores noturnos,
são paixões descabidas
como costumam ser as paixões.
Eu não vim para te ver,
Pelotas não tem mais
plátanos nem folhas mortas,
só cigarros e underground,
só cigarros, underground
e uma dose de tequila.
Vou escutar Caetano
e esperar uma canção composta
para mim.
Eu quero cantar e conhecer
o mundo,
embora tenha o mundo inteiro em mim.
Vou conhecer Paris tomando chimarrão.
Voo, mas sempre com os pés no chão.
Quisera pular corda,
mas vou pular de paraquedas,
vou soltar pipa e fechar os olhos.
Não que eu esteja disposta a correr riscos,
mas eles têm uma predileção pelos
desavisados como eu.

Chove uma chuva fininha
na minha alma.
Calma.
Não quero mais.
Vou engolir o mundo,
embora tenha o mundo inteiro em mim
e mais cigarros, underground
e uma dose de tequila.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A tua palavra é equivocada e eu comprendo:
eu vi um avião e estavas dentro.
Eu vi Caetano, Gal e Betânia,
Tive um pesadelo,
acordei no meio do oceano,
gritando teu nome.

Vamos para a Espanha,
vamos no bar da esquina,
que nunca acabe a esperança.
Somos loucos,
mas não estamos sós,
vamos embarcar num transatlântico,
fazendo regressão marítima.
Vamos inventar um novo ritmo,
este que não dança...

Mas todos os tons, cores inimagináveis,
vamos andar cambaleantes,
rindo alto,
tão alto que ninguém escute.
Essa é a nossa contradança.

Te ligo amanhã?
Me pegas agora?
Em boa hora!
Albergue espanhol?
Persona?
Coração disparado,
te conheço do outro lado
da nossa montanha.

A minha palavra é equivocada e tu compreendes:

Para Augusto Radde

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Texto em colaboração com Augusto Radde e Wisrah Moraes.
Dos arquivos de Karina Bernardes

Devaneios de mesa de bar a partir da tentativa de dizer, mas da certeza da falta...

O tom era o de cinza, mas havia uma breve luz amarela que fazia os corpos vibrarem...
Será desejo mesmo? Me contento com o silêncio que grita alto, com a falta que supre qualquer sensação...
Sigo pelo labirinto na dúvida de qual caminho seguir. Mas o tom agora é outro, a sensação é outra...
Não haveria sequer a dúvida sobre o caminho a seguir.
Era uma nuvem em que eu subia: transporte público.
Era uma via e outra via e, eu, era pelas duas.
O fundamento do labirinto nunca foi encontrar a saída: tique-taque, tique-taque, mas foi um dia desejar pelas duas vias, se perdeu...
Não sei das vias em si nem do nosso abandono e de nosso tempo. Porém, sempre, eu digo, não basta progredirmos apenas em nossos sonhos que o dia é mais e nos é menos que o dia pode ser.
Ser em desgosto todos somos e sabemos ser, e crer e viver.
Bastamo-nos e sejamos menos que possamos ser a nós, sérios plagiadores, sentidores das dores em nós, e em que a inventamos, prontamente, o que possamos ser...”

09 de setembro de 2010.

Augusto Radde, Janaina Brum e Wysrah Moraes.

Organização, tal qual, de Kaká Bernardes.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Era um encanto:
era um cântigo,
um argumento,
era meu.

Se hoje lembraste de mim
ao escutar uma canção,
não penses que deixei de lembrar de ti
justo naquela parte em que o disco arranha.
Não era para ser,

conta-me o teu segredo,
que eu mais nada tenho
a dizer,
conta-me coisas banais
e até mesmo fúteis,
eu acho graça.

Ouve, quero te dizer uma coisa,
mas em segredo:
só te vejo de relance,
mas houve um lance que
me deixou tonta:
gostei de ouvi-la cantar,
não sei se é loucura ou impertinência,
mas ainda assim lembrei de ti.

A minha lógica é a lógica
da linguagem e mais nada,
vazia puramente
como a lógica de uma palavra.

Não esperas de mim
um ímpeto?
Não esperas de mim um átomo?
Nada esperas de mim?
Pois saibas que toda noite
eu te dou tudo de mim,
mesmo sem lógica,
quase heróica,
uma pétala,
um plátano,
avassaladora.

Vou esperar telepatia
pelas ruas por onde eu ia
te encontrar.

Sou quase nada
talvez um único nada
o que não exige pontuações
eu existo tudo em mim
na tua imagem

espero uma carta distraída,
um encontro na esquina,
uma mesa de bar
e duas doses de Whisky
e duas pedras de gelo, por favor.
Não mandes recados,
te vejo nas próximas horas,
eu mesma caminhando
e enfrentando tua mão na nuca.
Eu diria nunca,
não vou acordar.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

E ele escrevia
na velocidade da linha
e era assim que dava
um pouco de si a ela
uma estrela
um barco a vela
um furacão

morrem os instantes
em um segundo
mas a linha fica:
puro pó
no início do início
do século

Para meus amigos Crisântemo (A. Radde) e Margarida (L. Santos)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

E quem disse que o mundo não lembra de Ana C.?

BIENAL - SP
Créditos da foto: Franciele Rodrigues
Guarienti
Eu quero viver na Comunidade do Arco-Íris,
bem longe dos louvores,
bem longe das estradas
e das ruas congestionadas.
Eu quero viver atrás dos montes,
mesmo sem bucolismos, 
não importa.
Eu quero viver longe das calçadas,
das ruas descalças,
dos sonhos inatingíveis.

Eu vou voando em um segundo,
fugir, escapar do tédio absurdo
do mundo,
eu vou.

Não quero lembrar das estradas
e de todas as convenções que isso implica.
Quero estar em vigília,
sem propagandas de refrigerantes,
refrigeradores e condomínios gigantes.

Não vou para Pasárgada,
não quero reis, nem mulheres, nem camas.
Tampouco palmeiras e sabiás e
terras com pronomes possessivos.
Eu quero o impossível, o indizível,
eu quero o que a metáfora não alcança,
vou voltar para antes do estádio do espelho,
colher cogumelos e usar sapatinhos vermelhos.

Não comprei passagens, não espero aviões,
vou assim mesmo, de pés descalços e de pijama
e quando eu sentir saudades, vou cantar uma canção inédita,
vou me lembrar de anedotas
e vou dormir como criança,
ouvindo roques rurais -
eu e os ancestrais.

Não me mande notícias, a ECT não
chega na Comunidade do Arco-Íris,
se vier para ficar venha,
sem pompa e circunstância.
Se tiver receios, paciência!
Mas sonhe comigo,
entre bruxas e sereias,
entre hippies e mágicos, 
sem melancolias de auroras de infâncias,
mas de novo uma criança.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010



porque sou uma instância inferior de céus
e nuvens e trovões,
porque quero os clichês ardendo em mim
antes de serem clichês, chavões e banalidades,
porque vou até o sol e queimo frente a tanto enfrentamento,
porque choro sozinha nas noites e nos dias em que voo sem pouso,
porque sou pouco e sempre desejei o mais,
porque vou sair a procurar porquês,
Eu estou aqui. 
Por que vou até teus pés e volto em um átimo?
Por que sou sempre a última?
Por que levo dois tempos, assim bem computados, para
pensar e transformar os ímpetos em planos?

Volta à casa o antigo dono, faz do chão o seu entorno,
torna a mim o meu intento, vem do céu o sol e o vento,
não sou eu que escrevo cartas e as rasgo dois segundos depois?
Não sou eu aquela que quis roubar dois ou três versos geniais?
Porque percebo essa farsa em cinco atos ancestrais.

Estou ardendo e ninguém vê. Por quê?
Eu vou saindo pelos fundos,
não tenho ganas de paixões, de verdades,
bobagens, canções e novos mundos,
só vou saindo pela porta de trás,
querendo chamar atenção pelos 
avessos. Eu sempre fui igual
e invertida.
Eu sempre fui igual
e pervertida,
só me falta a ginga social.
Vou saindo pelos fundos,
mas continuo a espreitar meus passos:

vou amanhã ao meu encontro

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Aqueles dias foram
atos, foram portos,
aeroportos,
passagens, miragens
e eu era a feiticeira,
a cigana,
a rainha.
Eu jamais soube de
qualquer fluido,
de qualquer ruído,
de divindades
e freiras.
Eu era um porto de passagem
eu era hospedagem
eu era tudo o que
querias,
eu era tu
eu eras tu
todas
as eras
todas as ervas
eu em espanhol
eu em fluidez
eu de novo na terra
molhada,
eu devastada,
eu descoberta,
eu improvisada,
mundana
no submundo
eu uma deusa alada

atençào, senhores passageiros,
sem companheiros, sem aeroplanos,
estou voltando para terra firme.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

As pessoas boas estão morrendo. E eu as entendo: também sinto um tédio absurdo no mundo.